
Sobre política, tenho um currículo acanhado. Depois de algum envolvimento na política estudantil, tanto secundarista quanto universitária naqueles tempos de ditadura se derretendo ao calor de uma juventude inquieta, fui repórter desse setor em Zero Hora por um par de anos e, claro, na Folha, cobria todos os setores.
Mas sou um cara intuitivo, sempre fui, e, assim que saiu o resultado do primeiro turno, cantei a pedra: o Lula teria grandes chances de vitória. Por que eu tinha esse palpite? Porque vi muita gente anulando o voto, se abstendo ou recorrendo a uma terceira via improvável com a promessa de que no segundo turno iria de Lula.
Diante disso, faço aqui uma gratuita contribuição aos institutos de pesquisa: na hora de auferirem as rejeições, criem uma ferramenta que verifique o grau de reprovação em relação a algum candidato. Tipo: “Ok, você rejeita esse sujeito, mas qual o seu real sentimento a seu respeito: ‘Só não curto muito’, ‘Tenho restrições’, ‘Queria vê-lo preso’, ‘Tenho asco’, ‘Sinto uma irreprimível ânsia de vômito ao vê-lo’, ‘Meu dedo criaria uma verruga se eu apertasse um botão com o número dele’”.
Em outras palavras, um deles é 100% insuportável, em qualquer hipótese?
Os números frios só dizem que 9.316.747 eleitores optaram por terceiras vias no primeiro turno. Também contam que 2.960.239 deixaram de se abster no segundo turno, 870.302 deixaram de votar em branco e 950.944 deixaram de anular.
É muita gente, mas é pouco elemento pra chegarmos a alguma conclusão.
Já é sabido que, num mundo polarizado, uma enorme quantidade de votos é orientada pela rejeição. Ou seja, as pessoas votam muito menos no candidato que preferem do que votam contra o candidato que não suportam ver na frente.
Só que essa suposta interpretação refinada pode ser ainda mais sofisticada. Neste mundo robotizado, de inteligências muito artificiais, precisamos aguçar o senso interpretativo para além dos números frios, das estatísticas e das projeções.
Não se trata de quantidade, mas de qualidade. Precisa haver uma verificação qualitativa, e isso é muito sério.
Ambos podem ter o mesmo índice de rejeições, mas talvez um tenha as rejeições mais profundas, intensas e incontornáveis.
Uma coisa é rejeitar; outra é repudiar.
Lula venceu um candidato cujo mérito pra ser ser político teve, sim, uma prévia que define com precisão e democracia a capacidade para concorrer a um cargo público: Flávio Bolsonaro venceu a corrida de espermatozoides quando foi fecundado. Ele só existe.
Vi uma charge asquerosa, aliás, mostrando o escroto perebento de onde ele saiu.
Esse é o seu mérito, organicamente democrático (nada é tão orgânico e democrático quanto a corrida de espermatozoides para fecundar um óvulo).
Ah, e se parece tanto com o pai! Aliás, há quem diga que ele tem até mais pronunciadas algumas características do seu pai, de momento encarcerado. Fofo isso, não? A natureza é um amor. Bibo Pai, Bobi Filho. Cuspido e escarrado, diz a fineza do idioma.
Creio que os debates que trouxeram a piada do Bobi Filho sobre a falta de um dedo do oponente e a inacreditável desumanidade em relação à menina Ana Clara diante da sua mãe lembraram as simulações do Bibo Pai sobre gente morrendo asfixiada na pandemia. A expressão “cuspido e escarrado” ficou nítida em rede nacional.
Essa é a minha humilde contribuição pra quem tenta entender de política. Na verdade, pessoal, a vida real rege nossas ações e determina nossas decisões, e o voto é uma delas. Lula se impôs a uma figura improvável, desqualificada e vil.
Se a direita brasileira quiser escolher um candidato competitivo na próxima eleição, meça o grau de asco que as pessoas têm pelo ungido. Além de não ser expert em política, menos ainda sou de direita, mas lhes dou esse conselho de graça.
Uma sadia distância
Nesta eleição, fiquei entre duas forças tristemente lacradoras, pra não dizer macartistas, e preferi seguir o conselho do Martín Fierro: “Más sabe el diablo por viejo que por diablo”. Tratei de me recolher. De um lado, as pessoas me diziam que não se pode votar num grupo de notórios desumanos, maus e reacionários grotescos, adversários da ciência e da ilustração, que, chegando ao poder, voltariam a cometer desumanidades, maldades e retrocessos. De outro lado, as pessoas me diziam que é inaceitável votar num contingente de dogmáticos falsos humanistas e que muitos deles fazem do antissemitismo uma perigosa razão mainstream de viver, ignorando a devastadora monstruosidade do 7/10 e negando o direito de Israel existir e se defender. Tirei as minhas conclusões e me recolhi, até usei de leveza em algum momento. Na verdade, pra consumo público, fiquei alheio, sem manifestações nem adesões a listas. E nunca agradeci tanto ao caráter secreto do voto.
Ninguém ali merecia a minha exposição e o meu esforço.
Mas, tomando uma distância recomendável pra jornalistas que se esforçam por ter discernimento e buscar a verdade mais objetiva possível (algo raro em política), enxerguei o cenário com clareza e, entre gritos, risos e choros histéricos, concluí que todos têm razão, o que soa impressionante. Diante disso e de tamanha intolerância ambidestra, tomei as minhas decisões no conforto quentinho do meu cérebro e no escurinho indevassável da urna. Me dei o luxo do silêncio e, graças a Deus, mantive os meus amigos intactos, fugindo da completa alucinação de uma polarização tóxica e irrespirável (a vida é muito maior que essa merda).
O curioso é que, mesmo diante desse comportamento olímpico, haverá danos. Membros de ambos os bandos vão condenar a minha suposta omissão por não fazer coro em gritos e em listas das quais eu me sentiria um inocente útil caso participasse. Repito: ambos os bandos têm que exijir o compromisso incondicional! E de ambos eu já ouvi, quando seus líderes não foram eleitos, a mesma frase “eu não carrego essa culpa”, em referência ao fim do mundo que o outro representa.
É ocioso dizer, mas ainda assim digo: estão enfermos! E é cansativo!
Fui sábio como o Martín Fierro ao me distanciar dessa doideira, até porque já estou tecnicamente velho como o pai dos gaúchos.
Mas a análise distanciada me permite entender o resultado que o voto nos deu.
Se não fosse tanta cegueira fanática, talvez as pessoas percebessem que o que estou escrevendo nesta coluna não passa de algo próprio do Conselheiro Acácio.
Algo exasperantemente acaciano!
Shabat shalom