
De vez em quando, sento e escrevo os textos desta coluna como se eu estivesse, metaforicamente falando, nua. Não abro um único livro e não checo uma anotação. Deixo meus dedos de unhas pintadas de vermelho apenas teclarem em um fluxo de motricidade fina, para não dizer de consciência, que me agrada no momento, mas que quase sempre acaba me decepcionando e descarto. Eu não gosto de tudo o que escrevo. Na verdade, tenho um certo pavor de gente que gosta do resultado de tudo o que faz. Não sei dizer de que mal sofrem. Sei que dele estou livre.
Minha poeta favorita entre as favoritas, Wislawa Szymborska, quando recebeu o Prêmio Nobel, respondeu a um jornalista impressionado com a pouca quantidade de poemas que ela havia publicado, que sua produção enxuta se devia ao fato de ela ter cesto de lixo em casa. Resposta genial como ela. E uma lição de sabedoria. Senso crítico tem de ser usado também em causa própria. Sem ele, a chance de que atos e julgamentos equivocados aconteçam aumenta bastante. Tenho sempre em mente duas frases, uma do Fiódor Dostoiévski e outra do F. Scott Fitzgerald. “Não julgue se não tem experiência”, disse o primeiro. “Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele –, lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou”, disse o segundo.
É bom ter ideias emprestadas de gente inteligente. Ler, em grande parte, serve para isto: para se ter repertório o suficiente para pensar e poder se expressar com criatividade e clareza e poder questionar, reformular e opinar sobre aquilo que se tinha como certo, absoluto e à prova de mudanças. Eu não sou muito fã de mudanças de endereço porque dão imensa trabalheira. Quem tem muitos livros sabe do que falo. Mas, para as de ponto de vista, estou sempre com a senha na mão. Se tem algo que minhas sinapses me ensinaram é que se ter a cabeça dura não é, de modo geral, algo muito produtivo. Porém, por vezes, fundamental. Nem tudo deve ser flexibilizado. A ética, por exemplo, ainda que toneladas de gente aleguem isso e mais aquilo e tentem montar uma lista de atenuantes, não foi feita para ser alquebrada, muito menos para ser vitimada pela desonra.
Eu acredito em honra. Hoje, quase uma utopia que sustento sem hesitação. Fui feita para tratar os outros com respeito, me expressar com civilidade e me responsabilizar pelo que faço e fui feita para sonhar. Durmo, ainda que pouco, de bem com a vida e de mal com a maldade. “Um dia, na plenitude de um livro, aprenderemos a ler. A ler o clima sem a garota do tempo. A ler as palavras ditas e os seus silêncios. A ler os gestos e as suas ausências. A ler a verdade por entre as mentiras. A ler as mentiras por entre as verdades. Um dia, dentro da plenitude de um livro, aprenderemos o que fazer com o bem que nos move e com o mal que nos esmaga”, escrevi, em 2019, no Facebook, antecipando um momento, ou melhor dizendo, uma vitória já conquistada. Sei o que fazer com pedras e atiradores, principalmente com os que não admiro e tampouco estimo. Ou estimava. Mesmo que eu sinta a descostura, me liberto das pessoas que não deram conta de seus desejos destrutivos e, com a pior versão de si, tentaram pisotear o meu jardim.
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