
Renato Portaluppi e o Grêmio são a cara dos novos tempos. De uma cultura sempre em movimento. E do que mudou, infelizmente, para pior. Do que, um dia, foi exímio, exuberante, e hoje não é mais.
O Grêmio e nós, com ele, devemos muito ao Renato, se pensarmos que a gratidão está longe de ser pouca coisa. Foi ele que elevou o patamar do time, do quintal da Azenha ao mundo todo. Cobriu-os de azul, mas não só. Deu-nos muita alegria multicor com seus cortes e gingas criativas, dribles e corridas gigantescas, de Bento ao Rio, do Rio ao mundo. E uma alegria guarda o mesmo alto patamar da gratidão. Renato Portaluppi deu-nos performance, desempenho, vitórias, reconhecimento e, sobretudo, o prazer inigualável de ver a arte nos campos.
Esquecer disso seria uma ingratidão com uma tristeza enorme, e não o faremos. Não temos amnésia para cuspir no prato que já foi cheio e saboroso. Mas o mundo mudou para pior. Tornou-se mais difícil, disputado e, sobretudo, mais narcisista, voltado para si, não para o outro. Fomos todos perdendo a alteridade, a empatia, o sentido desse outro. Quanto ao mundo mais disputado, o Grêmio parou no tempo. Perdeu, em suas últimas direções, a capacidade de se manter eficaz no controle das finanças, na gestão do futebol e em tudo o que o envolve. Vem, há horas, contratando mal e contraindo dívidas.
Já Renato Portaluppi, este a quem temos o dever da gratidão, parece vir acompanhando o mundo em seu narcisismo exacerbado. Perdeu a mão da humildade, tomou-se de onipotência de estátua e já não suporta alguma crítica que o faria repensar, necessidade comum a todos. Virou o dono de uma razão que a ninguém pertence. Por isso, não resistia a nenhuma entrevista pós-jogo e replicou a ferida narcísica, recentemente, no Fluminense e no Vasco. Tomado por um narcisismo desmedido, parece expressar que deu sozinho tudo ao Grêmio, nos anos 80 e, mais recentemente, há dez anos. Como se não tivessem havido César, Mário Sérgio, Geromel, Kannemann, torcida, entre tantos OUTROS.
Sempre é delicado misturar futebol e política, mas foi o próprio Renato que tomou a iniciativa de fazê-lo, aproximando-se publicamente de extremos que hoje fazem parte desse mundo narciso, pouco sensível, não pensante e pensando que há pais salvadores. Difícil conciliar tudo isso com a qualidade e a alegria de que foi tão capaz no passado. No sombrio presente, a sua vinda para o Grêmio talvez tenha a serventia de que complete a ruína que, juntamente com as direções recentes, ele também provocou, depois de erigir tantos castelos.
Claro que há o imponderável, e viventes ou torcedores são sempre adeptos da esperança. Vai que uma réstea de genialidade de outros tempos reavive a chama agora. Mas é pouco provável. A tendência é que o Grêmio caia com um mundo que já vem caindo. Se haverá futuro e se vão se reerguer?
Tomara!