
“Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpas de verdade. Eu não queria te ofender. Te peço desculpas de verdade.”
Esse foi o pedido de desculpas de Flávio Bolsonaro a Lula, depois de ofendê-lo durante o debate da última sexta-feira, na Rede Globo. A declaração ocorreu poucos dias depois de o vídeo do influenciador Felca sobre bullying e fobia social repercutir nas redes sociais, dividindo opiniões. De um lado, aqueles que esperavam um posicionamento político mais explícito do influenciador. De outro, os que consideram que abordar um tema tão relevante quanto o bullying também é uma forma de manifestação política, mesmo sem uma declaração de voto.
O não posicionamento de Felca talvez seja coerente com o fato de ele não ter votado nas últimas três eleições. É possível que, diante desse histórico, não tenha se sentido à vontade para tentar convencer outras pessoas a escolher entre um ou outro candidato, sendo que ele mesmo tem renunciado a esse direito nos últimos anos. No entanto, ao denunciar as agressões sofridas na adolescência e suas consequências para a saúde mental, Felca trouxe à discussão uma pauta muito importante: o combate ao bullying e a importância das políticas públicas de saúde mental, pautas abordadas como prioridade por apenas um dos candidatos à presidência.
Coincidentemente, na mesma semana em que Felca publicou seu vídeo, Flávio Bolsonaro recorreu a uma característica física de seu adversário durante o debate exibido pela Rede Globo. Ao fazer referência ao dedo que Lula perdeu em um acidente de trabalho, ainda na juventude, o senador debochou do presidente diante de milhões de espectadores. A fala gerou reações nas redes sociais, onde muitos usuários a classificaram como capacitista e preconceituosa. Diante da ofensa, Lula exigiu um pedido de desculpas. Flávio, então, respondeu com a frase que abre esta crônica.
Apesar de ter se retratado, ao dizer “se eu te ofendi”, o senador transfere a responsabilidade de sua fala para a percepção de quem a recebeu. O problema deixa de ser a atitude de quem ofende e passa a ser a possibilidade de o outro ter se sentido ofendido. Não se trata de impedir críticas a Lula, tampouco de torná-lo imune a ataques. Trata-se de questionar por que, em pleno debate eleitoral, a perda de um dedo pode ser usada para desqualificar uma pessoa e, sobretudo, para tentar comprometer a imagem de um candidato à reeleição ao cargo mais alto do país.
Lula perdeu o dedo trabalhando. A marca que carrega na mão faz parte de sua história e nunca foi motivo de vergonha. Quando essa condição é usada para ridicularizá-lo, a discussão deixa de ser sobre suas ideias e suas ações e passa a explorar uma característica física para provocar humilhação. É justamente aí que o episódio se aproxima do bullying: na tentativa de diminuir alguém por aquilo que o torna vulnerável à exposição pública.
Falamos de um senador da República, um homem ainda jovem que, em rede nacional, recorre a uma característica física para ofender um senhor de 80 anos, atual presidente do Brasil. De alguém que ocupa um cargo público e, portanto, tem responsabilidade sobre o exemplo que oferece à sociedade. Ao ridicularizar Lula dessa maneira, Flávio também desconsidera milhões de pessoas que convivem com deficiências ou limitações físicas e que têm o mesmo direito ao respeito e à dignidade. De que adianta condenarmos o bullying nas escolas e reconhecermos os seus efeitos sobre a saúde mental se o toleramos quando parte de um político? Como seriam tratados os idosos, as crianças e as mulheres com deficiência se esse candidato tivesse vencido a eleição?
A situação constrangedora ocorrida durante o debate me fez lembrar de um romance que li recentemente: As primas, da escritora argentina Aurora Venturini, publicado no Brasil em 2022 pela Fósforo Editora. A obra retrata o cotidiano de quatro mulheres da mesma família, com deficiências físicas e intelectuais, que enfrentam o abandono, a pobreza e a exclusão social. Em meio a tantas vulnerabilidades, essas mulheres também são vítimas de abusos sexuais cometidos por homens que, em vez de protegê-las, exploram suas fragilidades. Yuna, a protagonista e narradora da história, é a única que, de certa forma, consegue encontrar na arte uma possibilidade de expressão e autonomia, embora isso não a poupe do capacitismo que reduz as pessoas com deficiência às suas limitações.
Trago esse exemplo porque a literatura tem o poder de nos aproximar de realidades que muitas vezes ignoramos. Por meio das experiências vividas por personagens fictícios, ela nos faz enxergar aquilo que, na vida real, tantas vezes preferimos não ver. Nossas escolhas políticas, por sua vez, revelam interesses, valores e visões de mundo. Ao elegermos nossos representantes, também expressamos, de certa forma, o tipo de sociedade que desejamos construir e a maneira como admitimos que sejam tratados aqueles que consideramos diferentes de nós.
Enquanto Felca nos leva a refletir sobre as marcas deixadas pelo bullying na infância e na adolescência, o episódio envolvendo os dois candidatos à Presidência nos convida a questionar como essa forma de violência se manifesta também na vida adulta. Como sociedade, não deveríamos nos contentar com um pedido de desculpas de Flávio Bolsonaro a Lula. Precisamos estar dispostos a deixar de tratar a humilhação como brincadeira e compreender que a dignidade de uma pessoa não pode depender de sua aparência, de suas limitações físicas ou de suas convicções políticas.
Quando o respeito se torna seletivo, o problema já não está apenas em quem ofende, mas também naquilo que, enquanto sociedade, escolhemos tolerar.