
A abundância de informações dos dias atuais seduz e aparenta abrir portas a um mundo de infindáveis possibilidades de conhecimento. No entanto, se assumimos que tudo aquilo que passa pela timeline realmente merece o nome de informação, esta enxurrada está muito longe de significar um aporte positivo ao pensamento.
Em parte, o volume incessante e contínuo combina com a busca por aplacar a nossa ansiedade, como um preenchimento constante que, ao não permitir espaços vazios, ocupa o tempo de nossa reflexão sobre o recém-recebido. A isso se adiciona a curtida de redes sociais, que, malandramente, chamaram de “engajamento”, trazendo a falsa sensação de participação e implicação. Finalmente, a ausência desse vazio necessário obtura a nossa própria capacidade de pensar, já que vamos ficando cada vez menos acostumados a aprofundar. Vivemos no plano, na superfície da tela, entre carrosséis que não giram, mas exaltam o quadrado.
Tudo isso já vem sendo problematizado, pesquisado e alardeado de diferentes formas. Assim mesmo, é muito preocupante como também vem sendo cada vez mais comprometida a nossa capacidade de sentir. É inquietante, por exemplo, a pouquíssima comoção com os terríveis abalos dos territórios venezuelanos. Até agora a conta está ao redor de 3 mil mortos e cerca de 16 mil feridos. São nossos vizinhos, irmãos de continente, então, por que isso importa tão pouco? Por que não sentimos essas perdas de vidas e de famílias como algo que fere a nossa humanidade? Seria diferente se o mesmo se passasse na Europa ou América do Norte? Na idealizada morada dos opressores, será que um evento semelhante mexeria mais com a nossa humanidade? A projeção de qualidades no colonizador faz com que não possamos conceber sua debilidade, daí certas comoções seletivas. Ainda assim, a pergunta insiste: o que pode estar influenciando o nosso sentir?
É terrível o que vem acontecendo, por exemplo, com os adolescentes no Discord quando resolvem liquidificar – sinto, mas é literal – gatinhos em troca de alguns trocados. É incrível que estes jovens sejam frutos de pais millennials, cuja diversão mais nociva relacionada a uma tela era o tempo exagerado no videogame. Igualmente são frutos de uma pandemia que achatou ainda mais as relações e a vida comunitária. Crianças que não desceram dos apartamentos para brincar no playground pouco souberam o que era cair e rasgar um joelho. Com seus corpos bobos e faltos de memória, ficam mais disponíveis a imprimir a dor que desconhecem nos corpinhos inocentes dos bichinhos.
Inicialmente, a Covid ensinou que misturar corpos podia ser perigoso. Depois, mostrou que a virtualidade era um caminho sem volta. E, assim, relações e formas de se relacionar antes necessárias, em todas as suas dimensões, cheiros e incomodidades, passaram e passam a ser evitadas.
Sentir é 3D ou quatro, viver é, no mínimo, em três dimensões. Trazer de volta a presença e o tempo presente pode ser um pouco de remédio para o futuro achatado e insano da ânsia de não sentir.
Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.