
Em evento recente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, fez observações reveladoras sobre o futuro energético do Brasil. “Não temos vergonha de produzir petróleo”, afirmou. Questionada sobre a transição energética necessária para enfrentar a crise climática, completou: “Não tem Plano Clima se não tiver sociedade, né? Então é muito fácil: fecha tudo, vamos todo mundo para a selva e vamos ter um ar maravilhoso”.
Há algo de intrigante — e cínico — nessa lógica. Ela sugere que só haveria duas alternativas: seguir queimando combustíveis fósseis indefinidamente ou retornar à vida pré-industrial. Não haveria espaço para caminhos intermediários. Nada de energia solar, eólica, hidrogênio verde ou biocombustíveis avançados — tecnologias que já respondem por parcela expressiva da eletricidade brasileira. Segundo esse raciocínio, elas parecem simplesmente não existir.
No mesmo evento, o presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, acrescentou sua própria formulação: “O Rio de Janeiro é petróleo, veste petróleo, se movimenta com petróleo, se alimenta, vive e constrói com petróleo”. Há até certo lirismo na frase — uma fusão quase mística entre território e energia. A menos, porém, que os habitantes do Rio tenham sofrido mutações em seus sistemas digestivos, seres humanos seguem — como disse o colunista da Folha de S. Paulo — dependendo da fotossíntese, direta ou indiretamente, para se alimentar, e não de moléculas fósseis de hidrocarbonetos. Ainda assim, a declaração expõe uma verdade relevante: a dependência estrutural que construímos em relação aos combustíveis fósseis. O problema é apresentá-la como destino, quando ela é fruto de escolhas — e, portanto, pode ser modificada.
A crença implícita nessas falas — a de que as leis da economia e da política poderiam revogar as leis da termodinâmica e da biologia — é parte do fundamento que nos trouxe até aqui. Ainda assim, a narrativa oficial da maior empresa do Brasil insiste em uma “transição energética justa” que, na prática, funciona como verniz verde para conservar estruturas antigas.
O discurso e os números
A Petrobras investe pesadamente em campanhas que a apresentam como líder da tal “transição energética justa”. Os números, porém, contam outra história. O Plano de Negócios 2026-2030 reduziu em 20% os investimentos da companhia previstos para a transição energética. O segmento de energias de baixo carbono sofreu corte de 45,6%, enquanto a exploração de petróleo e gás, incluindo a Foz do Amazonas, permanece como prioridade.
Chambriard afirmou recentemente que “o petróleo não é esse vilão todo de emissões”. A frase contrasta com o consenso científico global, que identifica os combustíveis fósseis como principais motores do aquecimento do planeta. Mais reveladora é a justificativa: a lentidão da descarbonização seria culpa do próprio Brasil, que estaria “evitando” que a Petrobras reduzisse suas emissões de Escopo 3 — aquelas geradas pelo consumo de seus produtos — ao condicionar avanços a subsídios governamentais.
A inversão de responsabilidades é notável. A empresa criada para servir aos interesses nacionais apresenta-se como vítima das políticas públicas, enquanto distribui dividendos recordes aos acionistas. Ao mesmo tempo que exibe o discurso da sustentabilidade, sua direção trata a transição energética como inconveniente adiável. A distância entre o que se diz e o que se faz não é falha de comunicação: é expressão das reais prioridades.
A estratégia global de adiamento
A postura da Petrobras não é isolada. Ela segue uma cartilha aplicada, de modo ainda mais extremo, pelas grandes petroleiras globais. Em 2023, o governo da Califórnia processou o chamado Big Oil — ExxonMobil, Shell, BP, ConocoPhillips e Chevron — por enganar o público sobre os impactos de seus produtos na saúde e no clima.
Essas corporações sabiam, desde pelo menos 1959, da relação entre a queima de combustíveis fósseis e o aquecimento global. Em vez de alertar o mundo, suprimiram estudos internos e financiaram campanhas de desinformação. O objetivo era simples: semear dúvida para paralisar a ação política.
Hoje, a negação aberta tornou-se insustentável diante de evidências visíveis: secas, enchentes, ondas de calor extremo. A estratégia evoluiu para o greenwashing sofisticado. As petroleiras apresentam seus produtos como “limpos” ou de “baixas emissões”, enquanto defendem que a transição deve ser lenta para não “destruir a economia”. É o mesmo padrão do argumento sobre “fechar tudo e ir para a selva”: a falsa dicotomia entre colapso econômico e sobrevivência planetária.
Os alertas da ciência e a responsabilidade estatal
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é claro: limitar o aquecimento global a níveis seguros exige mudanças profundas nos sistemas de energia nas próximas décadas. Isso implica reduzir drasticamente o consumo de carvão, petróleo e gás, enquanto fontes de baixo carbono passam a suprir quase toda a demanda elétrica até 2050 [5].
A transição, porém, não será instantânea. Ela se dará ao longo de três ou quatro décadas. Nesse período, o Brasil precisará garantir abastecimento seguro de combustíveis. Mas esse é precisamente o ponto: tal responsabilidade não deveria recair exclusivamente sobre uma empresa fóssil que finge ser limpa, nem sobre a lógica de mercado que a orienta.
Como escrevi em coluna anterior, a Petrobras dá sinais claros de que não vai liderar a transição energética. Sua estrutura, seus incentivos e sua história a conduzem à exploração fóssil. Isso não é uma falha moral, mas uma realidade estrutural. Como eu também já afirmei, não há nada de errado nisso. Afinal, a empresa foi criada para esse fim. O que falta é assumirmos essa realidade e agirmos em consequência.
O Brasil precisa de outro motor para a transição energética. Esse motor deve ser acionado pelo Estado — não como proprietário de uma empresa que simula ser verde, mas como coordenador de uma estratégia nacional de descarbonização. Isso exige três movimentos.
O primeiro é redirecionar subsídios e recursos públicos. Em 2024, os benefícios fiscais ao setor de energia somaram R$ 65,7 bilhões. Desse total, R$ 47 bilhões — 71,6% — foram para petróleo, gás e carvão, enquanto R$ 18,7 bilhões foram destinados às renováveis. Para cada real investido no setor limpo, dois e meio favoreceram o fóssil. Essa proporção precisa ser, no mínimo, invertida.
O segundo é estabelecer parcerias público-privadas genuínas. Governo, agências reguladoras e empresas privadas — não apenas a Petrobras — precisam cooperar para desenvolver a infraestrutura energética do século XXI. Há capital disponível para solar, eólica, hidrogênio verde e biocombustíveis. Falta um marco regulatório claro e investimento público estratégico.
O terceiro é assegurar abastecimento responsável durante a transição. A Petrobras pode, e deve, continuar operando da forma mais eficiente possível, reduzir emissões em seus processos e investir em energias limpas. Mas suas receitas devem financiar o Tesouro Nacional e a transição energética — não apenas dividendos recordes a acionistas.
O Brasil não precisa esperar 2050 ou 2070 para construir seu futuro energético. Esse caminho será feito por quem tiver coragem de admitir que a transição não é tarefa de uma empresa de petróleo vestida de verde. É responsabilidade do Estado, exercida por políticas públicas claras, investimentos estratégicos e uma parceria genuína com o setor privado — com aqueles que querem mudar de fato, não apenas parecer que mudaram.