
A moda agora é ser gordo sabor magro; a pessoa fica magra por fora, mas é um gordo por dentro. E não tem outro jeito de continuar magro senão matando seu gordo interior a canetadas.
Não que isso seja ruim. Nem bom. O fato é que (quase) todo mundo quer ser magro e (quase) todo mundo quer isso sem esforço, sem mudar os hábitos e sem continuidade.
Pode parecer que eu tô julgando, mas não julgo, não. Desde que me disseram que julgar é olho gordo, comecei uma dieta de julgamentos.
Não acho ruim esse povo todo aí com essas canetas com agulha na ponta se picando pra emagrecer. Mas me diz, quanta gente que questionou a vacina da COVID se atraca nos remédios para emagrecer, especialmente as tais canetas, sem questionar consequências e procedências?
Mas, voltando às canetas, que não são canetas, mas sim injeções, fico me perguntando quem foi o marketeiro vendedor mal-intencionado que resolveu mudar o nome da injeção pra caneta, e com esse rebranding fez o povo todo querer sair se dando agulhada. Um gênio do mal, pai de coaches de emagrecimento e influencers analfabetos em saúde que mal sabem escrever com uma Bic.
Além de tudo, as tais canetas geraram um conflito geracional. Falar de caneta na farmácia, pra geração mais avançada de idade, vai fazer o indivíduo procurar no balcão aquela presa por uma cordinha pra ninguém roubar. A nova geração de caneteiros farmacêuticos fica num cofre refrigerado, pelo mesmo motivo.
Os sacoleiros raiz, que traziam eletrônicos e bagulhadas do Paraguai, agora só querem saber de trazer Joãomauro, Ossempix e Unsengovi, com ampla procura e total rigor técnico de ‘la garantia soy yo’.
Mas e a saúde? É seguro? Funciona? Dizem que sim, mas o que me preocupa mais é a cara de quem usa a tal caneta… Não, não é a cara de fome das modelos da década passada, é muito pior. É cara de quem NÃO tem fome, de quem não sonha mais com um bife à milanesa super crocante por fora e suculento por dentro, uma pizza com borda dourada e queijo derretido por cima, um sorvete napolitano com pedaços de morango ou um chocolate sem gordura hidrogenada derretendo na boca.
A cara de caneta é a cara da tristeza moderna, do fim do sonho do churrasco com pão de alho e maionese, do bolo cremoso de milho com coco, da palha italiana feita com chocolate alpino. Uma cara sem calorias nem alma alimentar.
Ficar com cara de catálogo da Victoria’s Secret é muito anos 90 e requer mais do que perder peso, sabia? E, de quebra, você perde uma das melhores coisas da vida: salivar, saborear e comer com muita vontade. Não precisa se entupir de comida, mas comer com tesão é essencial à digestão cerebral.
Mas voltando às minhas alças do amor, culotes, celulites e barriguinha. Elas me incomodam por quê? Acho que me ensinaram a me incomodar. Eu deveria ter nascido na Renascença, quando a moda era ser fofa. Mas fui nascer e crescer na época da anorexia, das bombadas, dos silicones. Que preguiça. Preguiça de ter que ser alguma coisa, magra ou gorda, ou seja, o que for.
Cheguei à conclusão de que, SIM, reconheço, eu tenho preconceito com essas canetas. E se você não tem um problema real de saúde e só quer usar pra entrar numa roupa X e ficar parecendo Y, cresça. Tem muito mais gente passando fome no mundo do que a nossa vaidade pode imaginar.
Pense se você quer emagrecer por você ou pra satisfazer alguma entidade que com certeza nunca comeu uma boa torta aos 4 leites ou uma salada com manga, hortelã, queijo azul e presunto de Parma. E se você realmente quer emagrecer pela sua saúde ou satisfação pessoal, tenta uma reeducação alimentar que não te deixe passando fome e permita momentos de comer o que te dá prazer junto com uma alimentação saudável.
As canetas que todos deveriam querer usar sem moderação são aquelas de ponta esferográfica, ou de gel, ou até o antigo tinteiro. Pegar uma caneta e escrever, com letra cursiva. Escrever sem abreviação, com ponto, vírgula e travessão. Escrever com uma caneta na mão, devagar e corretamente, pra não sair fazendo besteira e se importando com o que não é essencial na vida.