
Fui pedida em casamento em novembro de 2019, na praia do Bonete, em Ilhabela – uma comunidade isolada, onde só se chega de barco ou em quatro horas de trilha a pé. Me foi presenteado um anel de esmeralda colombiana, verde-mar, minha cor preferida. Disse “sim”, com a maior certeza que já senti.
Resolvemos aproveitar a família que morava no exterior e estava chegando em dezembro para o Natal – meu irmão, minha prima Clarinha… – e organizamos, de última hora, uma festa de noivado, só para parentes e amigos mais próximos – cerca de sessenta pessoas. Simples: no salão de festas do nosso prédio, quantidade exagerada de bebidas, um buffet para servir comidas, playlist criada por nós especialmente para este evento, discursos emocionantes e suculentas como lembrancinhas.
Encomendei, então, uma sandália verde-limão – queria um ponto de cor no look todo branco, uma vibe meio Carrie Bradshaw – da Schutz, marca de sapatos brasileira, para usar na festa. Quando o pacote chegou, deixei-o em cima da bancada da cozinha, para experimentar com calma, pois estava com pressa para um compromisso. Voltamos para casa, depois de poucas horas, e me deparei com a caixa, papel de seda, sandália, absolutamente tudo destruído. Mas destruído mesmo, sem possibilidade alguma de uso.
Poucos meses atrás, em setembro, havíamos adotado uma cachorrinha, vítima de maus-tratos. Ela tinha sido resgatada no Morro da Lua, zona Sul de São Paulo, por uma ONG chamada Cães do Mundo da Lua, que a encontrou presa por uma pequena corda em uma espécie de lixão, onde apanhava a pauladas. Desnutrida, triste, doente, machucada.
Nossa história se cruzou quando fui a uma festa, acompanhar a instituição social onde voluntariava, e encontrei um colega indo ver os cachorros. Eu não sabia, mas uma feira de adoção acontecia dentro do mesmo espaço. Resolvi acompanhá-lo, só para ver os filhotinhos, e me deparei com a tal cachorrinha, depois de um mês sendo cuidada na ONG. Foi um reencontro, amor à primeira vista, uma sensação de: “ué, o que ela está fazendo aqui? É minha.” Eu e Luigi morávamos em um apartamento de cinquenta metros quadrados. Eu nunca antes havia tido um cão (sou, como dizem por aí, uma cat person), e até o momento, a ideia de ter um cachorro parecia absurda. Mas decidimos adotá-la.
A princípio, ela viveria no sítio dos meus sogros, mas eu e Luigi não aguentamos, e ela acabou ficando conosco – inclusive veio junto na mudança para Portugal. A Sol é uma mistura de Chow Chow com Golden Retriever, linda, irresistível, muito fofa. Na época, tinha entre nove e dez meses: atitude de filhote e tamanho de adulta. Era uma pestinha.
O que se passou com a sandália, não tenho certeza, mas suponho que a Sol deu um jeito de derrubar a caixa da bancada e, por tédio, coceira nos dentes que cresciam, ou raiva por termos a deixado sozinha, resolveu morder e destruir seu conteúdo.
…continua