
Depois que o Brasil levou o segundo gol, um cara levantou, quebrou uma garrafa de cerveja, uma mesa e chutou uma cadeira. Pior: ele estava com dois filhos pequenos. E no meio de centenas de pessoas que assistiam ao jogo em um bar no bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre. Fiquei pensando: o que ele faria em casa com esposa e filhos, depois de fazer isso na rua? Um cara perigoso. E ainda berrava: “Eu tô louco mesmo”. Essa cena uma amiga contou que presenciou no final do jogo. Ela ficou apavorada e saiu logo com os dois filhos.
Para quem não sabe, em dia de jogo, aumenta a violência, com brigas e ataques às mulheres. Durante uma reunião no Senado, a pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Isabella Matosinhos, relatou que, em dias de jogos de futebol, as agressões físicas às mulheres aumentam quase 21%.
Depois que fiquei sabendo dessa situação, logo passou pela minha cabeça que outras pessoas, principalmente do sexo feminino, deveriam estar em apuros. Pois não foi apenas uma derrota. Foi um episódio de algo que talvez seja o único motivo que une os brasileiros. Depois que o fascismo deu o ar da graça e se enraizou.
E, por falar nisso, enquanto o Brasil perdia, fiquei sabendo de algo muito pior: o próprio presidente Trumposo ligou para a FIFA para pedir para cancelarem o cartão vermelho que um jogador da seleção norte-americana recebeu no jogo anterior. E nem sei o que dizer sobre a decisão da FIFA de acatar a interferência. Isso está gerando uma crise que realmente não sei onde vai dar.
Mas o que essas duas situações têm em comum? São provocadas por dois homens, um de Porto Alegre e outro que se acha dono do mundo. São criaturas sem limites, mimadas, acham que podem tudo. Só que, é claro, as dimensões de um e de outro são incomparáveis. Um representa o que a ultradireita deseja, mostra seu poder prejudicando milhões de pessoas. E até a Copa do Mundo, à qual ele parecia dar pouca importância; nem esteve na abertura, enviou um representante; ele está intervindo.
Fiquei intrigada e realmente incomodada com as duas situações, pois o que a Copa do Mundo diz, grita, sobre nós?
Nessa Copa, por circunstâncias do momento e também pela qualidade dos jogos, eu tenho visto alguns jogos como nunca tinha feito antes. E eu sei quase nada sobre futebol. Passo perguntando aos meus guris sobre regras e definições. Só que a Copa desse ano está com muitas características interessantes. Também denotam várias faces do nosso tempo, como um canal no YouTube que retransmite todos os jogos e escracha outros lados do evento. Para o bem e para o mal.
Essa Copa é a maior de todas e traz personagens com contextos interessantes, como o do goleiro Vozinha de Cabo Verde. Incrível o que essa seleção conseguiu fazendo sua estreia no campeonato. Mas, confesso, que esse negócio multinacional do futebol tem mais camadas que uma grande cebola. Entre anúncios de bets, petroleiras etc., rola uma grana que poderia melhorar tanta coisa no mundo. O que vale por alguns dias é a distração das pessoas dos problemas reais que as envolvem.
O comportamento da seleção depois da troca de jogadores, a atitude do Neymar frente ao goleiro da Noruega, o pênalti que o Bruno Guimarães errou aos 13 minutos do primeiro tempo servem de indicadores para nós, brasileiros, pensarmos melhor sobre o nosso próprio desempenho frente aos desafios do país.
Constatar como jogadores de outras seleções se comportam, dando toda a sua energia, seu sangue para superar o adversário, evidencia que, quando um time, uma nação está empenhada em vencer, o que a impulsiona é a união, a cola que juntou pedacinhos que antes estavam separados. É isso que estrutura a força, o entusiasmo. Por isso, fiquei pensando: o que foi feito, além da técnica entre as quatro linhas, para um bando de atletas que jogam em diferentes partes do mundo se entrosarem por uma causa maior? Será que só no campo a coletividade é desprezada em relação a jogadas individuais? Talvez essas respostas sirvam de estratégia para enfrentarmos os mimados que andam por aí.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
Participe da campanha Outros Lados do Contexto e colabore com o financiamento coletivo para que eu possa continuar escrevendo no Sler. Agradeço demais o apoio, principalmente de mulheres que vêm me apoiando de distintas formas, seja lendo, compartilhando ou fazendo doação em dinheiro todos os meses. Clique no link abaixo: