
1. Garfield, um dos personagens mais icônicos da cultura pop mundial, odeia as segundas-feiras. Eu não chego a tanto. Mas estou perto de. De uns meses para cá, eu adoraria começar a semana na terça. Na verdade, por ser escritora, trabalho praticamente de domingo a domingo. Por obsessiva, talvez, escrevo todos os dias. Então, folga, em minha vidinha, é meio uma coisa do território do delírio.
2. No final do mês passado, lancei um livro de contos: Passado a Limpo. Teve sessão de autógrafos sem comes e bebes porque, na sexta-feira anterior, mais uma mina explodiu aqui no campo em que vivo e precisei tratar dos meus pedaços feridos. De qualquer forma, correu tudo bem, até porque o evento foi em um café e eu estou acostumada a me fornecer curativos. Superentendo de band-aids mentais.
3. Não sou gorduchinha e sarcástica como o Garfield, tampouco cínica e egocêntrica, mas, por algum motivo ainda não decifrado pelo meu grupo de neurônios, volta e meia, permito que seres vivos, com menos encantos que ele, porém parecidos, adentrem um pouco o meu mundo. Não muito porque gato escaldado tem medo de água fria e porque, ainda que eu não seja uma tigresa, uau, de unhas compridas e pontudas, arranho se for preciso.
4. Ooh you’re a cool cat
Coming on strong with all the chit chat
Ooh you’re alright
Hanging out and stealing all the limelight
Messing with the beat of my heart yeah
ooh messing with the beat of my heart yeah. Bastante.
5. Uso duas cores de esmalte: um vermelho intenso e vibrante chamado Helena e um vinho profundo e fechado da coleção O Diabo Veste Prada que homenageia o filme, não lembro de que cineasta, ou sua continuação. Ah, sim, e isso interessa a quem? Olha, pode apostar que a alguém.
6. Gata em Teto de Zinco Quente é o nome de um filme dramático norte-americano, dirigido pelo Richard Brooks, baseado na peça teatral homônima do Tennessee Williams. Então, é desnecessário dizer que se trata de um drama. Nele, Maggie, a gata Elizabeth Taylor, é casada com Brick, interpretado pelo gatíssimo Paul Newman, que não a deseja e não consegue mais simular interesse sexual, o que, é óbvio, a magoa, mas que, cá entre nós, faz muito menos mal do que uma escancarada dissimulação.
7. Gente dissimulada não gera gente dissimulada. Só convive com o tipo quem se identifica. As outras caem fora, dão o pulo do gato. No final da década de 1970, houve uma telenovela com esse título. Eu já existia, mas não tinha idade para vê-la e dormia antes do horário em que passava. Quando eu era criança, dormia-se e, sem reclamar, por volta das 21 horas no horário de Brasília. “Boa noite”, o Cid Moreira dizia na televisão. “Alô, aqui é o Cid”, eu o ouvi também dizer algumas vezes, porque um de seus melhores amigos era também um superamigo de meu pai e, às vezes, saía de Petrópolis, no Rio de Janeiro, para uma temporada afetiva em nossa casa.
8. A última vez que ele, o amigo de meu pai, me ligou foi tristíssima. O pai já estava doente, e ele queria se despedir. Sozinho, setentão, pegou um ônibus Petrópolis/ Rio, depois um voo Rio/Porto Alegre, chegando aqui um ônibus Porto Alegre/Vacaria e deu com a cara na porta. Acamado, o pai nem soube de sua tentativa. Uma pessoa, como é que se diz, mal-educada e má, o impediu, sabe-se lá o porquê, para todo o sempre amém porque depois o pai morreu.
9. “O mal é a regra; o bem é a exceção”, o prêmio Nobel de Literatura, Imre Kertész, sobrevivente do Holocausto, escreveu em Kadish para uma Criança Não Nascida, eu acho. Pode ter sido em outro livro. Estou com preguiça de ir até a estante da sala checar.
10. Preguiça é pecado capital. Embora eu a tenha alegado como razão para ficar aqui onde estou, ela serve mais ao Garfield que a mim. Creio, escolho este verbo em um impulso cristão, que o pecado que me definiria melhor seria a luxúria se eu acreditasse em pecados. Acredito em delitos, crimes; logo, conto mais com a justiça dos homens que com a divina.
11. Meu exemplar de A Divina Comédia está desaparecido. Que Dante Alighieri não me condene ao inferno por isso. Completamente missing. Outro dia revi o filme Missing, traduzido, no Brasil, como Desaparecido, um grande Mistério, do diretor Costa-Gavras. Baseado em fatos reais, ele fala sobre a busca de um pai conservador norte-americano e de sua nora esquerdista pelo filho/marido, um jornalista que, no Chile, cobria o sangrento golpe militar de Augusto Pinochet.
12. Aqui no doze, me dou conta de que falei mais em filmes que em livros. Será efeito da lua cheia que vejo aqui da minha janela? Ou será porque tenho visto muitos no cinema, no streaming e em minha própria cabeça?
13. Nada a dizer no treze, exceto que ele foi teclado 64.256.232 (sessenta e quatro milhões, duzentas e cinquenta e seis mil e duzentas e trinta e duas) vezes em um dos mais significativos domingos deste país. E isto é indiscutível.