
Passei as semanas seguintes ao anúncio do resultado eleitoral das eleições presidenciais de 2022 com a música Amanhã, de Guilherme Arantes, na cabeça. Na feira de domingo, no corredor do shopping, levando meu relógio para trocar a pulseira (tão vagabunda que ela já rebentou de novo e ainda não levei para outra troca), nas idas ao mercado usando máscara porque a pandemia não só persistia, como vivíamos o repique de uma nova onda de casos… Em todos esses momentos, se meu cérebro se distraísse mesmo que por alguns segundos, voltavam à mente os versos que resumiam um pouco do espírito com que eu via o resultado da eleição: Amanhã será um lindo dia / Da mais louca alegria / Que se possa imaginar // Amanhã / Redobrada a força / Pra cima, que não cessa / Há de vingar.
Claro, ainda não havia ocorrido a tentativa de golpe que se registraria em janeiro e que de algum modo, estragaria o clima, mas esses versos não paravam de me ocorrer porque eram a expressão de um alívio, de uma alegria real ao pensar que, a partir do ano seguinte, não teríamos mais um governo negacionista que trabalhou ativamente contra o básico da ciência de saúde no auge da pior pandemia em um século; ou que ativamente agiu para enterrar as investigações contra seu filhinho fujão (essa parte é meio que um spoiler, naquela época o filhinho era só cagão mesmo), ou que promoveu cortes mais do que drásticos, cruéis, em programas essenciais para manutenção dos direitos humanos de minorias ameaçadas.
Em suma, o fato de que as urnas tinham dado um pé na bunda desse indivíduo da pior qualidade me despertava uma alegria juvenil e genuína, na qual eu me pegava cantarolando essa música, vendo em seus versos significados que haviam me escapado (eu me lembrava da música sendo ouvida por meus tios na infância, mas nunca desenvolvi um elo afetivo com a MPB de modo geral, então nunca tinha parado para realmente ouvir a música – embora, por essas artes da memória, ela estivesse quase inteira na minha cabeça): Amanhã / Redobrada a força / Pra cima, que não cessa / Há de vingar. Ou Amanhã / Mesmo que uns não queiram / Será de outros que esperam / Ver o dia raiar.
Ingenuidade
Eu me lembro disso e percebo como, apesar de meus 50 anos, consigo apontar momentos bastante recentes em que fui de uma ingenuidade adolescente e de uma falta de visão ciclópica. No fim daquela eleição, pensei que a derrota de Bolsonaro seria a derrota do bolsonarismo, abrindo espaço para recomposição da direita em torno de uma nova agenda – talvez fascista, talvez não, talvez com um oportunista igual, talvez com um nome menos energúmeno e mais político de fato, e não uma entidade predatória e vampiresca só preocupada com os próprios interesses. Cheguei a escrever sobre isso na época, o quanto a cobertura e as discussões sobre o novo governo deveriam se concentrar no novo governo, e não servir de caixa de ressonância para pautas provocadas pelo fascismo (leia aqui).
Reconheço meus erros de previsão (embora a análise que fiz sobre as estratégias do fascismo contemporâneo e sua visão política que rejeita a modernidade em prol de um mundo hierarquizado e retornado a uma tradição religiosa sigam valendo). Eu mesmo dizia naquele texto de quatro anos atrás: “Que o fenômeno que impulsionou o ex-presidente foragido continua e está à procura de um novo líder, todos sabemos, já com vários candidatos se prontificando para a tarefa”. A questão é que quatro anos se passaram e todos esses atores que punham as manguinhas de fora, tentando se sobressair como “o novo Bolsonaro”, foram reduzidos à linha auxiliar do bolsonarismo persistente, alguns deles numa vinculação praticamente abjeta, como o lambe-botas Tarcísio, e quatro anos depois vimos outra vez um Bolsonaro disputando pau a pau os votos do colégio eleitoral. E um Bolsonaro poste, uma vez que o filho playboy de carisma negativo mentiu sobre muitas coisas, mas uma única verdade persistente foi declarada logo no início de sua campanha, a de que ele concorria como um apêndice político de seu pai, que da prisão domiciliar o manejava como um autômato equipado com Bluetooth.
Outro cenário
Daí porque desde o último domingo não sou mais visitado com insistência pela otimista e alegre Amanhã de Guilherme Arantes. Ela refletia aquele sentimento mais ingênuo de quatro anos atrás. O momento agora é de alegria e celebração, mas também de alerta e prontidão. Não passou uma semana do fim da votação e o candidato Bozo Jr. já deu o pinote, tornando-se o terceiro Bolsonaro em quatro anos a fugir para os EUA quando achou que a situação ficou feia (só não sugiro que peçam música no Fantástico porque o gosto musical daquela turma é atroz). E diferentemente de quatro anos atrás, o atual presidente dos EUA já provou que não tem pruridos de interferir ou invadir países em que têm interesses econômicos – como sempre, aliás, o que é novo é a desfaçatez com que nem se inventam mais pretextos (falo mais disso aqui).
Nesse meio tempo, no cenário doméstico, consolidou-se a fagocitação da direita pelo bolsonarismo. A máquina de ódio a serviço desse campo em particular já se expandiu para limites inusitados, como comprova o recente movimento de boicote liderado pela ala bozista, listando estabelecimentos e profissionais que abriram seu voto em Lula. Demonstrando que a loucura bolsonarista chegou a um ponto inédito, o das trocas comerciais.
Logo, uma vitória sobre o bolsonarismo agora em 2026 é diferente daquela de 2022. A alegria é imensa, até mesmo pela virada improvável que se tornou possível. Mas não há mais a felicidade ingênua e esperançosa, e sim uma certa noção cansada de que, se conseguirmos sobreviver a este período imediato sem as botas de Trump na nossa goela, insuflados por aquela família de traidores, é grande a probabilidade de que daqui a quatro anos tenhamos de passar por tudo de novo. Talvez com Tarcísio como candidato, talvez Jair queira empurrar Jair Renan ou Carluxo como o novo poste, mas o fato é que, se a direita brasileira não fizer a autocrítica que sempre cobra da esquerda e retomar seu próprio campo das mãos incivilizadas do bolsonarismo, estamos condenados ao eterno retorno de um projeto com intenções autoritárias explícitas, e isso é cansativo para um caramba. Ao mesmo tempo, como mostrou a mobilização deste segundo turno e seus resultados históricos, cansados ou não, desistir e se render não é uma opção, e seguir na luta pode ter resultados maravilhosos.
Assim, o que ressoa em meus ouvidos distraídos hoje não é mais a canção de Guilherme Arantes, são os primeiros versos de Semeadura, de Vítor Ramil e José Fogaça (em quem nunca votei, diga-se de passagem): “Nós vamos prosseguir, companheiro / Medo não há / No rumo certo da estrada / Unidos vamos crescer e andar.”
Com uma importante observação: quando me pego pensando nessa letra, começo a discutir com ela já no primeiro verso, porque uma das ilusões mais danosas do heroísmo romântico é a ideia de que coragem é ausência de medo. Não, há medo sim, ele está ali porque sabemos da amplitude do estrago que poderia ser causado se o resultado fosse outro. Mas prosseguir vencendo o próprio medo é ainda mais meritório do que avançar quando ele não existe – não há risco nem vantagem.
Mas, com medo ou sem, a primeira parte se repete:
Nós vamos prosseguir.