
Se a parte, realmente, pode expressar o todo, chegando até mesmo a revelá-lo em tantos casos, estamos no lugar certo. Afinal, este é um caso de sobrancelha, parte ínfima de um corpo com partes muito maiores e mais sólidas do que ela.
O que é um punhado de fios sobre um olho diante de uma mão que agarra outras partes?
Não há resposta, mas tem história. O caso da sobrancelha começou cedo, nem aos trinta anos daquele corpo todo. Iniciou com um fio branco, no meio de todos os outros escuros. Era um fio único, solitário, mas cuja solidão não durou muito. Foi muito fácil arrancá-lo.
Pouco tempo depois, veio outro, ainda tranquilo ao sair. Havia, sim, uma persistência em retirá-los, só não maior, com o tempo, do que a persistência que demonstravam em voltar.
Eram outros? Os mesmos? Nunca cortamos o mesmo fio? – perguntava Heráclito ou Parmênides.
Sem resposta, agora já era preciso pinças mais precisas, tesouras mais finas, tempo maior para a ação.
Findas as manobras cada vez mais exigentes de arrancá-los, os fios escuros voltavam a predominar, ostentando um vigor de cor mantida e a falsa sensação de permanência. Até que, um dia, um fio branco de tão persistente olhou como se pudesse olhar.
E falou como se pudesse falar.
Eu não o estava reconhecendo?
Era um amor perdido, mas perdido tão somente depois de muitos ganhos. Agora ele estava quieto e cansado, mas eu lembrava do quanto ele havia cantado comigo, sem cansaço nenhum, noite adentro. Das promessas, tantas cumpridas, antes de não poder mais?
Ficou por merecimento, naquela solidão de fio único, em meio à escuridão em torno dele. Não durou muito, porque logo veio o segundo e depois o terceiro e o quarto que aprenderam com ele a contar as suas histórias.
Eu sou filho daquela festa que tanto te iludiu – dizia um.
Eu daquela que tanto te desiludiu – dizia outro.
Eu, da Guerra vencida.
Eu, da perdida.
E havia os fios brancos da morte, embora todos fossem da vida. Desde então, eu não mais os arranco, naquela parte superior do rosto que começa a lembrar o Ziraldo e outros tantos que parecem ter passado a vida muito atentos às histórias, e ignorando o declínio estampado nas sobrancelhas.
Hoje, até mesmo a pinça complexa e a tesourinha fina se aproximam como se tivessem pernas para andar. E ouvem como se tivessem ouvidos para ouvir. E sentem uma emoção que parece amolecer as entranhas de seus duros metais.
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