
Tem alguma coisa errada com o horário da minha consulta? — perguntei, depois de quarenta minutos de espera.
Não — respondeu a secretária, revirando os olhos. A doutora está atrasada, como sempre.
É que estou vendo pessoas que chegaram depois de mim serem atendidas antes, por isso perguntei.
O teu horário é três e vinte. Acabei de chamar a paciente das duas e meia.
Três e vinte? — repeti para mim mesma, disfarçando a vontade de rir. Então eu cheguei cedo. Uma hora antes da consulta.
Mas isso é bom. Assim, tu pode vir com calma, sem te preocupar em chegar atrasada por causa do trânsito.
Só que eu saí de casa correndo, pensando que a consulta fosse às duas e vinte e que eu estivesse atrasada.
Pelo menos tu acertou o dia.
É verdade. No início do ano, fui ao dentista uma semana antes da consulta.
E então continuei contando a ela algumas das peripécias que o TDAH já havia me proporcionado: a consulta que eu anotei na agenda para não esquecer, mas perdi porque esqueci de olhar a agenda; a festa em que cheguei no final por não ter prestado atenção no horário do convite; as vezes em que saí de casa para comprar uma coisa e voltei com tudo, menos aquilo que tinha ido buscar.
Enquanto eu relatava as minhas trapalhadas, fui percebendo o quanto tudo sempre esteve ali, diante do meu nariz, e eu não quis enxergar. Achei que fosse só uma “bocabertisse” minha quando encontrei o cartão de débito dentro da geladeira, depois de ter procurado por ele no supermercado da rua e ter pedido um novo ao banco. Ou quando encontrei o celular no congelador junto à barra de chocolate que eu havia posto para endurecer.
Quando troquei as palavras de uma frase ou confundi os nomes de alunos que sequer tinham alguma semelhança. Quando saí no meio de uma aula ou palestra por estar exausta de tanto prestar atenção. Quando perdi a metade de um filme ou precisei ler muitas vezes o mesmo parágrafo de um livro porque os meus pensamentos andavam por outros lugares.
Eu poderia continuar por horas, relatando com humor a lista de coisas que sempre atribuí a uma distração momentânea ou descuido. Mas foram muitos os episódios de desatenção e, pensando bem, eles nunca foram engraçados. Embora muitas pessoas digam que, hoje em dia, “todo mundo tem um pouco de TDAH”, só quem convive com o transtorno sabe o impacto que a falta de diagnóstico e de tratamento pode causar. Não se trata apenas de esquecer compromissos, perder objetos ou se distrair durante uma conversa. Por trás de cada pequeno episódio de desatenção podem existir danos profissionais, financeiros e, sobretudo, emocionais. Muitas tarefas ficam pelo caminho e, com elas, a sensação de fracasso por não conseguir fazer com facilidade aquilo que parece tão simples para os outros.
Por essa razão, eu sigo no tema do meu texto da semana passada (leia AQUI) porque, quanto mais cedo o diagnóstico for concluído, maiores serão as possibilidades de se compreender as próprias dificuldades e evitar que elas se transformem em problemas ao longo da vida.