
Era julho quando ela se foi: 98 anos de uma vida linda!
Naquela época, não lembro de se falar em Dia dos Avós (26/07).
Confesso que eu também desconhecia o 25/7, do Julho das Pretas.
Essa coisa de ter um dia pra tudo, na minha lembrança, é algo recente.
Porém, reconheço: algumas datas são essenciais ao nosso senso de pertencimento.
Mas o assunto é minha avó Joana. Ou melhor: Maria Joana Pereira de Carvalho.
Era assim que ela se apresentava a quem não a conhecia ainda.
Nome composto, presença marcante e dedo em riste, sempre que via necessidade.
Da infância, recordo das férias que passava na casa dela e do meu avô, Idorildo.
A cidade era Viamão, mas parecia uma viagem com o deslocamento de ônibus.
Ao menos ficava pertinho do Parque Saint Hilaire, outro lugar de boas lembranças.
Nos verões, brincava no pátio da casa.
Chão de terra e pedrinhas.
Bergamoteira, limoeiro, goiabeira e pitangueira.
Gatos, muitos gatos, pois ela os amava.
Galinheiro, galinhas com nome e ovos frescos.
Fogão a lenha que meu avô acordava cedo pra acender.
Fumaça na cozinha, cheiro de madeira molhada.
Doce de batata.
Bife à milanesa.
Canjica com açúcar.
Arroz de leite.
A casa da vó tinha dessas coisas.
Lembro das mãos dela:
fofinhas, macias e enrugadas.
Quando meu abdômen “afumentava” (massageava),
Qualquer dor de barriga passava.
Era um passe de mágica?
Era uma benzedura!
Era carinho e fé.
Era sabedoria ancestral.
Talvez transmitida por minha bisavó, Emília,
Que não pude conhecer.
Mas é algo impossível de se esquecer.
Vaidosa, vó Joana não abria mão do batom.
Sempre muito “perfumosa”.
Unhas com esmalte encarnado.
E cabelos alisados com pente.
Sim, pente de ferro quente.
Lendo o livro Meridiana, de Eliana Alves Cruz,
A imagem e o odor daquele ritual,
Naturalizado por décadas entre mulheres negras,
Vieram sem pedir licença à minha mente.
Tranças bem enroladas.
Ou um coque charmoso.
Grampos para prender.
Ou um lenço colorido para adornar.
Feliz de mim.
E da minha irmã.
Que por 30 e 19 anos,
Respectivamente,
Tivemos o privilégio de ter nossa avó.
A vó Joana
Pertinho de nós.
Tão bom lembrar.
De beijar sua mão.
De pedir a benção.
De ouvir “Deus te abençoe, meu filho”.
Avó querida, que adorava conversar,
Especialmente durante os almoços.
Até a comida esfriar,
Pois comia devagarinho.
E ainda dizia: “Não sou criança pra comer comida fria”.
Vó Joana dos provérbios e das crenças.
Do galhinho de arruda atrás da orelha (proteção).
Do espelho coberto em dias de chuva (prevenção).
Dos chinelos que não podiam ficar virados (superstição).
“Não presta, fiinho”.
(sim, “fiinho” e não filhinho, no melhor “pretoguês” defendido por Lélia Gonzalez)
Vó Joana dos ditos populares.
Perpetuados na força da oralidade.
Manifestações de inteligência ancestral.
Potência viva sem os limites da nossa lógica temporal.
Falas que atravessaram gerações.
Às vezes, (para mim) sem sentido.
Mas capazes de revelar uma sabedoria
Para a qual minha mente jovem ainda era arredia.
“É pelos domingos que se tira os dias santos“.
Para falar de pessoas que agiam de forma contrária aos seus discursos.
“Essa risada nem era pra agora.”
Quando uma gargalhada saía espontânea, em meio à conversa.
“É de pequenino que se torce o pepino.”
Associada às reprimendas a crianças após um comportamento inadequado.
“O que é bom nasce feito.”
Como forma de elogio aos mais jovens com realizações surpreendentes.
E tantas outras que vou lembrar só depois de publicar esse texto…
A força da presença dela é tão grande
Que até hoje repito
Alguns desses ditos.
E meu filho, que nem a conheceu.
Gravou uma dessas frases, assim como eu:
“O que arde cura, o que aperta segura.”
Ele repete quando rala o joelho e coloca merthiolate.
(E olha que o merthiolate de hoje nem arde mais…)
Após sua partida, meu avô também se foi.
Apenas 33 dias separaram suas existências nesta encarnação.
Pois o Plano Espiritual sabia que precisavam continuar juntos.
De legado, ficou a casa, em Viamão.
Lugar para onde minha esposa e eu nos mudamos.
E vivemos por algum tempo
Após nosso casamento
Não tinha mais fogão à lenha.
Nem o espaço na sala de estar
Que mantinha uma vela acesa,
Em homenagem aos orixás.
Lembro da minha vó, no reluzente amarelo de Oxum.
E do meu avô, com suas guias e camisa vermelha de Xangô.
A ausência física deles não tirou a energia boa do lugar.
Ali, como recém-casados, nossa vida juntos se consolidou.
Até a hora de voltar para Porto Alegre.
E, em definitivo, aquela moradia de afeto deixar
Pensando nisso, dá até uma culpa:
Tive três décadas para curtir minha avó,
Que adorava lembrar, até os últimos anos de vida,
Que me banhava em um só braço quando bebê.
Meu filho teve bem menos tempo com minha mãe.
Do primeiro encontro à despedida,
Pouco mais de 36 meses de partilhas.
Mas almejo que mesmo essa vírgula no calendário
Garanta doces memórias,
Capazes de fazê-lo sentir
O calor de quem o esperou
Para contar as melhores histórias.
A ancestralidade é assim:
Valor que vem, valor que fica.
Vem da avó, da mãe, passa por mim.
O compromisso natural e constante
De receber o melhor e passar adiante.
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Eduardo Borba é jornalista, pai, integrante movimentos para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII (Porto Alegre). Mestre em Comunicação Social com foco em Memória Institucional, especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global e doutorando em Educação pela PUCRS. Está à frente da ECBorba Consultoria e Projetos em Comunicação. (@ecborba