
Por ser a Argentina — muito em especial Buenos Aires — o grande polo judaico latino-americano, não é pouco falarmos de dois episódios despercebidos ocorridos em 1876, sendo um relacionado com o outro. Foram a autorização ao Ministério do Rabinato e a Lei Avellaneda (Lei 817), que permitiu e incentivou a imigração.
Trata-se de um sesquicentenário que merece a nossa atenção.
Devo contar a minha experiência naquela que se autodefine como a mais linda das cidades, e eu não me atreveria a contestar essa justa ousadia, pelo contrário. Morei lá em Buenos Aires no final do século passado, e um dos motivos para eu ter me apaixonado tanto por aquele lugar maravilhoso em que vivi e imergi, para ser ele um dos meus raríssimos lugares no mundo (os outros são Capão e Israel, cada um com seus motivos de pertencimento), tipo um lar aconchegante, foi a forma como me reintroduziu e reaproximou das minhas raízes judaicas, que andavam, apesar de sempre firmes, meio que adormecidas.
Mas, sobre isso, de lares afetivos e raízes, sempre vale um texto à parte. Conheci muitos lugares lindos no mundo, mas em Buenos Aires morei; em Capão, passava os três melhores meses do ano na infância e adolescência (é a minha Macondo); e Israel é onde chego e tenho a sensação única (e ótima!) de não ser minoria.
Cabe uma explicação: por que “reintroduziu” e “reaproximou”? Porque, na minha juventude, na faculdade, no Jornalismo e com o temperamento transgressor que sempre tive e terei, a educação judaica típica na infância e na adolescência passou por um hiato, em que esses assuntos se me tornaram desinteressantes (“caretas” em algum momento, porque, na época, a minha geração, filha e neta de refugiados sofridos que nos impunham uma condição e vivendo os anos de redemocratização brasileira, tinha outras preocupações, legítimas, mas jamais incompatíveis com as raízes), até que fui morar em Buenos Aires para ser correspondente da Folha de S. Paulo, testemunhei um temperamento muito mais maduro e consciente, e, depois, eu e a Dione pusemos sem pestanejar os nossos filhos no Colégio Israelita Brasileiro. A volta foi natural, talvez necessária e inevitável, porque achar a identidade “caterice” era tolice, e os resgates foram uma consequência “muy linda”.
Agora, tratemos dessa maravilhosa história dos judeus na Argentina, país onde palavras judaicas são compreendidas (tuches, mishiguene, shmok), em que nossa cultura está tão impregnada no ambiente quanto a espanhola ou a italiana. A exemplo de Nova York, Buenos Aires tem artistas, como Adrian Suar e Cecilia Roth, que provavelmente você nem sonhe serem judeus porque usam sobrenomes artísticos em vez dos originais Schwartz e Rotenberg.
(Abro outros parênteses para falar sobre Max Glücksmann, grande promotor das origens do cinema argentino e responsável pela construção do prédio onde hoje reluz a espetacular Livraria El Ateneo, atração cultural na portenha Avenida Santa Fe, que talvez você conheça como turista.)
Haveria muito o que falar de uma comunidade pulsante e lindamente influente, cujo humor foi pautado pelo hilário monologuista Tato Bores (Mauricio Borensztein, pai do cineasta Sebastián e do escritor Alejandro, colunista dominical do Clarín), mas acho especialmente curioso, apesar de bem menos relevante, que, desde 1998, Buenos Aires tem o único McDonald’s kasher fora de Israel, no Abasto. Não me parece pouco. Também não me parece pouco o número expressivo de vítimas judaicas na sangrenta ditadura de 1976/83. E devo repetir algo que costumo dizer: os filmes do maravilhoso Daniel Burman, frequentemente com temática judaica, conversam mais com o meu judaísmo do que os do Woody Allen, e isso que os do Woody Allen conversam muito. Ah, e o teatro em iídiche, cujos renomados artistas argentinos se apresentavam em Porto Alegre, porque aqui ficava o meio do caminho em direção a Rio e São Paulo?
Daria pra irmos muito longe nessa conversa, né, Alejandro Lerner, Lalo Schifrin e Mateo Sujatovich?
E nem citei os vários e destacados jornalistas e historiadores. E também os psicanalistas! A uma quadra de onde eu morava, na esquina da Araoz com a Santa Fe, tinha o Café Sigi, inspirado em Sigmund Freud, numa região (bairro Palermo) cheia de psicanalistas, muitos deles judeus.
Claro, falamos de um sesquicentenário, mas podemos voltar ainda mais no tempo. Assim como meu livro “Uma estrela no Pampa” (SLER Books) não pôde se limitar a contar os 60 anos da Federação Israelita, voltando para ainda antes dos 120 anos da coletividade judaica brasileira organizada, na Argentina também é assim.
Enfim, vamos por partes, como dizia aquele inglês de maus modos.
A autorização do ministério rabínico, em 1876, foi essencial. Ali houve a permissão oficial para o exercício da fé judaica. A partir de então, uma incipiente comunidade recebeu um aluvião de refugiados, em especial do Império Russo, com seus pogroms. E isso se tornou oficial com a Lei Avellaneda, promulgada pelo presidente Nicolás Avellaneda, que tratava de imigrações em geral, mas teve impacto decisivo e direto para a chegada dos judeus.
Buenas, mas a história dos judeus na Argentina começa basicamente em 1619, com a chegada a Buenos Aires de oito navios com imigrantes criptojudeus provenientes de Lisboa e Lima. É mais ou menos como no Brasil, onde Gaspar da Gama chegou já na condição de tradutor do descobridor Pedro Álvares Cabral (por isso, a imigração iniciada em 1904, em Philippson e depois Quatro Irmãos, é definida como o início da coletividade judaica “organizada”, mesmo tendo se iniciado séculos antes com os sefaradim que fugiam da Inquisição na Península Ibérica).
Na Argentina, a população judaica é estimada hoje em algo como 200 mil pessoas. É a maior da América Latina e, como dito ali em cima, de profunda influência cultural no país, o que se explica pelo manifesto apreço aos estudos e à leitura (algo muito cultural) e pela união das pessoas, que se ajudam na superação das adversidades. É a explicação para tantos destaques, inclusive na conquista de prêmios Nobel.
Outro momento essencial para a vinda dos judeus foi a assembleia constituinte de 1813, três anos depois da Revolução de Mayo, que erradicou a Inquisição herdada da coroa espanhola. Na verdade, não foi propriamente uma Constituição porque ainda não havia um país (a independência foi em 1816). A primeira Constituição Argentina foi a de 1853, ainda hoje vigente, com uma série de reformas. Aliás, é importante, quando se fala em Argentina, às vezes depreciativamente (na Copa do Mundo, houve uma absurda campanha anti-Argentina, com acusações levianas e generalizantes), lembrar que foi ali, 35 anos antes do Brasil, que se erradicou a escravidão africana. E foi também ali que se garantiu a liberdade religiosa, o que já tornou o ambiente receptivo.
Em 1862, havia apenas uma centena de judeus na Argentina, mas eles reuniram 10 pioneiros pra festejar o Pessach, surgindo então a congregação israelita local. Já era, apesar do pequeno contingente, a organização embrionária de uma comunidade. Assim estava a situação dos judeus quando, 14 anos depois, foi autorizado o ministério rabínico e posteriormente se iniciaram as imigrações oficialmente autorizadas (na verdade, incentivadas) por Avellaneda.
Assim como no Brasil, no Canadá e nos EUA, a imigração judaica na Argentina foi promovida intensamente pela Jewish Colonization Association (ICA), fundada pelo filantropo Maurice de Hirsch. Entre 1885 e 1889, 2.385 judeus chegaram ao país em razão da intensificação das perseguições e segregações antissemitas na Europa Oriental. Precisamente o ano de 1889 é tido como o início oficial da coletividade judaica na Argentina. Um grupo de 120 famílias (828 pessoas) chegou, naquele ano, no navio SS Weser, instalando-se na icônica colônia Moises Ville, na Província de Santa Fe. Sempre com o apoio da ICA e em um contexto parecido com o dos judeus brasileiros, 15 anos depois, nas colônias gaúchas de Philippson e, pouco depois, Quatro Irmãos.
Até 1896, chegaram à Argentina mais de 20 mil judeus provenientes da Europa Central e Oriental e se dirigindo para Buenos Aires, Santa Fe e Entre Ríos.
No século 20, entre 1906 e 1912, a imigração judaica para a Argentina se incrementou a ponto de atingir os 13 mil indivíduos por ano, ashkenazim e sefaradim.
Havia, entre eles, boa quantidade de anarquistas e socialistas. Por muitos terem essa orientação ideológica e virem da Europa Oriental, passaram a ser chamados de “russos” (a Revolução Russa foi em 1917). Em 1919, em meio a greves de empregados que buscavam melhores condições trabalhistas, ocorreu o único pogrom registrado nas Américas, chamado de “Semana Trágica”. Aos gritos de “morte aos judeus”, jovens bem acomodados de extrema direita, unidos na chamada “Liga Patriótica” e com apoio do governo, culparam os judeus e atacaram alvos no bairro Balvanera (o “Once”), onde a comunidade se instalou (como o Bom Fim, em Porto Alegre, e o Bom Retiro, em São Paulo). Resultado: algo como cem judeus mortos, diversas judias estupradas e empresas e sinagogas incendiadas.
…
A vinda de judeus continuou nos anos posteriores. Logo após a libertação dos campos de concentração e extermínio nazistas, 8 mil sobreviventes da Shoá chegaram à Argentina, muito em especial a Buenos Aires, onde há significativa quantidade de judeus em Balvanera, Villa Crespo, Belgrano, Nuñez e Barracas, com clubes, entidades e sinagogas (o centro rabínico, onde se formaram diversos líderes religiosos, fica em Nuñez).
Os anos se passaram com uma influência consolidada da cultura judaica e com a contrapartida antissemita (naturalmente, há o ponto e o contraponto), com destaque para a circular número 11, de 1938, que tentou inibir a chegada de judeus fugindo do nazismo alemão no mesmo ano em que houve a Noite dos Cristais.
Havia também a “aliá” (retorno dos judeus à terra de Israel) já bem antes da independência israelense, em 14 de maio de 1948. Mas a alternativa das Américas foi impulsionada pela ICA. Ou seja, havia Israel propriamente e também a sedução de um lugar onde o acolhimento era uma aposta daquelas famílias sofridas.
Vamos repetir a certeira frase do gênio Amos Oz sobre o seu pai na autobiografia “De amor e trevas”? “Quando meu pai era um jovem em Vilna, todas as paredes na Europa diziam: ‘Judeus, voltem para a Palestina’. Cinquenta anos depois, quando ele voltou à Europa para uma visita, as paredes todas gritavam: ‘Judeus, saiam da Palestina’.”
O movimento Tacuara, neonazista, sequestrava jovens judeus. Raúl Alterman, de 32 anos, filiado ao Partido Comunista, foi assassinado, por exemplo. Descobriram-se nazistas que fugiram como baratas da Alemanha depois da guerra, sendo o mais notório exemplo o de Adolf Eichmann, capturado pelo Mossad em Buenos Aires, julgado em Israel e protagonista da máxima de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal”.
Na ditadura militar de entre 1976 e 1983, tornaram-se tristemente notórios os requintes de crueldade com que prisioneiros judeus eram torturados, em número proporcionalmente muito superior ao da população judaica na Argentina (havia também uma perseguição étnica ali). Os repressores eram profundamente antissemitas. Veio do almirante Emilio Massera, integrante da junta militar governista, esta eloquente frase, em discurso de 26 de novembro de 1977: “A crise atual da humanidade se deve a três homens: até o fim do século 19, Marx publicou três tomos de ‘O Capital’ e pôs em dúvida a intangibilidade da propriedade privada. No início do século 20, é atacada a sagrada esfera íntima do ser humano por Freud em seu livro ‘A interpretação dos sonhos’. E, como se fosse pouco, para problematizar os valores positivos da sociedade, Einstein, em 1905, torna conhecida a Teoria da Relatividade, na qual põe em crise a estrutura estática e morta da matéria.”
Um strudel pra quem me disser o que Einstein, Freud e Marx tinham em comum!
Em 17 de março de 1992, o atentado contra a embaixada de Israel resultou em 29 mortes; em 18 de julho de 1994, foi a vez do prédio da AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), com 85 mortos. Além das 114 vítimas fatais (e 500 feridos) nos dois atentados, ainda houve a misteriosa morte do procurador Alberto Nisman, judeu, que investigava os casos comprovadamente de autoria iraniana e local.
O caminho não é linear, nunca foi. Mas flui, cria raízes e frutifica.
…
PS: a coluna estava escrita quando esquentou o debate sobre os perigos da IA. Fiquei aqui pensando numa questão que creio apropriada: o que é mais ameaçador: a inteligência artificial ou a ignorância humana? Deixo essa reflexão pro finde.
Shabat shalom!