
Morador do bairro Rio Branco em Porto Alegre desde os anos 1980, acostumei-me a ouvir um assobio fantasmagórico a anunciar a lua em muito mais de mil e uma noites. Um silvo acentuado e ascendente que corta o silêncio, repentino, termina “para cima”, como o estalo de um chicote no ar.
Foi o saudoso amigo, professor Aécio Soares Brito, colega reumatologista e meu vizinho na Santa Cecília, que me esclareceu o mistério. Aquele assobio quase humano, algo sobrenatural, curto e vigoroso, parecendo de alguém que quisesse chamar atenção, é o canto do curiango. É muito diferente do som emitido por outras aves noturnas, como o bacurau verdadeiro, mais contínuo e ainda mais assustador, ou da coruja, mais grave e vibrante. O do curiango é, essencialmente, um estalo vocal.
O curiango é uma ave noturna, da família Caprimulgidae, também conhecida como bacurau-comum ou noitibó-pauraque, que recebeu o nome científico de Nyctidromus albicollis. Distribui-se por todo o Brasil, ocorrendo do México ao nordeste da Argentina. De pequeno porte, tem a plumagem marrom-acinzentada e manchas escuras, asas longas e cauda com faixas brancas no macho, mais estreitas na fêmea. Alimenta-se de insetos capturados em pleno voo.
Criaturas da noite que se prezam tornam-se folclore. Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), um dos maiores pesquisadores da cultura brasileira, conta que o curiango ganhou fama de amuleto: as penas de sua asa curariam dor de dente e outras dores; se colocadas entre a manta e a sela, garantiam que o cavalo não cairia, nem que saltasse um rio cheio. Ainda segundo o autor, por passar a noite pelos caminhos, com olhos acesos, contando as léguas, ganhou o apelido de mede-léguas. “É dizendo e bacurau escrevendo”, virou expressão de uma verdade, sem sombra de dúvidas.
Já não ouço mais; um deles, não faz muito, apareceu na minha janela, durante o dia. Parecia muito assustado. Foi a primeira vez que vi um curiango. Ainda segundo o amigo Aécio, eles eram particularmente comuns nessa parte da cidade, vivendo nas matas em torno do Morro Milenar; em sua encosta, o Colégio Americano, e no topo, majestoso, o Instituto Porto Alegre, o IPA, fechado no ano seguinte ao seu centenário (1923-2024).
As matas, e não estou falando em passado remoto, estão sendo “desaparecidas”. Acho que o primeiro indício foi a busca de refúgio em nossa casa por alguns gambás. Outra história a ser contada. O curiango na janela, em período estranho à sua rotina, foi mais convincente.
Uma notícia recente dá conta de que o novo Plano Diretor da Capital (talvez fosse melhor denominado de Plano Demolidor) aprovou a construção de cinco edifícios, quatro residenciais e um misto, em parte do terreno do IPA. A limitação anterior de 33 metros de altura agora permitirá 90 metros de altura. O entorno, de trânsito já difícil, contará com novos moradores e usuários, serão 542 apartamentos, de um a quatro dormitórios, e 248 salas comerciais. Não ouso fazer mais contas.
Não sei se o empreendimento já tem nome, mas certamente deverá buscar um anglicismo, algo do tipo Sky Garden. Trazendo coerência aos seus rooftops e location e inúmeras amenities e facilities. O fato é que me fez lembrar a visita do curiango. No lugar onde vivo já foi a Colônia Africana, um importante território quilombola em Porto Alegre, habitado majoritariamente por famílias negras entre as décadas de 1880 e 1950. Uma região marcada por solidariedade, cultura popular, resistência e resiliência, tendo enfrentado processos de apagamento urbano e gentrificação, por especulação imobiliária. Hoje são poucos os descendentes que residem nas imediações. Curiango vem do quimbundo, língua de muitos africanos trazidos escravizados. Kurianga significa “preceder”. Se o seu canto parece um aviso, vê-lo foi um prenúncio. O último curiango do Morro Milenar veio se despedir.
Dedicado a Suzel, que desde a infância o ouvia, e a Teresa, que só saberá se contarmos.
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