
Constantinopla é a atual Istambul (na Turquia); já se chamou Bizâncio (no antigo Império Romano do Oriente e no Bizantino). O nome deriva de Constantino, imperador da Roma oriental e filho de Helena, que afirmam ter sido ela quem converteu o filho ao cristianismo. Atribuindo-se também a ela o feito de ter ido a Jerusalém, localizado o Gólgota e resgatado o madeiro no qual Jesus teria sido crucificado.
Helena é a santa que se comemora hoje, 18 de agosto. Se, por um lado, Constantinopla demarca a fronteira de duas partes do mundo (a cidade que está entre dois continentes), Helena (talvez não intencionalmente) apaga a fronteira que separava o mítico do histórico.
Grego ou romano nenhum se deu ao trabalho de subir no topo do Monte Olimpo para trazer uma lembrancinha de Zeus; hebreus e judeus não se deram ao trabalho de voltar ao Monte Sinai para achar algum souvenir de Moisés: o divino seguia por um tempo que não se contava em anos ou dias, que não tinha data calculada. Contudo, enquanto o filho, Constantino, erguia muralhas separando impérios, a mãe mesclava o hemisfério do sagrado ao temporal.
Dizem que a materna encontrou o local do Santo Sepulcro e a cruz do suplício do Messias, trazendo uma de suas partes para a grande cidade, fiando uma linha que liga o material ao que deveria ser intangível. Alimentando não apenas devoções, mas dando corpo à ideia de que o poder podia resguardar a fé, inclusive materialmente. A Constantinopla de Helena, então, não foi só capital de impérios; tornou-se vitrine onde o cristianismo se apresentou em grandes igrejas, ricos mosaicos e constantes peregrinações.
As ações do imperador demonstram que a história do cristianismo é também história de decisões políticas: a posse da relíquia, a detenção do tesouro santo, confere ao seu guardião poder sobre quem busca, toca e chora diante do que acredita ser santo e verdadeiro. Helena e Constantino demarcam que o santificado não está tanto assim entre nós; tem um lugar exclusivo numa enorme e longínqua cidade, que não transcende ao imemorial, tem comprovação física.
Contudo, há ironias que o tempo contado em anos não corrige. O mesmo gesto que consagrou cruzes também serviu para consolidar tronos; a mesma cidade que acolheu peregrinos ferveu em suas praças rumor, discórdias e intrigas.
E, hoje, na data aferida, enquanto o décimo oitavo dia do oitavo mês do ano, as praças da discórdia no cristianismo se multiplicaram incontavelmente.
A crença no que seja santo e verdadeiro segue à mercê de deliberações políticas; proliferam miríades de conservadores da fé. O sagrado segue deixando de estar por entre as gentes, segue confinado em templo suntuoso, com mês, dia e hora para, liberado, desfilar por entre nós.