
É evidente que o grande exemplo, a maior lição e a definitiva importância da Coligay foi de, na virada entre os anos 1970 e 1980, sob a opressão de uma ditadura militar num contexto opressivo, mostrar que um estádio de futebol é ambiente para homossexuais e mulheres. Sim, quando fiz a apuração para o livro que foi lançado há 12 anos e que agora será base para uma série e um filme no Canal Brasil e Globoplay, com esperada estreia prevista para dentro de alguns meses, alguns dos entrevistados me disseram que não só os homossexuais, mas também as mulheres foram beneficiadas pela ousadia transgressora dos rapazes que furaram a bolha do machismo no futebol.
Mas há outros ensinamentos da Coligay. Sabem esse comportamento alardeado de algumas torcidas com seu apoio incondicional? A Coligay foi pioneira nisso. Os jogadores gremistas da época foram unânimes ao me dizer que ela fazia a diferença no estádio. O professor Ruy Carlos Ostermann, com sua sabedoria e lucidez, comentou que a homossexualidade daqueles torcedores lhes dava uma característica feminina que derivava a um comportamento maternal. E, como sabemos, coração de mãe (e de pai, no meu caso) é puro e incondicional amor.
E é aí que quero chegar. Já participei de vários grupos gremistas no Whatsapp. Um inclusive, era de jornalistas tricolores. Mas hoje estou em um só, porque ele traz outras características identitárias comuns e importantes entre seus integrantes. Dos outros, eu saí, e do que fiquei diminuí muito a minha participação, porque num mundo tão brutalizado pela ignorância, definitivamente não vale a pena viver isso até no futebol. Pessoas intolerantes e de mal com a vida, que derramam seus problemas de auto-estima para um coletivo de torcedores que nada têm com isso. Bah! Ninguém merece.
Mas falemos de Coligay e não nos restrinjamos ao meu time. Quando falo com amigos colorados, eles dizem que lá pelas bandas deles é igual (naturalmente, acompanho muito mais o meu time, o que faz com que este texto o tenha como foco, apesar de o assunto ser amplo, universal). Acho engraçado quando um torcedor completamente desinformado sobre os bastidores do clube diz “eu faria diferente” do treinador, expondo a sua “abalizada” receita de sucesso. Desde que passei a conviver o ambiente sensível do clube, com seus meninos pobres e invisibilizados que chegam à fortuna e à fama ou que tem uma infância e adolescência em ambiente hostil a um desenvolvimento sadio (já soube de cada história…), tornei-me uma pessoa mais paciente, tolerante e compreensiva. Nunca fui muito adepto da corneta, sempre me resumi a torcer pras coisas darem certo. Mas guardei de vez esse instrumento no armário.
São vários casos de trabalhos que começam lentamente até chegarem aos resultados positivos sustentáveis. A isso chamamos “projeto honesto”. No meu clube, já vi alguns aficionados mais ansiosos esbravejando que o treinador Luís Castro deveria ser demitido. O atacante Amuzu, agudo habilidoso, vertical, rápido, veloz, técnico, de excelentes dribles, chutes, cruzamentos e proteção à bola quando está em seu domínio, de repertório variado, demorou para se ambientar. O sujeito é africano, não fala português e ainda por cima é muçulmano praticante. Ou seja, era compreensível a dificuldade de adaptação.
Agora que ele se adaptou e claramente é um atacante essencial, os seus impacientes detratores fazem de conta que sempre o apoiaram. Eu, que, sim, sempre o apoiei e adverti para as suas evidentes qualidades, fico quieto, só olhando e pensando “que bom”, porque não tenho a menor disposição pra entrar em debates infinitos e desgastantes sobre esse assunto. Já bastam os embates sérios, muito em especial a assustadora agressividade contra a minha identidade étnica, que requer uma casca grossa e enorme disposição pra esbravejar contra.
Já vimos diversos casos emblemáticos. Tempos atrás, mostrei aqui que os hoje ídolos gremistas incontestáveis Iúra e Tarciso esquentaram banco em 1976, numa fase difícil do clube na rivalidade diante da imensa qualidade colorada daquele time que conquistou o país. Coube ao Telê Santana chegar à aldeia, ignorar os muchochos azedos e resgatar esses jogadores que acabaram marcando época. No Beira-Rio, antes, Valdomiro penou sob as vaias até se tornar o ídolo eterno que é. Sobre treinadores, se não fosse a firmeza de Fábio Koff, Felipão, diante da rejeição precoce provocada pelo excesso de amendoim, não teria vingado.
E houve exemplos mais recentes. Lembro quando encontrei um analista esportivo no bar de Zero Hora, e o cara me dizia que o Geromel era mau zagueiro, enquanto eu ponderava que percebesse a técnica e o senso de colocação do nosso futuro ídolo, depois comprovados com sobras e títulos. Teve também o Jonas, que errava gols (por estar no lugar certo), mas claramente tinha técnica refinada, perceptível a cada passe ou dominada de bola. Ocorreu algo semelhante, na mesmíssima ZH. Não sou expert em esquemas táticos (minha visão espacial é ruim), mas costumo ter ótimo olho pras qualidades técnicas dos jogadores.
Enfim, são muitos e elucidativos exemplos.
Escrevo este texto poucas horas depois de Gabriel Mec, essa rutilante joia gremista, ter destruído o Deportivo Riestra lá em Buenos Aires, com a parceria já costumeira de Amuzu, que, neste mesmo dia em que escrevo, foi convocado pra seleção ganesa e deverá representar as cores gremistas na Copa do Mundo. E então me lembro que, nos primeiros e naturais tropeços do menino entre os profissionais, já havia os apupos de figuras azedas acusando o suposto falso brilho do diamante. Sim, os corneteiros de causas precoces derramam seu negativismo até num adolescente que busca espaço.
Outro que anda contando com a impaciência dos azedados pela ansiedade é o Tetê. Lembro que o Tetê foi o único jogador lúcido num Gre-Nal que acabou empatado. Aí o acusaram de “entregar pouco”. Eu ponderei que vi o guri dar até canetinha e passes milimétricos. Em seguida, apareceu um vídeo com as jogadas de rara habilidade do guri. Eu nem disse “viu?!”, porque, sinceramente, esse troço me cansa. Agora, Tetê tem cometido erros bisonhos, que jamais cometeria.
É evidente que o emocional foi abalado, o pé pesou e a bola queimou. O sonho do Tetê era vestir a camiseta do clube que ama e do qual saiu pra Europa muito novinho, até ser repatriado a peso de ouro. E provavelmente a crítica o esteja atingindo no mais íntimo do seu orgulho. Aí alguém tratou de pôr nas perversas redes, onde tudo é possível e permitido, um vídeo do guri dançando numa festa, sob a crítica moralista de que ele não pode se divertir. Não, não pode, o jovem, cheio de energia, tem que se afundar na depressão e ficar trancado no quarto escuro.
Percebam o dano que o barulho da corneta injusta pode provocar.
Tem corneteiro que torce mais pela comprovação da sua tese do que pelo time. Eu já vi isso.
Tem corneteiro que vibra com a comprovação da sua tese como se fosse gol. Eu já vi isso.
Tem corneteiro que baba de prazer ao dizer “eu avisei!” ou “viu?!” com ar de sábio. Eu já vi isso.
Tem corneteiro que critica e pede a saída de jogador e, quando isso acontece, passa a gostar desse mesmo jogador ao vê-lo em outro clube. Eu já vi isso.
Tem até, e neste caso foge um pouco do padrão aqui utilizado, o corneteiro militante político que mistura dogmatismo partidário polarizado com futebol quando surge a oportunidade de criticar no seu clube o que também ocorreu, ocorre ou ocorreria no outro (ou você acha, num exemplo hipotético, que o outro rasgaria dinheiro quando surgisse a oportunidade de um patrocínio perfeitamente legal e honesto? Ou você acha que patrocinadores no futebol variam muito a ideologia política? Ou você acha que só o seu jogador ou o seu treinador pensa deste ou daquele jeito? Ufff, quanta mediocridade!).
Tudo isso eu já vi. E é muito cansativo.
É uma espécie de neurose, algo completamente irracional, uma aberração.
É um prazer mórbido pelo próprio fracasso e pela própria depreciação.
O problema é que torcida é um ente coletivo, e os outros não deveriam ser vítimas das questões individuais alheias mal resolvidas.
E em redes sociais ou grupos de Whatsapp, rola aquela frase genial do Caetano, que já virou clichê, de tão verdadeira: de perto, ninguém é normal. Se eu fosse dirigente de futebol, tomaria a autoritária determinação de orientar (proibir é impossível e é demasiado) os jogadores a ignorarem o covarde e leviano mundo virtual.
…
Tenham empatia e sensibilidade. Sejam torcedores como os rapazes da Coligay e deixem o Castro buscar os caminhos, até porque, se olharmos ao redor, perceberemos que escasseiam treinadores. Não por acaso, nem o treinador da Seleção é brasileiro. A ideia da troca express de treinador, diante de qualquer percalço e dificuldade, é coisa de quem não entende de futebol. E nem tenho como saber o resultado do difícil jogo deste fim de semana contra o Flamengo. Tomara que o resultado corrobore as minhas palavras. Ainda assim, elas são para o longo prazo, porque é dele que dependem os projetos sustentáveis e vencedores.
O futebol requer convicção, paciência e perseverança.
Pena que afoitos, vaidosos e malas em geral não entendem isso.
Shabat shalom
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