
Faço parte, atualmente, à distância, de um grupo que se reúne, pelo menos uma vez por semana, há mais de cinco décadas (imagina a média de idade dos caras e o nível de experiência de vida de cada um…).
E, lá, ninguém resiste a uma provocação. Na condição de provocador ou de respondedor. Provocação boa, bem entendido. Daquelas indispensáveis para provocar a polêmica que anima a mesa e exige agilidade do garçom.
A reunião semanal é física, presencial. Mas todos os dias, a qualquer hora, alguém posta alguma coisa no mural da sede virtual do grupo, o hoje indispensável WhatsApp.
Faço um intervalo neste relato das provocações para algumas reminiscências. Já existiu um lugar que pode ser chamado de sede social da turma. Um pequeno espaço inaugurado na década de 1950, num pedacinho da Rua Visconde do Herval, no Menino Deus, em Porto Alegre.
Naqueles tempos, o lucro tinha menos importância que a presença de cada contricante em animadas tardes/noites em que, não raro, a dona Hilda – dona do estabelecimento – fechava as portas, ia dormir e deixava o pessoal lá dentro em animadas conversas sobre futebol, relatos de aventuras noturnas e ferrenhas – mas sempre respeitosas – disputas de seven elleven.
No balcão, ficavam um picado de queijo e salame e um caderno e um lápis para que cada um anotasse o próprio consumo. O picado era por conta da casa… Não vou detalhar os currículos dos frequentadores. Ali, cabiam catedráticos, arquitetos, engenheiros, jornalistas, farmacêuticos, médicos, dentistas, economistas, cobrador da Carris, taxista, herdeiro de boa fortuna e até políticos com mandato e um cassado pela ditadura.
Mas as coisas foram mudando. Para os sucessores da dona Hilda, o bar existia mais para dar lucro – e nisso estavam certos, já que eram investidores – do que para ser ponto de reunião de amigos. E o horário da novela passou a valer como a hora de fechar o estabelecimento.
E isso, algumas vezes, se dava sem nenhuma sutileza, como aconteceu no dia em que três ou quatro fregueses dos mais assíduos tomavam a sagrada cervejinha de começo de noite em torno da única mesa do bar à beira da calçada.
Eles até estranharam a repentina disposição do seu Zé, que saiu lá de trás do balcão, paninho na mão, e foi em direção à mesa, dando a clara impressão de que ia dar aquela limpadinha no ambiente. Cada um levantou o próprio copo. Um deles pegou, também, a garrafa.
E aí, surpresa! Seu Zé carregou a mesa e saiu avisando: “Vou fechar! Tá na hora da novela.” Provocador, o Zé, não? Mas teve resposta. Ele até poderia ir ver a novela. Eles ficariam em pé, sem mais cervejas, mas também decidiriam o horário de pagar a conta. E o dono do bar não tinha a intimidade – muito menos a confiança – da dona Hilda para fechar a casa e deixá-los lá à vontade…
Bom – ou bueno, como diria aquele ex-governador – o bar ainda existe, mas tão diferente que os remanescentes da turma já têm outra “sede” para as reuniões semanais. E volto das reminiscências para as provocações recentes, que hoje também têm foco diferente daqueles de antigamente.
É claro… as provocações, hoje, são políticas. E, óbvio, envolvem lulistas, bolsonaristas, desiludidos e descrentes em geral.
Já vou encerrar e fecho com um recente confronto entre um descrente e um antilulista, mais isso do que bolsonarista…
Pois esse antilula, um ferrenho crítico de qualquer coisa que indique direção à esquerda, encontrou na internet um vídeo com Dircinha Batista, em 1959 (!!!) cantando “Minha Terra tem Palmeiras”, música que usava o verso do Poema do Exílio, de Gonçalves Dias (olha a coincidência, o bar citado ali em cima fica na Visconde do Herval, quase esquina com a Gonçalves…), numa composição que criticava os políticos. Dá pra ouvir aqui. Mas a letra diz assim:
Minha terra tem palmeiras
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
Tem cachaça, tem mulata
Tem também muita mamata
Mas dá galho se falar!
Tem tubarão à toa
Mamando pra valer!
Eu também vou
Entrar no jabaculê!
O nosso provocador – bom provocador, creiam – certamente esperava a reação de algum lulista, ou de alguém da esquerda… Mas a reação veio do descrente do grupo: ou seja, não mudou absolutamente nada e nunca irá mudar. Dessa vez, ninguém abraçou o governo Lula, alvo do provocador, ao sacar Dircinha Batista em tão fundo baú. E aqui vai a minha provocação final para todos os contricantes desse grupo de velhos amigos:
Acho que todos precisam escolher melhor seus candidatos… Afinal, vocês os puseram nos cargos que eles ocupam…
Ah! O bar fica à direita de quem anda na Visconde em direção à Gonçalves para a Getúlio Vargas. E à esquerda de quem deixou Getúlio para trás e vai em direção ao poeta da Canção do Exílio.
E, para não deixar de falar da eleição deste ano, vai aí uma provocação à esquerda e à direita. Em entrevista ao Globo, o coordenador da campanha do Flávio Bolsonaro, senador Rogério Marinho (PL/RN), respondeu assim quando o repórter perguntou se o PL vai trocar o candidato se novos elementos da relação entre o Flávio e o Vorcaro aparecerem: Flávio é o nosso plano A, B, C e F. Que palavra você formaria para nome completo ao Plano F do bolsonarismo? Não vale dizer Flávio. Como defensor da plena liberdade de expressão, aceito termos em inglês…
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