
Depois de um fim de semana em que realizei o antigo sonho de cantar “Eu vou tirar você desse lugar”, do mestre Odair José, pra turma do colégio num karaokê que me deu a nota equivalente ao abacaxi do Chacrinha (sem detalhes, porque é muito constrangedor e afetaria a minha reputação), estou com a cabeça no modo “bobagens”, e sobre elas me debruçarei, mas você verá que nem são tão tolas.
Também cantamos “Velho camarada” (eu, o Bê e o Mano Xará), “Amigo” (eu, o Bê, o MX e o maravilhoso reforço do Serjão, um baita gineco cujas pacientes nem sonham o quão divertido é quando não está falando aborrecidamente sobre menopausa).
Por ser “velho camarada” e “amigo”, eu queria “tirá-la daquele lugar”. Esqueça.
E tudo foi visto atentamente pelo Iltinho Carangache, também conhecido como o “Brian Epstein dos Pampas”. Estamos ansiosos, esperando o contato da Warner!
Mas, enfim, vamos às bobagens!
Sim, elas só começam oficialmente agora, seu folgado!
Vou falar de conceitos cotidianos muito convencionais e talvez distorcidos.
Uso do celular: quantidade ou qualidade? Meu celular me manda acho que semanalmente um aviso da quantidade de horas em que o aparelho foi usado. Eu nem olho. Por quê? Porque o que conta aqui é a qualidade, e não a quantidade. Estou defendendo que uma pessoa fique presa na maquininha e alheia ao mundo? Jamais! Mas o meu uso do celular, mesmo que prolongado em alguns dias, jamais é pra joguinhos e raramente é pra ver redes sociais. Uso pra trabalho. Já escrevi texto jornalístico com o dedo indicador funcionando freneticamente no teclado. Até crônica de jogo de futebol pra jornal eu escrevi ali. Como toda tecnologia, o importante é o uso que se faz dela. No meu caso, estou certo de que é sadio. Sei que a intenção é boa, mas não quero ser patrulhado até no bolso da minha calça.
Pokémon e os parques: quando meus filhos eram crianças e ficavam caçando pokémons, nunca os vi quererem tanto brincar nos parques, correndo como se estivessem indo atrás de uma bola enquanto eu observava zelosamente meus amores gastarem energia e sorvia o meu mate na paz do Germânia. Lembro que uma vez, numa dessas, até encontrei a minha amiga e ex-coleguinha de CIB (Colégio Israelita Brasileiro) Any, e ficamos longamente conversando sobre a vida e os nossos afetos comuns enquanto eles brincavam ao ar livre.
Burocracia: costumávamos nos queixar das longas filas no século passado. Eu já era um homem à frente do meu tempo. Saquei uma forma de lidar com o assunto. Levava um livro pra encarar a espera com algo prazeroso e produtivo. Mas hoje as filas não existem. Ou existem, mas com uma voz metálica robotizada dizendo, num labirinto de números e senhas, que você em seguida será atendido enquanto toca Kenny G ou Richard Clayderman. Às vezes, prefiro o meu livrinho.
Comida quente: caaaaaara, essa eu nunca entendi. As pessoas esquentam a comida quase ao ponto da fervura, deixam-na pelando de quente e depois a ficam soprando forte a cada garfada. Temos aqui ou retrabalho (esquentar pra depois ficar soprando), ou maniqueísmo (o cara que ama se queimar por dentro e ficar com a língua ardida). Perdão se o senso comum diz pra esquentar o troço até quase derreter. Prefiro bem morninho.
Talheres e pauzinhos: bah! Amo comida japonesa, em geral acompanhada de um vinhozinho branco bem gelado. Pra mim, é o legítimo céu iluminado pelo sol do Oriente. Mas esse troço de pauzinhos não é pra mim, até porque coordenação motora nunca foi o meu forte. Em espanhol, garfo é tenedor, porque “tener”, ter, deter. Que invenção ocidental linda são o garfo, a faca e a colher! Ah, e eu corto o espaguete, sem pruridos, viu?
Ir aos pés: perdão por seguir agora num rumo meio escatológico, mas devo confessar que eu, até anos atrás (ops!), era um ignorante. Já adulto, descobri que é chique alguém dizer “ir aos pés” pra se referir a “obrar”, “evacuar”, “pintar a porcelana”, “soltar um barro” e outras finezas do idioma. Prefiro “fazer cocô”. Muito mais fofo e até poético. A pior expressão, pra mim, é a aceita “ir aos pés”. Você já pensou na cena? Uma flexão! É asqueroso.
Mais: sobre clichês (suposto adversário do bom estilo na escrita), serão sempre um problema? Quais as palavras que nunca são ditas? (Renato Russo). Ás vezes se repetem por verdadeiras. Então, repitamo-nas! Meias de cano curto? Passo. Camiseta justinha? Quero conforto. Troca de carro? Prefiro viajar. Pontos turísticos a serem evitados? Eu amava comer doce de leite com salada de frutas no Tortoni quando morava em Buenos Aires.
Esse troço não tem fim. Vivemos de clichês, slogans, modismos e outras “tonterías”.
E às vezes a vida se nos escapa em meio a isso. Tipo rejeitar uma canção por ser “comercial”.
Na minha época de roqueiro, até isso rolava. Preconceito com música é demais, não?
Às vezes são tolices; às vezes são tão graves quanto gays e feministas defenderem o Hamas e os também obscurantistas, intolerantes e intoleráveis aiatolás.
Delírios em nome do mainstream! A que ponto a falta de personalidade pode chegar!
O importante é agradar a turma com a contrapartida dos tapinhas nas costas e gestos de aprovação e aceitação, a cabeça indo pra trás e pra frente.
Ideologia: tchê, a vida tem muito mais cores do que você talvez enxergue. Sou um tipo de esquerda a vida inteira? Sim. Mas não me chame de “coletivista”, porque a minha visão de mundo (ideologia) sempre foi ponderada, antidogmática, antissectária e profundamente social-democrata. Mas por que sou assim? Não é por causa de um partido ou de uma figura pública, é por convicção. E aí eu te pergunto: se uma pessoa de boa índole (isso é essencial, ressalve-se) acha que o mundo fica melhor com um mercado livre que gera riqueza e depois se divide o bolo, eu discordo, mas e daí? E se o cara é bolsonarista porque cansou dos delírios, dogmas e exageros de setores da esquerda que deixaram de ter contato com a realidade? E se outra pessoa defende a regulação porque acredita que a economia de linha liberal na verdade libera a desigualdade e a exploração? E se o cara prefere o Lula porque vê nele esses valores? São só, se há boa índole, visões diferentes com o mesmo objetivo de um mundo melhor. Essa convivência deve ser como todas entre diferentes, sabendo-se que uma das características mais lindas da Humanidade é a diversidade de vocações, opiniões, orientações sexuais, cores de pele, origens e, evidentemente, ideologias. Preciso desenhar e pintar o desenho?
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Agora, com esse babado da ideologia num mundo polarizado e intolerante, me dei conta de que o texto começa a ficar sério, e então eu paro por aqui, porque só quero ser divertido, afetivo e leve. O inesquecível encontro da nossa turma, 45 anos depois de termos saído do CIB, foi um exemplo maravilhoso de que isso é possível. No dia seguinte, fui pro instagram, postei umas fotos e escrevi: “Nestes tempos em que por miudezas as pessoas se agridem, se lacram e se maltratam, a minha turma do CIB/81 deu um exemplo de afeto puro num pacto tácito pela vida (“Un pacto para vivir”, diz a letra da Bersuit Vergarabat). O que conta é a vida real e o bem querer. As pessoas dessa foto (tinha uma foto) são meu passado, meu presente e minha eternidade. Obrigado por tanto e por tudo!”
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Ah, me lembrei: neste fim de semana temos uma eleição de escassa ereção, ao menos pra mim. Acho que na real a minha vontade de escrever sobre “bobagens” se deve até mais ao pleito violento, polarizado e desanimador do que ao encontro da turma do CIB. Nunca me esforcei tanto pra ficar alheio. E podemos fazer a releitura deste texto pra, enfim, ressignificarmos também o conceito de “bobagem”, que contém alguma ironia até aqui. Talvez esteja muito mais ligado àquilo que você considera sério. Vou votar ou não com meus valores, consciência e identidade. Tenho restrições fortes a ambos os lados, por diferentes motivos, de valores, consciência e identidade (confesso que, se não fosse a identidade, a escolha e até o apoio aberto seriam fáceis, mas a identidade me é cara).
E você, hein? Vai votar?!
Só peço que, votando ou não votando, sobretudo respeite o outro. E isso é sério.
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Shabat shalom