
O Brasil vive um paradoxo energético que, de tão estranho, parece inacreditável: podemos ter apagões não por falta de eletricidade, mas por sobra. Sobra, principalmente, de energia renovável. A ironia salta aos olhos. Passamos décadas pedindo fontes limpas, comemoramos cada telhado com placas solares e, agora que a geração distribuída bate recordes, o sistema ameaça tropeçar no próprio sucesso. Aí os inimigos da transição energética, incluindo gente do governo, se apressam nas críticas: apontam o dedo para as energias solar e eólica, como se fossem as vilãs da estabilidade. O problema, porém, não está nas fontes — está na forma como planejamos (ou deixamos de planejar) a rede que deveria recebê-las. A verdadeira vilã é a incompetência.
O problema não é a energia: é a rede
O coração do sistema elétrico é um equilíbrio. A rede precisa manter a frequência em 60 Hz (Hertz) [Link 1]. Quando há geração demais para consumo de menos, a frequência sobe; no sentido inverso, cai. E, quando passa de 60,5 Hz, entram proteções automáticas: usinas podem ser desligadas para evitar danos, abrindo espaço para uma reação em cadeia que termina em apagão. Em outras palavras: sobra de energia também pode derrubar o sistema.
É exatamente esse o risco que começa a aparecer com mais frequência por aqui.
Em 2026, o descompasso é quase didático. A geração distribuída (GD) já passa de 43 GW (Gigawatts) instalados no Brasil. É muita coisa — e cresce rápido. Só que ela entrega seu pico entre 10h e 12h, justamente quando a demanda costuma ser mais baixa (pense em manhãs de domingo e feriados). Resultado: energia sobrando na hora errada. E, quando esse excedente entra na rede, a frequência flerta com a zona de risco.
O “jeitinho” oficial: cortar geração
Diante do aperto, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) recorre ao chamado curtailment: manda grandes usinas solares e eólicas reduzirem ou pararem a geração. Funciona como freio de emergência — evita o colapso no curto prazo. Mas cobra caro: corta receita, aumenta o risco percebido e desorganiza investimentos em plena transição energética. E há um detalhe que torna tudo mais absurdo: o ONS não controla diretamente milhões de pequenos sistemas fotovoltaicos em telhados; e as distribuidoras, em geral, ainda não têm (ou não foram obrigadas a ter) tecnologia e regras para gerenciar essa injeção, remotamente e em escala.
É por isso que culpar a renovável é uma cortina de fumaça para esconder incompetência e falta de planejamento. Geração distribuída não é “moda”: é parte do desenho do futuro — mais limpo, mais resiliente e, em muitos casos, mais barato. O que está atrasado é a infraestrutura e a governança da rede. Estamos empilhando tecnologia de geração do século XXI em cima de uma operação de distribuição que ainda pensa como no século XX.
Rede inteligente não é luxo. É pré-requisito
A saída tem nome e sobrenome: Smart Grids, as redes inteligentes. É a modernização que transforma a rede em algo mais parecido com um “sistema nervoso” do que com um fio passivo: medição avançada, automação e comunicação para enxergar o que acontece e agir em tempo real. Em vez de uma via de mão única (usina → consumidor), a rede vira uma conversa de duas mãos, em que o consumidor também gera, armazena e responde a sinais do sistema.
Com uma Smart Grid, a “sobra” vira ativo. Por exemplo:
· Armazenar o excedente com baterias (BESS) distribuídas, guardando energia do meio-dia para o pico da noite.
· Orquestrar a demanda com tarifas e automação, estimulando consumo quando há mais oferta (em vez de punir o sistema com cortes).
Lição internacional: o caso da Alemanha
A Alemanha é um aviso com antecedência. Ao acelerar renováveis sem reforçar, na mesma velocidade, transmissão e distribuição, o país passou a conviver com congestionamentos e com a necessidade de redispatch em certos períodos. Na prática, isso significa pagar para que parte da geração seja reduzida quando a rede não dá conta — e esses custos acabam no sistema. Não é “culpa” da energia eólica ou da energia solar. É o preço de tratar a rede como detalhe, e não como um elemento central do sistema.
Reenquadrando o debate público
Da próxima vez que alguém disser que “a solar está bagunçando o sistema”, a resposta é simples: o que bagunça o sistema é a falta de preparo para lidar com ela. A tecnologia está disponível. O que não acompanha é a combinação de planejamento, regulação e investimento — especialmente na distribuição, onde a geração distribuída acontece de verdade.
Se o setor quiser sair do improviso, precisa trocar reação por projeto. Isso exige decisões que, até aqui, têm sido adiadas:
· Regulação que remunere flexibilidade: baterias, serviços ancilares (ou seja, ações complementares) e resposta rápida.
· Digitalização da distribuição: telemedição, automação, supervisão e capacidade de controle.
· Resposta da demanda: preços e incentivos para consumir quando a energia é mais abundante.
A energia do futuro já está aqui, brilhando em nossos telhados e soprando em nossos ventos. O que falta é uma rede inteligente o suficiente para aproveitá-la — e gente com visão para construí-la. Afinal, as redes estão prontas para se tornar inteligentes; a sabedoria para implementá-las é que depende de nós.
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