
Confesso que desabei diante de um vídeo curto no feed. Uma senhora de cabelos alvos, apoiada em sua bengala de madeira e no antebraço firme de um neto de vinte e poucos anos, avançava milímetro a milímetro em direção à cabine eleitoral. Outro registro mostrava um senhor empurrado em sua cadeira de rodas, ajeitando a boina com a solenidade de quem veste uma armadura de gala. Sem dúvida havia dor naquele esforço físico, mas, acima de tudo, havia uma altivez incontornável.
Eles não precisavam estar ali. A lei brasileira desobriga o voto a partir dos setenta anos. No entanto, foram. Não se furtaram das dores e dificuldades do trajeto que enfrentaram, porque compreendem a importância do gesto que praticavam. Com a lucidez da finitude, entenderam que estavam depositando na urna o último voto de suas vidas. Era a sua despedida cívica, o testamento silencioso deixado para o futuro que não verão.
Mas o que mais me tocou nas diversas cenas que assisti foi a presença das mãos que empurravam as cadeiras de rodas e serviam de arrimo para esses passos nem sempre firmes: eram jovens. Netos e netas subitamente investidos da certeza de que aquele ancestral era decisivo. Pela primeira vez em meses, quem sabe em anos, aquelas pessoas idosas talvez tenham deixado de ser invisíveis dentro de suas próprias casas. Ganharam relevo, voz e relevância prática porque podiam decidir o destino coletivo.
Passada a poeira das urnas, a pergunta que não me larga a cabeça é: O que faremos com as pontes que foram abertas nesse domingo?
A primeira lição é direta e pertence aos próprios 70+: abrir mão de um direito jamais é um bom negócio. Ao comparecerem maciçamente às urnas, esses superidosos nos lembraram que a cidadania não caduca com a aposentadoria. É fundamental que esse movimento se expanda nas próximas eleições, ocupando os colégios eleitorais não por obrigação burocrática, mas como afirmação viva de existência.
Isso amarra imediatamente a segunda lição, endereçada sem rodeios à classe política e ao mercado: os 60+ deixaram de ser meros “aposentados inativos” para se consolidarem como um dos blocos mais determinantes do país. Não se trata apenas da imensa força econômica do consumo maduro, que já sustenta lares inteiros; trata-se de poder real de veto e escolha. A política tradicional é míope se continuar tratando o eleitorado mais velho como plateia passiva para promessas de farmácia popular. Eles são base crítica, exigente e organizada. E as duas lições se alimentam mutuamente: quanto mais os idosos comparecerem espontaneamente às urnas, mais Brasília e as câmaras municipais terão de descer do pedestal para escutá-los de verdade.
Há, contudo, uma terceira lição, talvez a mais urgente para a nossa sanidade, que é o resgate da convivência intergeracional.
A Organização Mundial da Saúde já classificou a solidão e o isolamento social como uma das mais letais pandemias globais do nosso tempo, com impactos na saúde física e mental equivalentes ao tabagismo diário. De um lado, temos jovens imersos em solidão hiperconectada, navegando por oceanos de telas, sufocados pela ansiedade e pelo vazio de vínculos superficiais. Do outro lado, temos idosos condenados ao isolamento do esquecimento doméstico, vendo o mundo lá fora se acelerar enquanto suas rotinas encolhem entre quatro paredes. Duas pontas da mesma corda desfiada pelo desamparo emocional.
A cena do neto conduzindo o avô até a urna provou que o antídoto existe: o encontro. O voto serviu como desculpa cívica para romper o isolamento de ambos, criando um território comum de afeto e sentido.
Agora que as faixas de campanha foram recolhidas e as apurações encerradas, esse elo não pode voltar a se quebrar. Que esses mesmos netos que descobriram a importância dos seus avós no dia da eleição mantenham a porta aberta. Que os convidem para comer um pastel na feira, tomar uma cerveja sem pressa no bar da esquina, respirar a brisa de um parque ou assistir a um filme no cinema da rua.
A democracia agradece a presença altiva dos 70+ nas seções eleitorais, mas quem realmente precisa dessa troca somos todos nós. Porque, quando a juventude desacelera para caminhar no ritmo dos seus velhos, ela descobre que o afeto compartilhado é a única terapia capaz de devolver a vida à vida.