
Voltei a Porto Alegre. Fui direto à Rua da Praia. Dei uma parada na frente da Esquina Modas, no cruzamento com a Marechal Floriano. Era ali que a gente se encontrava quase todos os fins de tarde.
A loja era famosa desde 1964, quando exibiu, na vitrine, um inédito e provocante desfile de monoquíni, causando grande repercussão entre os conservadores em geral.
Dali, tomei o rumo da Praça da Alfândega. Antes de chegar à Borges (Avenida Borges de Medeiros para os não íntimos), ajustei meu relógio com o da Casa Masson. Passei pela Sloper, pelas Americanas, pela Krahe…
Vi a Maria Chorona, a senhora que vendia jornais na esquina da Ladeira com a Rua da Praia. O apelido nasceu do tom de voz com que ela oferecia a Folha da Tarde, o Correio do Povo e A Hora, quase um resmungo forte e duradouro… Foooiiiaaa!!
Um pouquinho antes, no prédio da Força e Luz, na frente do Café Rian, estava o famoso Gurizada Medonha, vendendo bilhetes de loteria. O cara tem sete filhos: uma gurizada medonha. Começou a usar a expressão para chamar a atenção dos que andavam pela Rua da Praia. Ficou famoso. Virou até protagonista em programa de TV…
Mais uns passos e cheguei à Confeitaria e Café Matheus, na Praça da Alfândega. E lá estava ele: Marimbondo… um dos mais populares tipos ali das imediações da praça. Sustentado por doações dos figurões que frequentavam o Clube do Comércio, cuja sede fica uns metros adiante, Marimbondo vive por ali e nem entende que é vítima, muitas vezes, de bullying. Ou entende e, como dizia vovó Baldíria, se faz de louco pra passar bem…
Ali da Praça da Alfândega, onde encontrei outro ilustre frequentador, que conto quem é a quem chegar ao fim deste texto, ou que pular daqui pra lá, dei a volta para ir ao mercado comer um sorvete na Banca 40 e, depois, subir a Borges e tomar o bonde Menino Deus. As filas nos cinemas Imperial e Guarani estão bem grandes.
E olha quem apareceu, quase na esquina da Rua Uruguai: Terezinha Morango, outra figura marcante do centro de Porto Alegre. Conhecida pelo nome da miss, antiga torcedora firme do Colorado, Terezinha, virou gremista, cooptada por algum dirigente da tricolor…
Conheci a Terezinha um bom tempo atrás. Um dia, ali na Octávio Rocha, quase esquina com a Vigário José Inácio (Rua do Rosário para os íntimos), eu a ajudei a levantar de um tombo quando quase foi atropelada por um ônibus. Depois disso, recebi várias visitas dela na redação da sucursal da Bloch Editora, onde eu trabalhava, ali mesmo na Octávio Rocha. Nesta volta a Porto Alegre, Terezinha não lembrou de mim, passou reto.
Quase chegando ao mercado, dei uma olhada nas “fatiotas” expostas na vitrine que ficava virada para a Rua José Montaury. Refletida no vidro, como se estivesse sempre ali para ser admirada, outra figuraça da cidade que eu revisitava: o Bataclan. Vegetariano desde quando poucos falavam disso, Bataclan era um “propagandista de rua”.
Fazia “reclames” das lojas do centro de Porto Alegre. E era um atleta, também, fazia corridas diárias, muitas vezes, de pés descalços. Era comum vê-lo, de manhã, correndo ali pela Praia de Belas e subindo as ladeiras do centro. À tarde, elegantemente medido num terno, assumia a função de propagandista. Bataclan defendia seu regime alimentar dizendo que não comia cadáveres. Ele não fumava, nem bebia.
Tomei meu sorvete e, saindo do mercado, dei uma olhada para a Voluntários da Pátria, de tantas boates e cabarés, um deles, o Maipu, onde dançava a Cubanita de Bronze. Subi a Borges até o fim da linha dos bondes, na esquina com a Riachuelo. Depois de dar uma olhada nos sapatos na vitrine da Casa Touro, embarquei num Menino Deus via João Pessoa.
Assim, a viagem me permitiria uma boa olhada para as velhas faculdades de Direito e Economia da UFRGS e apreciar o Parque Farroupilha e, de relance, ver a José Bonifácio do Colégio Militar e do Bric da Redenção. E lembrar dos bailes da Reitoria animados por Norberto Baldauf e seu Conjunto Melódico…
O bonde entra na Venâncio Aires e, na curva, dá para conferir a programação do Cine Avenida. Mais adiante, conferi o movimento no bar Pedrini, a programação do Cine Guarani, que alguns difamavam chamando de Guaripulga, e a chegada dos primeiros frequentadores da Churrascaria Odilon, a primeira a funcionar nas 24 horas do dia.
Na chegada à Getúlio, quase desci para tomar um chope no Copacabana… mas fui até quase o fim da linha, lá na José de Alencar com a Praia de Belas. Desembarquei na frente do Marrocos, o cinema onde passou o primeiro filme em cinemascope: o Manto Sagrado, com Jean Simmons, Richard Burton e Victor Mature.
Voltei a pé lá do fim da Getúlio em direção à Visconde do Herval, onde entrei para passar no bar da Dona Hilda. Tinha certeza de que o pessoal estaria lá. Dito e feito!
Passando na frente, dava para ouvir as apostas. Rolavam os dados no tabuleiro, um animado seven & elleven. Cem é banca, desafiava Dondom. Eu vou, aceitava o Antoninho, mais cem na banca, gritava o Baiano…
Sentado no muro, Tonico contava histórias do Grêmio enquanto o maestro começava a instalação do teclado para garantir a trilha sonora do churrasco daquela noite. O meio tonel que servia de churrasqueira já estava ali, com o carvão pronto, à espera da carne que o Zeca e o Grande tinham ido buscar…
Da frente do bar, dava para ver a gurizada sentada no muro do Edifício Talai, na esquina da Visconde com a Getúlio. Ainda eram muito novos para frequentar o bar, mas já eram amigos dos coroas.
Caminhei mais uns passos a ponto de ver a casa onde morei uns 30 anos.
Não deu, a casinha no número 337 deu lugar a um edifício… Do mesmo jeito, a sede do Saci, o clube onde a gente jogava pelada aos sábados e onde, um dia, depois de um show na cidade, o Caubi deu uma canja. É! O Caubi, o Peixoto!
Tudo acabou, já não se ouve mais o piano da dona Maria, a Dindinha do Tonti, já não passa mais por ali – há décadas — a carroça do seu Severino, o padeiro que deixava os pães em saquinhos dependurados nos portões da casa… Tempo muito antigo.
Mudou a cidade, mudamos todos. Ficou melhor? Piorou? Piorou e melhorou, né? Para mim, sempre é bom voltar a Porto Alegre. Principalmente a esta de hoje, quando reencontro gente e lugar de hoje e lembro amigos e lugares de sempre
Ah! O personagem que encontrei na Praça da Alfândega e não tinha contado é o Mário Quintana. Enquanto volto aqui para a beira do Lago Paranoá, de onde o pôr do sol me leva à beira do Guaíba, deixo com você o poema do alegretense brilhante:
O Mapa
Mário Quintana
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…