
Eu já sou um pouco idoso, mas o meu analista é mais. Isso é natural, pois costumamos escolher para nos analisar alguém, em princípio, mais experiente do que a gente. Com o avanço do tempo, obviamente, vai ficando mais difícil. E não é a regra. Lembro-me agora do Villa-Lobos dizendo ao Tom Jobim que a música de dentro não é a mesma que a de fora. Acho que vale o mesmo para o tempo. Por isso, pode ser legal analisar-se com alguém mais moço, e a coisa pode não funcionar com alguém mais velho. Há, sim, o tempo interior, mas falo de tendências, e segui a de procurar alguém mais velho por fora.
Claro que o meu analista fala do tempo ou da transitoriedade. E da morte. Fala, porque eu falo, e ele está ali para isso. Falo, porque são temas presentes desde o começo da vida, onde e quando o tempo começa a contar. É transitória a vida de um bebê, assim como a de uma criança e a de um adolescente; logo, são assuntos que já nascem com a gente, basta se olhar ou ler os poetas. Freud escreveu que somos por dentro uma luta constante entre a vida e a morte. A análise pode ser uma forma de nos fortalecer nessa luta, justo por elaborarmos a fragilidade e, para isso, conta com pelo menos duas ideias: precisamos encontrar palavras expressivas para lidar com a morte, por mais que não as encontremos inteiramente. E, sobretudo, não a negar.
O meu analista não nega. Volta e meia, dentro do contexto que eu trouxe, diz serenamente que deve estar mais no fim da vida do que eu. Ou diz quase serenamente. Um canto de olho deixa claro que lamenta em parte o fim sobre o qual também falamos, mas transmite que o lamento é uma parte menor do que o todo. No todo, mostra-se mais próximo de onde Freud estava quando escreveu um texto, justamente, sobre a transitoriedade. A ideia nasceu de um encontro com o poeta Rainer Maria Rilke e a escritora Lou Andreas Salomé. Tudo começou com a tristeza depressiva do poeta diante da efemeridade da existência. Sob a presença de Salomé, Freud foi contundente ao dizer que essa efemeridade era exatamente o que dava substância maior à vida, levando a aproveitá-la, enquanto houvesse tempo e sua renovação das primaveras.
Sinto que o meu analista tem essa pegada quando eu trago temas como a perda, incluindo meus mortos, e as mortes de alguns tempos que também não voltam mais. Ou quando falo do envelhecimento e da minha própria morte. Sem atacar a realidade, ele transmite sem palavras (parece mais melodia) que os sinais da morte fazem parte da vida, mas ela precisa continuar e pode ser muito bonita, em qualquer tempo, enquanto houver tempo.
E ele não deixa de encontrar palavras. Dia desses, chamou a morte de ser devolvido à natureza. Achei uma metáfora estupenda no sentido de que não nega a morte, mas oferece alguma forma verossímil de continuidade. Eu preciso de metáforas para me sentir melhor e dedicar-me ao que gosto, como escrever textos; por isso estou aqui, depois da metáfora do meu analista, tentando encontrar a minha própria.
Também quero me cuidar para ter mais tempo de fazer o que tenho vontade, incluindo ficar ainda mais idoso e valer-me disso para devolver a algum paciente o que o meu analista me entrega com amor à vida, mesmo quando a morte está mais próxima.
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