
Qual é a maior inspiração de mulher negra líder que tu conheces?
Sem pensar muito e, sem dúvida alguma, tenho algumas inspirações que me ensinaram e ainda me ensinam muito.
Poderia voltar ao passado e mencionar o abaixo-assinado destinado à Prefeitura de Porto Alegre, liderado pela minha avó, para melhorar as condições da rua onde morávamos (era de chão batido e não passava nem caminhão de lixo). Mas esse é só um exemplo do quanto a mulherada preta da minha família é ponta firme. Acredito que liderança é algo que nasce correndo na veia, ou que se aprende no caminho. Ou ambos.
O que provavelmente muitos não saibam é que a minha primeira presidência foi na sexta série do primeiro grau (hoje Ensino Fundamental). Talvez por ser líder de turma por anos seguidos, ou por ser inconformada desde que nasci, ou pelo alinhamento de vários fatores. Mas lá estava eu: uma menina, entendendo pouco da vida, mas disposta a mudar o meu entorno.
Comigo caminhavam as “Chiquititas”, como fomos batizadas. Primeiro, em tom de chacota, mas, depois, em tom de desafio. Aceitamos o apelido de bom grado e entendemos que, mesmo sendo bem mais novas do que os “quase adultos” do segundo grau, estávamos dispostas e respaldadas pelas nossas famílias e pelas demais que nos apoiavam. Vencemos uma eleição com a participação de todos os alunos.
Então, quero que você imagine isso:
Uma menina negra e suas tranças, estudante da sexta série em uma Porto Alegre dos anos 1990, que, de repente, se torna presidente de um grêmio estudantil, cheia de expectativas e zero conhecimento sobre liderar e executar as mil ideias de eventos e atividades dentro de uma escola pública.
Os parcos recursos não chegavam ao grêmio estudantil, e o orçamento das famílias não permitia que fizéssemos passeios mais distantes do que a Expointer, em Esteio (RS), na região metropolitana. Aquela foi a primeira vez que admiti, publicamente, que não era tão forte como imaginava.
Era muito mais legal ser uma menina comum da sexta série, que estuda, brinca e aproveita o final de semana, do que alguém tentando mudar o mundo. Fui até a direção da escola e disse: “Não quero mais presidir o grêmio estudantil: tô cansada”. E assim acabou o sonho de Chiquitita de levar os colegas ao Beto Carrero World.
Mas a vida seguiu e fui amadurecendo, aprendendo sobre liderança, sobre o mundo corporativo, em suma: a vida como ela é. Vi líderes péssimos. Vi mulheres que não compreendiam outras mulheres. Entendi que, por melhor que eu fosse, eu não era igual às demais pessoas. Me descobri negra (obrigada, Neusa Souza Santos!) trabalhando na aviação civil, nos anos 2000, época em que era um verdadeiro absurdo existir uma comissária de bordo negra e, pior, com voz ativa.
Quando me tornei líder de equipes de comissários, foi piorando. Demorei a entender meu lugar no mundo (ou o lugar no qual me queriam) de fato. Demorei a entender qual o tom da minha voz precisava usar e em que circunstâncias da vida.
Talvez esteja aprendendo até hoje.
Mas sabe o que aprendi, sem dúvida alguma? A dizer NÃO.
Entendi que a mulher negra é livre para aceitar o que faz sentido para ela; que liderar e abrir portas não é aceitar qualquer coisa em nome desse caminho novo a ser aberto. Aprendi o custo da construção do respeito em relação ao próprio nome.
Respeito é algo que demora demais a chegar junto ao nome de uma mulher negra, mesmo em um Brasil após 30 anos da minha primeira experiência de liderança. Sempre haverá alguém para testar sua capacidade, mesmo nas instituições negras. E vamos combinar: isso é normal em qualquer canto. Porém, quando se é mulher e preta, TUDO, absolutamente TUDO foi programado para ser mais difícil.
Então, querida mulher preta:
Quanta energia tu estás disposta a entregar pra que teu nome seja respeitado?
Que preço estás disposta a pagar pra que tua liderança seja entendida?
Tua voz está sendo escutada de verdade, ou tem sido necessário aumentar o tom mais do que gostaria?
Tem acolhido as tuas próprias dores, incertezas e dificuldades?
Quão boa tu precisas ser, quantos certificados deves ter, quantas vezes deves ser pioneira no trabalho, no voluntariado, na vida pessoal pra conquistar, finalmente, o respeito dentro da sociedade?
Às vezes, recuar é a forma mais inteligente de fazer bem ao mundo, porque, quando chegamos ao limite (ou o ultrapassamos), anos e anos de construção podem virar o estereótipo que conhecemos bem: a que tem raiva demais, manda demais, fala alto demais… é preta demais!
Já abri mão de alguns movimentos, continuarei assim, sempre que julgar necessário, em nome da minha paz. Em nome daquela menina da sexta série que entendeu que, às vezes, só às vezes, não dá para mudar o mundo, sobretudo se o custo disso for diminuir a própria voz.
Em mais um Julho das Pretas, como chamamos o Mês da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, saúdo, celebro e aplaudo a cada uma de nós, pretas, líderes e pessoas que se tornaram pontes para que outras de nós possam seguir avançando.
Não sejamos modestas. Nós sabemos que somos incríveis.
O mundo que adapte sua visão sobre a força da mulher preta.
Não vamos diminuir nosso potencial.
NÃO MAIS!
Kênia Aquino é comissária de voos internacionais. Graduada em Comércio Exterior e pós-graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. Ex-presidente da Odabá – Associação de Afroempreendedorismo. Podcaster no projeto SEM PLANO B, do fundo de impacto estímulo. Cofundadora e produtora na Malê Afroproduções e do evento CinePretoPoa. Cofundadora do Quilombo Aéreo e do projeto ‘Pretos que Voam’.
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