
Esta semana começo entusiasmada. Vi uma proposta teatral interessante e resolvi comprar ingressos para ir com a família. A arte tem esse efeito sobre mim: antes mesmo de assistir, já me sinto provocada a imaginar como será — e olha que ainda falta um mês.
A peça é de teatro interativo. O público acompanha um julgamento e, ao final, vota pelo celular no veredito que considera mais justo. Ainda não sei como termina, mas imagino que, depois da votação, revelem a “verdadeira” versão da história. E arrisco: provavelmente não será nenhuma das apresentadas.
Como na vida real.
Afinal, num tribunal — e fora dele também — defesa e acusação constroem suas versões com base no que querem convencer. Cada lado organiza fatos, escolhe ênfases, omite o que não interessa. Não se trata apenas do que aconteceu, mas de como se conta o que aconteceu.
Foi inevitável pensar na palavra “narrativa”, que, tudo indica, ouviremos até a exaustão neste ano de eleição. Só de imaginar o ruído, confesso, já me dá um certo cansaço.
Mas, senhoras e senhores, não parece haver escapatória. Precisaremos aprender a pensar em meio a esse emaranhado de versões. Filtrar informações, desconfiar de certezas fáceis, tentar compreender problemas que são, quase sempre, mais complexos do que parecem.
Entre as narrativas, haverá aquelas que escondem dados e fatos — dificultando que enxerguemos com clareza — e outras que exageram hipóteses e preocupações, porque precisam capturar nossa atenção. Se ficarmos desavisados, desinteressados, esperando que alguém nos entregue a verdade pronta, corremos o risco de cair numa zona cinzenta, onde tudo parece igualmente duvidoso. E aí vem o perigo maior: começar a acreditar que todos mentem da mesma forma.
Essa é uma zona perigosa. Saia dela, se puder.
E, se não souber bem para onde ir, procure quem estuda os temas com profundidade. Em geral, essas pessoas não gritam. E têm dificuldade em dar respostas categóricas — não por falta de clareza, mas porque conhecem as nuances e a complexidade das questões.
Seria ótimo se problemas complexos tivessem soluções simples. Mas não têm. Ainda assim, seguimos cercados por promessas fáceis: fórmulas para emagrecer, enriquecer, rejuvenescer, viajar barato. Tudo rápido, tudo acessível, tudo resolvido.
Com as cidades, não é muito diferente.
Cada gestão quer anunciar o futuro como quem apresenta um espetáculo. Mapas ganham cores vibrantes, palavras como “centralidade”, “sustentabilidade” e “inovação” circulam com naturalidade, e tudo parece apontar para um amanhã mais equilibrado. Mas, por trás da cena, há um enredo menos visível: o das narrativas que dão sentido — e legitimidade — às transformações urbanas.
Nem sempre é fácil perceber onde termina o interesse coletivo e onde começa a conveniência de poucos.
Nessas histórias, o planejamento urbano costuma aparecer como mediador técnico, quase neutro, capaz de organizar o crescimento, proteger o ambiente e distribuir oportunidades. Ao mesmo tempo, grandes investimentos privados entram em cena como motores inevitáveis do desenvolvimento, prometendo dinamizar economias e qualificar territórios.
O problema não está, necessariamente, na presença desses investimentos. Mas na forma como suas lógicas passam a orientar — às vezes de maneira sutil — as decisões sobre a cidade. Quando isso acontece, o planejamento corre o risco de deixar de antecipar o futuro para apenas segui-lo.
É nesse intervalo, entre o discurso e a prática, que surge a tal zona cinzenta.
Nela, decisões técnicas podem coincidir com interesses econômicos sem que essa convergência seja claramente debatida. Projetos se apoiam em estudos, indicadores e simulações, enquanto seus efeitos sociais e territoriais permanecem difusos, diluídos em promessas de longo prazo. A cidade vai sendo redesenhada por uma combinação de argumentos legítimos e silêncios estratégicos.
E, curiosamente, aquilo que mais importa costuma ser o menos narrável. A fragmentação urbana, o aumento do custo da moradia, a infraestrutura cara em territórios dispersos, a mobilidade ainda dependente do carro, a pressão do turismo sobre a vida cotidiana, os desafios impostos pelas mudanças climáticas — tudo isso é técnico, complexo e pouco sedutor. Difícil competir com a promessa simples de um futuro vibrante e bem resolvido.
Não se trata de negar a importância da técnica, nem de demonizar o capital. As cidades precisam de ambos. Mas é justamente por isso que é fundamental reconhecer que o planejamento nunca é totalmente neutro. Ele escolhe prioridades, define direções e, inevitavelmente, favorece alguns interesses mais do que outros.
Quando essas escolhas não são explicitadas, decisões estruturantes passam a ser tratadas como inevitáveis — quase naturais.
Talvez o ponto mais sensível esteja na fragilidade institucional de muitos setores de planejamento urbano no Brasil. Frequentemente submetidos a ciclos políticos curtos, pressões econômicas e limitações técnicas, esses setores operam com pouca autonomia. Fortalecê-los — com capacidade técnica, continuidade e transparência — não significa afastá-los da política, mas permitir que atuem como um contrapeso qualificado, capaz de tensionar interesses e ampliar o campo das decisões.
Um planejamento mais robusto não elimina conflitos. Ao contrário, torna-os visíveis. E é justamente nessa visibilidade que reside sua potência.
Ao explicitar quem ganha, quem perde e quais são os impactos de cada escolha, ele contribui para uma cidade mais consciente de si mesma. Não se trata de buscar uma neutralidade impossível, mas de construir processos mais equilibrados, em que diferentes agentes — moradores, investidores, gestores públicos — possam disputar o futuro em condições minimamente mais justas.
No fim das contas, talvez a pergunta não seja se a cidade está sendo planejada para o interesse público ou privado. Mas o quanto conseguimos reconhecer — e discutir abertamente — as relações entre eles.
Porque é nessa conversa, muitas vezes incômoda, que o planejamento deixa de ser apenas narrativa e passa a ser, de fato, um instrumento de construção coletiva.
Pensando bem, a peça promete ser tão parecida com a vida real que agora fico até na dúvida se vou gostar.
Mas a verdade é que já rendeu boas ideias — e alguns incômodos — antes mesmo de começar.
Só a cultura para fazer isso com a gente.
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