
Caminhar pelas ruelas de Lisboa há dez dias tem sido, para mim, um exercício de espelhamento e sobressalto. Diante do famoso painel do Castelo de São Jorge — que retrata a vista panorâmica da capital portuguesa no século XVII, antes do devastador terremoto de 1755 —, foi impossível não me transportar para as gravuras de Falconi e Wendroth. Elas guardam a memória visual de Porto Alegre. Em sua obra Lisboa em Metamorfose (2021), o sociólogo João Seixas lança uma pergunta inquietante: ‘O que é Lisboa como cidade hoje?’ Ao percorrer suas calçadas tomadas por multidões de turistas, faço a mim mesmo a exata mesma pergunta sobre o nosso chão: O que é Porto Alegre hoje? Em meu livro recente, “Porto Alegre: das origens à predação neoliberal” (Clube dos Autores, 2025, disponível gratuitamente AQUI), afirmei que a capital gaúcha vem sendo devorada pela lógica do capital. Mas, ao olhar para a vibrante e gentrificada capital portuguesa, a dúvida se impõe de forma urgente: será que Lisboa não é o espelho do nosso próprio futuro?
Seixas investiga a transformação de Lisboa de uma cidade histórica para uma complexa metrópole contemporânea, destaca que a arquitetura graciosa do passado convive com as transformações tecnológicas do presente, às quais se agregam o turismo de massa e a globalização. Leio seu texto e vejo similaridades de seus argumentos com Porto Alegre. Ele analisa uma cidade, Lisboa, com 575 mil habitantes e sua região metropolitana de cerca de três milhões; eu penso na Porto Alegre de 1,4 milhão de habitantes com uma região metropolitana de 4,1 milhões de habitantes. Nossa capital e nossa região metropolitana são maiores, mas por que tenho a impressão de que Lisboa é muito maior e melhor? Algumas coisas influem nesse julgamento, é verdade: nossa densidade turística, ao contrário da de Lisboa, é baixa, já que ela possui cerca de 10,4 milhões de turistas, e eu sou um deles. Mas o principal é que Porto Alegre é apenas mais uma aspirante a “CIDADE-MUNDO”. Lisboa já é uma. Apesar de ambas compartilharem cronologias de planejamento urbano similares (planos diretores no início do século XX, influência da Carta de Atenas e construção de bairros planejados), Lisboa se destaca por uma densidade de turistas muito superior à de residentes. Isso chama a minha atenção. Ela funciona, na prática, como uma megalópole.
Porto Alegre no espelho de Lisboa
O livro de João Seixas é dividido em três grandes partes, detalhando a evolução histórica, a expansão desordenada e os desafios contemporâneos de Lisboa. Leio o livro e penso em Porto Alegre, em como se desenvolveu e como se distanciou da capital portuguesa. Temos mais habitantes, mas bem menos turistas. Mas desde quando o turismo passou a ser alavanca de desenvolvimento? Seixas dedica sua primeira parte a Lisboa, ao território e ao que chama de suas metamorfoses. Quer dizer, na sua visão, para entender os caminhos das cidades, é preciso analisar sua evolução histórica e morfológica. A de Lisboa mescla influências do Mediterrâneo e do Atlântico. Penso na de Porto Alegre, somente com suas raízes portuguesas e as decorrentes do processo de independência do Brasil. É fácil entender: enquanto os marcos históricos de Lisboa foram eventos e planos cruciais, como o terremoto de 1755, os limites administrativos de 1852, as visões integradas de Duarte Pacheco (décadas de 1930 e 1940) e os planos de urbanização baseados na Carta de Atenas (Bairros de Alvalade, Olivais e Chelas), os marcos de Porto Alegre não tiveram papel-chave no reordenamento territorial: a provisão real de 7 de outubro de 1809, que cria os quatro primeiros municípios do Rio Grande do Sul, entre eles Porto Alegre, já encontra uma cidade em pleno desenvolvimento e organização política; mesmo nosso primeiro plano de desenvolvimento urbano, de autoria do capitão Montanha e datado de 1772, não passou de um traçado fundacional, que somente o plano de Moreira Maciel de 1914 foi o primeiro a propor o desenvolvimento da cidade, mesmo que, nos seguintes, houvesse influência também da Carta de Atenas, como no plano diretor de 1959. Lisboa foi praticamente empurrada em seu desenvolvimento; nós seguimos o caminho de nossos passos.
Seixas definiu Lisboa como a “cidade dentro de cidades”, sua forma de explicar os complexos fenômenos de conurbação e metropolização da Área Metropolitana de Lisboa (AML). No seu pensamento, o conceito de “cidade dentro de cidades” é a chave para entender como Lisboa deixou de ser um núcleo histórico para se transformar em um vasto organismo urbano, fragmentado e altamente complexo. Esse conceito supera a ideia tradicional de uma cidade com um centro robusto, rodeado por bairros periféricos que apenas “servem” a esse centro: ele propõe que Lisboa é um território polinuclear e reticulado. “Cidade dentro de cidades” significa que Lisboa não é mais um ponto único no mapa, mas uma megalópole fragmentada, uma hipercidade. Estamos agora exatamente no lugar preferido pelo sociólogo Jean Baudrillard, o da escalada aos extremos. Nesta concepção, Lisboa é um aglomerado de múltiplos territórios urbanos que funcionam com lógicas diferentes, enfrentam desigualdades extremas e possuem suas próprias centralidades, mas que estão amarrados no mesmo sistema metropolitano. Penso em Porto Alegre e entendo que, mesmo com uma população superior, tanto na capital como na região metropolitana, ainda somos essa metrópole tradicional da qual fala Seixas. Diferente de Lisboa, nossos bairros periféricos ainda servem ao centro da capital, assim como a nossa região metropolitana. Isso ocorre de Lisboa, nossos bairros periféricos ainda servem ao centro da capital, assim como a nossa região metropolitana, seja pelo fato de ali se concentrar a atividade econômica (sistema financeiro) ou o setor público, além de ser o centro do modal de transportes de toda a região. Mas isso não significa que Porto Alegre não esteja trilhando o caminho de Lisboa, pois, ao menos, é possível encontrar o início dessa fragmentação em regiões como a Restinga e o 4º Distrito. Minha pergunta é: o modelo polinuclear de Lisboa é o futuro de Porto Alegre?
A explosão de Lisboa
A segunda parte da obra trata da explosão, da urbanização intensa e desordenada de Lisboa, a transformação radical da metrópole a partir dos anos 1960. O estopim dessa “explosão” foi a integração de Portugal à Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). Ela cresceu ao longo da Linha do Norte e do estuário do Tejo e mescla antigas zonas industriais com vastas áreas residenciais contínuas. Isso alterou o tecido produtivo do país e provocou ao menos quatro consequências. A primeira foi o êxodo em direção às periferias, que levou milhares de pessoas a migrar para a RML em busca de trabalho. Isso gerou uma pressão imensa no território, resultando em uma proliferação de bairros legais e informais (bairros de barracas) e alterando a paisagem rural. Penso no que poderia ser seu equivalente no Rio Grande do Sul e só me ocorrem duas coisas. O primeiro, prático/demográfico, é a mecanização abrupta da agricultura da soja e trigo nos anos 60 e 70, que expulsou o pequeno agricultor do campo e gerou o êxodo que incentivou a metropolização. O segundo, o equivalente institucional, a entrada no Mercosul, em 1991, que reposicionou o estado no mercado internacional e, nele, o setor calçadista gaúcho. Some-se a eles a inauguração da Refinaria Alberto Pasqualini em Canoas e o Polo Petroquímico do Sul em Triunfo. Todos estes fatos também tiveram efeitos similares aos efeitos como vistos em Lisboa, pois fizeram com que milhares de famílias migrassem para a Região Metropolitana em busca de trabalho nessas novas indústrias e na construção civil.
Essa população migrante, oriunda da agricultura, como a de Lisboa, terminou indo para nossas grandes periferias, nossas cidades-dormitório à época, provocando o desenvolvimento desordenado de Alvorada, Viamão e Canoas, além do crescimento da Restinga, em Porto Alegre. A instalação do Complexo Automotivo da General Motors (GM) em Gravataí, no final dos anos 1990, na RMPA, justamente pela localização estratégica para exportar para o Mercosul, também transformou a dinâmica da região metropolitana. Esta cidade passou a ter também uma centralidade própria. Seria Gravataí nosso exemplo de cidade dentro de cidades, de pós-metrópole policêntrica de que fala Seixas em relação a Lisboa? Se a metamorfose de Lisboa foi provocada por um tratado europeu que a levou a transformar-se em pós-metrópole, a metamorfose de Porto Alegre foi incompleta. Ela a transformou numa metrópole fragmentada pela combinação de processos de industrialização/mecanização agrícola dos anos 60/70, que forneceram a massa humana. A inserção no Mercosul nos anos 90 transformou Porto Alegre numa metrópole fragmentada, resultado da combinação de processos de industrialização e mecanização agrícola desse período, que forneceram a massa humana, e reconfigurou seu papel econômico, não em escala global, mas regional.
Eixos das Cidades
Seixas também defende que o crescimento da cidade em cinco eixos, a partir do núcleo central, expansão radial guiada por infraestruturas rodoviárias e ferroviárias, foi fundamental para a sua transformação em pós-metrópole. Eles são corredores que estruturaram a urbanização da Área Metropolitana de Lisboa (AML), avançando tanto na margem norte quanto na margem sul do Rio Tejo. O primeiro é o Eixo Ocidental, a linha costeira que se estende de Lisboa a Cascais, historicamente associado ao turismo balnear de elite que se consolidou como uma zona residencial de alto padrão e de serviços, seguindo a orla e a autoestrada A5. Eu estive nesta autoestrada, pude ver os conglomerados empresariais ao seu redor. O segundo é o Eixo Noroeste, a linha que vai de Sintra a Amadora, corredor de maior densidade populacional, de urbanização acelerada, densa e, muitas vezes, desordenada e com forte perfil de dormitório. Eu vi isso na viagem a Sintra, pois, ao longe, na cidade propriamente dita, blocos de apartamentos se perfilavam no horizonte.
O terceiro é o eixo Norte/Nordeste, que envolve Odivelas, Loures e Vila Franca de Xira. Ele cresceu ao longo da Linha do Norte e do estuário do Tejo e mescla antigas zonas industriais com vastas áreas residenciais contínuas. Cresceu ao longo da Linha do Norte e do estuário do Tejo, mesclando antigas zonas industriais com vastas áreas residenciais contínuas, sendo o principal elo da capital com o resto do país. Não estive em nenhuma dessas cidades; vi apenas notícias de Loures na televisão, em matérias sobre violência policial e conflitos sociais. O quarto é o Eixo Sul-Ocidental, que vai de Almada e Seixal e que representa a expansão para a Margem Sul, antigas zonas agrícolas e operárias transformadas em extensos subúrbios residenciais diretamente dependentes de Lisboa. Em Almada, segundo relatos dos taxistas, afirmava-se que era melhor morar ali porque os aluguéis eram menores. A última, o eixo Sul-Oriental, dos municípios de Barreiro, Montijo e Alcochete, é uma região que sofreu desindustrialização e hoje se reconfigura como área residencial e de serviços. Destas, vimos nos jornais notícias de Alcochete, pois havia um debate sobre o novo lugar de instalação de um novo aeroporto nesta região.
Viajei para Lisboa e tive uma visão superficial desses eixos, que Seixas esclarece e organiza. Quem anda na cidade e faz seus passeios não tem ideia de que o processo de desenvolvimento do centro de Lisboa teve consequências ao seu redor. Eu já viajei muito por Porto Alegre e conheço seu processo de desenvolvimento. A primeira semelhança que vejo com Lisboa é que também temos como central o modelo radial de desenvolvimento. Entretanto, o modelo de desenvolvimento de Porto Alegre é distinto, pois o Lago Guaíba e o maciço de morros que divide a cidade a partir do centro histórico influenciaram seu desenvolvimento de maneira diferente em relação a Lisboa. Ao invés dos cinco eixos da AML, possuímos quatro somente em Porto Alegre, produtos da influência dos planos de João Moreira Maciel e Edvaldo Pereira Paiva no planejamento viário. Isso resultou nos nossos eixos: o Eixo Norte, que envolve as avenidas Farrapos, Sertório e Assis Brasil, o vetor industrial da cidade que leva a cidade em direção à conurbação de Canoas; o Leste, das avenidas Protásio Alves, Bento Gonçalves e Ipiranga, que sobe os morros em direção a Viamão, área de ocupação residencial heterogênea; o Sul, que inclui as avenidas Borges de Medeiros, Cavalhada e Wenceslau Escobar, que contornam os morros pela orla do Guaíba, originalmente uma região de chácaras e lazer de fim de semana; e, finalmente, o Extremo Sul, que envolve as regiões de Belém Novo e Lami, que ainda preserva características rurais, mas sofre a pressão de condomínios fechados horizontais.
Nossa expansão unidirecional
Lisboa teve mais sucesso em suas obras para incorporar a cidade à dinâmica metropolitana do que Porto Alegre, cujo delta do Jacuí e Guaíba bloquearam o crescimento em direção ao oeste-sul. Nossa expansão urbana é unidirecional, em direção ao Vale dos Sinos; a de Lisboa, multidirecional. Os lisboetas tiveram sucesso em contornar a sua barreira hídrica, o Rio Tejo, enquanto nós fomos vencidos pela nossa, o Guaíba. Além disso, enquanto os vetores de expansão de Lisboa eram baseados em vias férreas e autoestradas radiais, os de Porto Alegre foram fundados nos sistemas de ônibus e grandes avenidas radiais do século XX. Resultado: os lisboetas preservaram o trem; os porto-alegrenses, não. Nossa última tentativa, o Trensurb, sobrevive como esperança para o futuro de pós-metrópole. Tanto o centro histórico de Lisboa como o de Porto Alegre, no entanto, sofreram o mesmo processo de esvaziamento residencial. Em Lisboa, foi provocado pelo turismo. Em Porto Alegre, foi pelo alto custo das moradias, direcionando as elites para o eixo Carlos Gomes e Nilo e as populações pobres para o extremo norte da cidade. A população que se preservou no centro foi afetada pela enchente, e muitos já querem sair. Mas ambas têm desigualdades socioespaciais: tanto em Lisboa como em Porto Alegre, a morfologia original determinou o desenvolvimento: em Lisboa, o Tejo. Em ambas as cidades, a fronteira hídrica teve papel diverso. Enquanto na RML, o Estuário do Tejo dividiu a metrópole em duas metades funcionais (norte e sul), na RMPA o Delta do Jacuí e o Guaíba funcionaram mais como paredão a oeste. No contexto de Porto Alegre, o Guaíba atua como um obstáculo. Daí a necessidade de políticas de reintegração do território, como o Arco Ribeirinho Sul no Tejo e o 4.º distrito em Lisboa. Porto Alegre, no entanto, tem um obstáculo para isso: o Muro da Mauá.
O terceiro aspecto destacado por Seixas foi o surgimento da Grande Lisboa Central, efeito da expansão, que criou uma conurbação densa e abriga cerca de dois terços dos residentes da AML. Surgiram então territórios suburbanos (como Amadora, Odivelas, Loures, Almada, Barreiro e Seixal), que cresceram rapidamente, muitas vezes sofrendo com desqualificação, precarização e estigmas socioespaciais. Eles cercam Lisboa pela expulsão dos moradores do centro histórico, que levou, na década de 1990, a uma crise de habitação que forçou a criação de instrumentos obrigatórios de Planejamento Urbano, como os Planos Diretores Municipais. Comparo com a Grande Porto Alegre: nossa região metropolitana é bem maior. Enquanto a de Lisboa tem 18 municípios, a nossa tem 34; temos também uma população superior, com 4,01 milhões de habitantes, contra os 2,87 milhões da RML. Nossa área territorial é maior, com cerca de 10.341 km², que resultam numa densidade de 388 hab./km², contra os 3 mil km da AML, que fazem que em Lisboa a densidade atinja os 956 hab./km². Por que sua densidade é maior? Porque a urbanização da RML foi mais vertical do que a de Porto Alegre.
Em direção à cidade global
Quero comparar Lisboa com Porto Alegre, mas me dou conta da dificuldade de fazer isso com regiões metropolitanas de diferentes características. A nossa sofreu um forte processo de espraiamento, uma mancha urbana que se expandiu ao longo da BR-116 em direção ao Vale dos Sinos, envolvendo Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo, e em direção a Gravataí. A de Lisboa foi mais contida, pois, mesmo chegando a Sintra e Vila Franca de Xira, a malha urbana é mais densa e dependente do núcleo central. Em ambas as cidades, a fronteira hídrica teve papel diverso. Enquanto na RML, o Estuário do Tejo dividiu a metrópole em duas metades funcionais (norte e sul), na RMPA o Delta do Jacuí e o Guaíba funcionaram mais como paredão a oeste. Em ambas as cidades, a fronteira hídrica teve papéis diversos. Enquanto na RML o Estuário do Tejo dividiu a metrópole em duas metades funcionais (norte e sul), na RMPA o Delta do Jacuí e o Guaíba atuaram mais como um paredão a oeste, não dividindo a cidade, mas comprimindo seu crescimento para leste. Guaíba e Eldorado do Sul não têm a simetria ou peso demográfico que os municípios da Margem Sul do Tejo possuem. Além disso, a mobilidade de Lisboa foi pensada de forma diversa da de Porto Alegre: a primeira, sobre trilhos; a segunda, dependente do modelo rodoviário, ainda que tenha a presença do Trensurb.
A terceira parte trata da transição de Lisboa, de metrópole em direção a pós-metrópole, e dos desafios atuais. Esta é a última parte do livro, que descreve a condição atual de Lisboa: uma cidade global, digitalizada, mas profundamente marcada por desigualdades sociais resultantes de sua modernização. Ela é caracterizada por quatro aspectos principais. O primeiro é o da sustentabilidade e globalização. Esse é o objetivo, após a crise de 2008, da “Carta Estratégica” de Lisboa, que buscou integrar princípios ecológicos e tecnológicos. A cidade requalificou espaços públicos e atraiu empreendedorismo, consolidando sua imagem internacional. Vejo isso num aspecto elementar da cidade: aqui, o cuidado com o lixo é fundamental. Há lixeiras por todo o lugar. Ao menos na área turística, pouco vejo de sujeira pelas ruas. O segundo é a crise habitacional propriamente dita: o desenvolvimento da AML é assimétrico. A gentrificação e a expansão do turismo reduziram a oferta de moradia para os nativos. Cerca de 26 mil famílias carecem de habitação e não têm habitação. Levantamento de 2018 aponta que 26 mil famílias carecem de habitação em Lisboa, Amadora, Almada e Loures. Basta andar pelas ruas; estão lá, inúmeros cartazes em defesa da habitação. O terceiro e mais fascinante é o conceito de pós-metrópole: a cidade deixou de ser uma estrutura radial focada em um único centro para se tornar um “vasto sistema hiperurbano”, polinuclear e reticulado. Ele se refere às ligações entre os municípios, mas é visível já mesmo no interior de Lisboa: cada bairro é outra cidade. O último é consequência da crise habitacional já apontada: aqui, as lutas pelo Direito à Cidade e há um crescente envolvimento da sociedade civil nas questões territoriais. Não apenas moradia, mas qualidade de vida na cidade.
Crescendo com desigualdade
Essas características têm consequências. A primeira é que a pós-metrópole impõe novas centralidades. Os subúrbios deixam de ser apenas “cidades-dormitório” e se transformam em regiões com economias autônomas e ativas. Amadora ou Almada, integrantes da região metropolitana, são cidades com seus próprios problemas e fluxos, ainda que umbilicalmente ligadas à metrópole maior. A segunda é que a hipemetrópole amplia a desigualdade. Quando há “cidades dentro de cidades”, a fragmentação socioespacial é profunda. Eu vi isso em Lisboa, o convívio da cidade do turismo de luxo ao mesmo tempo com condomínios populares, bastando mudar a rota de acesso. Essa geografia polinuclear e reticular faz de Lisboa o que ela é: uma metrópole agressivamente inserida nos fluxos internacionais do turismo, lugar de parques tecnológicos, mas, ao mesmo tempo, um lugar de segregação espacial. É isso que Porto Alegre deseja ser? Eu creio que não.
Muitos invejam as condições dessa Lisboa pós-metrópole, mas ela também necessita de transformações sistêmicas para combater suas desigualdades. Imaginar que Porto Alegre possa se transformar um dia em pós-metrópole significa que é preciso antecipar transformações sistêmicas que as políticas neoliberais não estão dispostas a bancar. Como fazer com que cidades como Alvorada, Viamão e Guaíba deixem de ser zonas de expansão residencial e se transformem em polos de investimento e conhecimento? Para isso, é preciso deixar de precisar ir ao centro de Porto Alegre; é preciso de políticas públicas que transformem nossas cidades periféricas em regiões mais autônomas. É isso que é buscar uma política de desenvolvimento cidadã e policêntrica. Por outro lado, enquanto nossas políticas públicas forem caracterizadas por uma administração fragmentada, elas não conseguirão operar em termos de governança reticular ou metarregional; ou seja, suas cidades não conseguirão implementar uma gestão compartilhada em grande escala das funções essenciais, como mobilidade, habitação e ecologia, que são necessárias.
Órgãos de planejamento urbano
A Metroplan em Porto Alegre tem menos peso político que a Área Metropolitana. Enquanto a primeira é uma agência técnica e fiscalizadora do governo estadual, a segunda é uma entidade pública associativa de municípios com maior robustez financeira. A nossa depende do Poder Executivo e não tem poder político real com os prefeitos, enquanto a deles possui uma Assembleia Metropolitana e uma Comissão Executiva que faz com que as decisões sejam produto do consenso e negociação, o que dá mais representatividade. Há uma grande diferença orçamentária entre as duas, já que a nossa depende dos repasses estaduais, que tendem a reduzir nas atuais políticas neoliberais, enquanto a deles gera fundos comunitários da própria União Europeia. No transporte, área central da Metroplan, os problemas resumem-se à fragmentação tarifária e à ausência de controle da bilhetagem que integre ônibus e Trensurb; a AML, ao contrário, unificou a operação rodoviária na Carris Metropolitana e é a gerente do passe Navegante. Eu vi muitos turistas com este passe, mas não o adquiri. Curiosamente, a área em que ambas se destacam, ao contrário, é relativa à crise climática: a Metroplan possui importante expertise contra cheias, enquanto a AML tem atuação direta nos Planos Diretores Municipais nessa área.
Não tem jeito: mesmo contando com um corpo técnico altamente qualificado, a Metroplan perde espaço em comparação com A AML, no quesito autonomia financeira. Um dos pontos de virada de Lisboa foi o modo como foi tratada a questão do conhecimento. Não apenas turismo, mas atração de nômades digitais fez com que startups europeias se instalassem em Lisboa e transformassem a cidade em destino internacional maciço. Porto Alegre pode usar sua tradição universitária para se reposicionar, com a UFRGS e Tecnopuc, mas precisa também mudar a forma de sua mobilidade. Deixar de levar as pessoas da periferia para o centro por ônibus, mas criar uma teia de acesso de deslocamento transversal. Uma forma de fazer isso seria dar maior centralidade às águas: assim como o Tejo em Lisboa foi um catalisador de inovação, o Guaíba também pode se tornar um impulsionador de inovação quando deixar de ser apenas a fronteira oeste.
Lições do exemplo lisboeta
Entendo que, ao menos, três lições podemos tirar do exemplo lisboeta. A primeira, que talvez Lisboa ensine mais pelo que é e não queremos ser, do que uma imagem para nosso futuro. Acreditamos que ser uma pós–metrópole é algo desejável quando pode ser uma nova ilusão do urbanismo e do marketing urbano. Imaginar um lugar onde convergem o capital, inovação tecnológica e hiperconectividade pode ser, ao contrário, exatamente a imagem da cidade que não queremos ser. Por quê? Porque nesse nível estão as maiores patologias urbanas de nosso tempo. E o exemplo é, justamente, Lisboa. Penso nisso ao imaginar as vantagens da “cidade comum”, que Porto Alegre representou até bem pouco tempo, com seus fortes contornos locais, as virtudes que muitos centros tentam recuperar. Essa foi a Porto Alegre, mais ou menos até os anos 50, às vésperas de sua metropolização, quando ainda era… Cidade!
Com não mais do que 500 mil habitantes, era uma cidade em que a população estava conectada ao seu território imediato, frequentava os espaços públicos com vigor, construía a vida de bairro com alegria e contentamento. O desenvolvimento da expansão urbana recente apenas transformou a habitação da cidade em novo ativo financeiro; provocou, principalmente, a gentrificação de populações que habitavam o seu centro. Lisboa é o futuro disto: hipergentrificada, pós-metrópole, seu custo de vida descolou-se por completo dos salários locais, seu mercado imobiliário passou a ser ditado por fundos de investimentos estrangeiros e plataformas de aluguel. Já estamos vendo essa história se iniciar com a expansão do mercado imobiliário local, hoje nas mãos de Melnik e Cia. Queremos esse futuro? Queremos expulsar nossos residentes originais de seus lugares? Estamos fazendo isso discretamente: agora mesmo, com os trabalhadores do Viaduto da Borges; logo em breve, quem sabe, com os permissionários do mercado público. Quem mais está na fila da expropriação da cidade pelo capital? É exatamente essa a lição de Lisboa sobre a qual deveríamos refletir.
A importância de voltar ao passado
A segunda é a importância de olhar para o passado. O que tinha de vantagem a Porto Alegre, a cidade comum do passado? Ela não sofria da segregação extrema que as pós-metrópoles sofrem. A cidade vivia seu desenvolvimento natural em direção aos bairros desde o século XIX, quando avançou, após a Revolução Farroupilha, os limites dados pela paliçada de madeira que protegia o centro da capital. A fronteira estabelecida significou o desenvolvimento da cidade em direção aos bairros, resultando na criação de algumas centralidades significativas, como no Menino Deus, Azenha e Mont Serrat. Não existiam condomínios-fortalezas, apenas prédios e blocos financiados pelo BNH. Havia precarização, em virtude mais de um processo de desenvolvimento industrial e menos pelo nascimento de um arquipélago em que as classes sociais deixam de se cruzar.
Em qualquer carta de direitos, deveria ser um artigo comum o direito do cidadão a seu centro histórico e cultural como lugar de vivência; mas é a própria cidade que deve ser um lugar social por definição, não? O que faz a arquitetura moderna? Transforma a cidade em um cenário pasteurizado para consumo global. É o sonho daqueles que criticam os caranguejos de Porto Alegre: ver a linha do horizonte da cidade marcada por arranha-céus. Esse é o inferno do igual de que fala Byung-Chul Han. Quando isso acontece, toda a singularidade da história dos bairros tradicionais, de suas padarias, armazéns e sapateiros antigos é engolida pelas redes de consumo turísticas, lojas de souvenir ou bares de consumo de massa. É nesse momento que a cidade perde sua alma, encena uma identidade para inglês ver que nada tem a ver com suas raízes.
Uma cidade em escala humana
É preciso defender a escala humana verdadeira para as cidades. E, para isso, é preciso recusar o salto para a financeirização global, que torna a vida urbana inviável e desumana. Frear o crescimento é a única arma para guardar a essência da vida urbana em comum. Aqui, a referência é a cidade de 15 minutos. Ela possui inúmeras críticas, mas é um norte. É a valorização da vida de bairro, a proximidade entre moradia, comércio, escola e praças que permite a vida ser feita a pé. É preciso recusar o modelo que faz com que o solo e a habitação sejam objeto de competição entre moradores e turistas. A cidade é lugar de morar, não de especular. O patrimônio histórico objeto do turismo é, em primeiro lugar, patrimônio dos moradores do bairro. Manter a arquitetura das casas antigas é outra forma de preservar a história real da comunidade; expor populações é terminar com laços de vizinhança e redes de apoio que a impessoalidade da pós-metrópole destrói.
A terceira é: vale a pena transformar Porto Alegre em pós-metrópole global? Para mim, nem pensar. Não se trata de impulsionar o desenvolvimento da cidade para um objetivo do capital; trata-se de proteger-se dos efeitos danosos da financeirização que rouba a cidade de seus moradores. Minha conclusão é que precisamos de mais políticas públicas urbanas de recusa que a preservem. É preciso inverter e positivar as críticas que hoje pairam sobre as cidades de 15 minutos: revitalizar bairros não pode significar levar à expulsão de seus moradores; é preciso políticas de controle da habitação social; se o serviço de operários e demais profissionais da construção civil não pode ser descentralizado, é preciso que os concentradores de emprego sejam incentivados a diversificarem seus investimentos; não se trata de facilitar o mundo para quem trabalha em home office, mas buscar alternativas para aqueles cujo ofício ainda é centralizado. Cabe ao poder público levar não apenas infraestrutura de qualidade a regiões desassistidas, mas também a criação de hospitais secundários em franjas metropolitanas. A mobilidade transversal se encarregará de evitar que tal valorização da vida hiperlocal se transforme em nova guetização urbana, ao contrário. Só assim a riqueza local será objeto de deslocamentos para as diversas regiões da cidade.