
Eu queria escrever uma carta ao nosso presidente Lula. Como tantos brasileiros e brasileiras, eu teria muito a dizer, sobretudo a agradecer. Eu sou um cara privilegiado. Vivi com pessoas como Dom Hélder e Dom José Maria Pires. Pude testemunhar o heroísmo de camponesa Margarida e de Chico Mendes. Poderia citar uma enormidade de pessoas com as quais vivi e convivi na luta pela transformação do nosso Brasil. Hoje, o coração me manda agradecer a Lula pela honra que ele me concede de ser meu presidente pela quarta vez.
Eu estava tentando fazer tantas análises desse recente processo eleitoral. Não vou fazer por dois motivos. O primeiro motivo é que dediquei meus artigos de setembro e outubro para tratar de temas relacionados ao processo eleitoral. O segundo é que a Sler dessa semana estava preenchido por artigos que analisam com competência e propriedade os desafios que nos aguardam nessa nova governança brasileira. Não quero ser repetitivo. Não quero ser repetitivo, nem em relação ao que já disse, nem ao que colegas diversos já refletiram.
Mas, antes de entrar na minha reflexão, preciso registrar o grande orgulho que estou sentindo. As palavras se escondem no chão do coração, onde brota uma profusão exultante de sentimentos agradecidos. Como já disse nosso Darci, “Viva o povo brasileiro”! Essa gente amada que prefere morrer do que ver a pátria serva de outros senhores. “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil”. E eu sempre repeti que, pelo Brasil, por um projeto de soberania e cidadania, por um projeto de liberdade e dignidade. Nós, o povo brasileiro, entendemos isso e permitimos avançar o núcleo político progressista que pensa o Brasil como um patrimônio dos brasileiros.
O processo do segundo turno foi demasiadamente importante porque fez emergir lideranças políticas nacionais que, sem ele, talvez não chegariam a conhecer. Cito, por exemplo: Erika Hilton, Jones Manuel, Ana Elisa, Guilherme Cortez, Luiza Cela, Pedro Houssef, Sofia Favero, Maria Marighella, Fábio Felix, Jack Rocha, Camila Jara e muitos outros. Seguramente este não será mais um governo do PT. Será um governo da ala progressista. Toda essa constelação de gente de coragem pode representar opções importantes nas próximas eleições e na própria composição do governo Lula 4.
O segundo turno colocou novamente as juventudes nas ruas de ponta a ponta do Brasil. Deixou as universidades públicas de prontidão e seus estudantes não se furtaram à mobilização em prol da batalha contra os milicianos. Trouxe a fantásticas descobertas da militância nas redes sociais e promoveu a criação do grande “Exército de Lula”, tão bem capitaneado pelo deputado André Janones. As ruas e as redes numa inusitada conflagração, defendendo a nação gigante e acordada. As ruas e as redes evocam a genialidade de jovens políticos e militantes no ensaio de novas linguagens e estratégias de luta. Há uma produção eloquente de conhecimentos novos com os quais devemos e podemos muito aprender.
O turno em questão me fez refletir como a nossa geração, a dos 60 e mais alguma coisa, conquistou importantes batalhas sociais e políticas e diversos âmbitos da sociedade brasileira. Chegamos ao poder com uma esquerda que aprendeu a negociar nas ruas e nos sindicatos, ocupamos espaços significativos na geopolítica. Entretanto, como me disse um grande amigo capixaba, constituímos uma vanguarda sem retaguarda. Tornamo-nos governo, mas amargamos a árdua compreensão da falta de lideranças com carisma e capilaridade para dar continuidade ao nosso projeto. Mobilizamos a pátria toda nas campanhas das diretas já e das cara-pintados. Mas as vozes das ruas foram cada vez mais deixando de ser ouvidas e o povo sem uma convocação eficiente.
Quando o milicianismo brasileiro definiu seu representante para disputar o cargo majoritário na campanha política de 2026, compreendi que, mais uma vez, teríamos de jogar no sacrifício o maior líder desta nação. E quanto sacrifício! Quando perdemos o primeiro turno das eleições, temi pelo nosso futuro, pois nossa luta ainda permanecia sendo a mesma que no passado havia nos consagrado. Porém, o gigante acordou! E aprendemos como fazer política no século das bigtech, das bets, das IAs, das redes sociais. E a juventude veio não apenas nos ensinar, mas militar para avançar conosco. Agora sim, temos retaguarda. Porém, a questão que acolhemos agora é: como transformar uma vitória eleitoral em força política duradoura, socialmente enraizada e capaz de produzir novas possibilidades de emancipação? Essa indagação parece apontar para a necessidade de construção de novas utopias. A vanguarda que, doravante, queremos ter ainda não está finalizada. Há um desafio que deve permanecer ativo de maneira articulada. A retaguarda emergiu e não pode ser implodida. A retaguarda precisa continuar a ser construída na lida cotidiana. De fato, nada está pronto a não ser o esperançamento que nos lança adiante.
É preciso reconhecer, nesse contexto, que o mercado financeiro brasileiro opera, em sua grande maioria, sob uma lógica estritamente rentista. Trata-se de uma elite que anseia pela manutenção de um neoliberalismo radical para garantir a perpetuação de seus privilégios, vivendo de investimentos passivos. Ironicamente, são os mesmos atores que vocalizam repúdio a programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, e desdenham do trabalho braçal. Enquanto isso, mantêm-se inertes no conforto de seus escritórios na Faria Lima, totalmente alheios ao verdadeiro esforço produtivo que sustenta o país. Paradoxalmente, esses indivíduos são beneficiados por políticas públicas que, ao mesmo tempo em que ampliam a renda, também aumentam o consumo.
A sociedade brasileira, no entanto, já começa a despertar para a forma como esse mercado atua de maneira parasitária, sugando a nossa economia, num movimento que se intensificou brutalmente de 2019 até os dias atuais. E o que é mais grave: ficam cada vez mais evidentes as intrincadas ligações de muitos desses setores com o mercado desregulado das “bets”, esquemas de desvios e até organizações criminosas. Episódios recentes, a exemplo da Operação Carbono Oculto, expuseram como milhões de reais em recursos ilícitos circulavam livremente pelas engrenagens da B3 e da Faria Lima, escancarando a hipocrisia de um sistema que precisa urgentemente ser enfrentado. Por isso, é muito importante que já estejamos no governo Lula 4, com a PEC da segurança pública tramitando, o final da escala 6X1 definido e, incrivelmente, as bets cassadas.
Colocamos nosso líder no quarto mandato presidencial de uma forma que somente ele merece chegar. Somos governo! Em seu discurso de saudação ao povo brasileiro, logo após a vitória, ele mencionou o congresso como uma questão de diálogo e negociação. Mas esse é o Lula, presidente, negociador. O Lula político sabe que, sem a gente, sem as juventudes, sem as redes, sem os exércitos pró-soberania, ele não poderá governar. Os guardiões do nefasto bolsonarismo continuam refém da ilusão soberana dos milicianos. Não vão recuar! Estamos prontos! Sabemos que há contradições inerentes ao uso das redes, que precisam ser cuidadosamente examinadas. Temos convicção de que a militância juvenil não está convocada a um seguimento servil. Mas, amparada numa verdadeira formação política e social. Não visamos somente à mobilização. Almejamos a formação sólida e efetiva que ajude a tecer formas de organização e participação política.
O que esperar doravante? Primeiramente, um governo de colisão com todo o campo progressista. Não, mais um governo do PT. Depois, um governo articulado com as redes e as militâncias. Um olho nos processos burocráticos do poder e outro nas ruas, nas juventudes, nas idades avançadas, enfim, naquele que conduziram ao êxito nosso projeto de nação.
Como escrevi em texto passado, nosso povo não se furta à defesa dos interesses da nossa soberania. Podemos contar uma história repleta de lutas de povos indígenas, negros, camponeses, pessoas da cidade, jovens, estudantes, mulheres. Essa memória não pode ser esquecida. Pode alimentar e inspirar jornadas necessárias, levantar outras bandeiras, buscar novas conquistas, abraçar causas que se renovam na resistência para que nossa gente tenha sua dignidade respeitada e seus direitos assegurados. E nós estamos conscientes de que toda a luta de nossos ancestrais continua em nós. Nesse sentido, somos instados a defender a luta democrática como ponto de partida. No entanto, esperançar novas alternativas de poder e luta. A chamada esquerda brasileira necessita convocar a esquerda à esquerda e defender suas utopias. Não abandonar seu projeto de tensionamento com pautas em disputa que são específicas da esquerda.
Na memória reside não apenas a legitimidade moral e política que podem fundamentar ações do presente, mas tem uma potencialidade exuberante de nos colocar diante do futuro, prestando-se como mediação para análise dos fenômenos que nos agasalham. Tal olhar nos provoca a indagar: o que as experiências de luta das décadas anteriores ensinaram à esquerda brasileira? Quais conquistas se consolidaram? Quais expectativas foram frustradas? Que erros políticos precisam ser reconhecidos para que as novas gerações não sejam obrigadas a recomeçar do mesmo ponto?
Nossas esquerdas nem sempre se debruçaram como olhar aprendente para as experiências históricas, exitosas ou não, ou acionaram a memória como recurso crítico importante para o pensar suas disputas. É fato que a esquerda está organizada muitas vezes em movimentos importantes que permeiam quase toda a vida social e política brasileira. No entanto, em algumas ocasiões, essa memória está encarcerada em ideologias e em pragmatismo que quase nunca logram êxito. Não vamos inventar a roda como quem acha que descobriu a pedra filosofal ou entregar-se-á a uma luta ainda não inaugurada. Não é verdade. Desde sempre nosso povo da periferia luta. Há muito, líderes populares e intelectuais, homens e mulheres, pessoas de religiões diversas se mobilizam e articulam movimentos sociais. Superar as fragmentações talvez seja a grande lição. Transitar na disputa, no dissenso, na luta de posição… mas não perder o foco.
Precisamos ainda deixar muito evidente que bolsonarismo e direita não são exatamente a mesma coisa. De igual modo, esquerda e direita são coisas diferentes. No segundo caso, existem pautas que nos mobilizam conjuntamente, sobremodo a defesa da nossa soberania. Contudo, somos e almejamos coisas distintas. Da mesma forma que democraticamente apoiamos os direitos de manifestação e mobilização da direita liberal, abominamos bolsonarismo e defendemos a superação da propriedade, do monopólio e da concentração de riqueza.
A vitória brasileira foi um avanço geopolítico das bandas sul-americanas contaminadas pelo trumpismo. Representa um avanço de nossa América contra políticas imperialistas.
Uma coisa de extrema importância para as juventudes que vão ocupar cargos nesse mandato de Lula e para todos aqueles e aquelas que estiveram nas redes e nas ruas: começar a trabalhar para favorecer candidaturas de esquerda nas próximas eleições municipais. Renovar todas as câmaras desses países e varrer milicianos e extremistas ante democráticos que se dizem conservadores dos postos onde jamais deveriam ter chegado. Romper com a estrutura de capitanias hereditárias, de pedigris que se alternam nos poderes municipais. A hora é agora.
Carecemos de começar a trabalhar. Vamos oferecer, em todo país, cursos de formação política que viabilizem candidaturas juvenis nas câmaras municipais e na governança majoritária. Desde agora comecemos a conversar com jovens deputados estaduais e federais sobre a possibilidade de começar a especulação para os arranjos eleitorais de 2028. A luta presidencial, com uma esquerda possivelmente bem estruturada para 2030, não é o foco atual; 2030 depende, necessariamente, das eleições de 2028 e da composição do poder municipal. Defendo que seja esse o nosso foco desde já. Obviamente, sem abandonar a defesa bem organizada e permanente da governabilidade do Presidente Lula.
Pessoalmente, já em fevereiro próximo irei articular uma atividade permanente de extensão universitária que propicie a discussão sobre a cidade, suas legislações, suas demandas. Que trata de formação filosófica e sociológica. Que faça o desenho político e discorra sobre os caminhos possíveis de uma gestão progressista. Que assessore na elaboração de projetos de candidaturas e coloque uma cara nova e esquerdista em definitivo na política deste país. Tudo em prol da vitória da soberania e de políticos e políticas públicas que respeitem incondicionalmente os Direitos Humanos, num país livre e democrático.