
Hora de cumprir o prometido. Na coluna passada, escrevi assim quando o tema eram os burros, os maus e sobretudo os oportunistas: “Nem vou ingressar no quesito ‘chatos’, porque aí o texto vai muito longe, e isto aqui se propõe a ser uma crônica (talvez os chatos, ou ‘sem noção’, venham numa próxima).”
“Chato” equivale a “sem noção”. Em geral, a ególatra.
E me vem à mente um antigo debate das redações, agora amplificado e por isso soterrado pelas redes sociais: abrir ou não as publicações de reportagens para comentários. Sempre defendi que, em caso de abertura à interação, necessariamente deveria haver um mediador pra filtrar o que é lixo e agressividade e que é construtivo e civilizado. Em tese, leitor lê.
Não sei se você já reparou, mas a frase “deixa o cara falando sozinho” é a legítima faca de dois gumes: tem o efeito de ignorar o energúmeno e, por outro lado, deixar o energúmeno literalmente falando sozinho, sem contestações, sem alguém que lhe dê um necessário basta. Percebam que dilema e que paradoxo!
É, ao mesmo tempo, uma máxima que favorece a irrelevância e o empoderamento.
Como não consigo guardar pra mim, na maioria das vezes meu sangue subia, e eu entrava rachando. Foi então que, diante do desgaste de tempo e energia, larguei o “X” (tenho a minha conta desidratada lá no antigo Twitter, mas faz meses que nem olho) e só posto no Facebook tirando a alternativa dos comentários.
No caso do “X”, o motivo é a desqualificação, a agressividade e a irresponsabilidade. Meu tema central era o futebol, e eu acabava me envenenando, ficando igual ao detrator e incomodando até quem nada tinha a ver com aquilo e depois se sentia atingido pela minha fúria e dizia ter ficado triste. Foi então que refleti e o abandonei.
No caso do Facebook, que ainda uso pra compartilhar links das minhas colunas, pegou forte o antissemitismo. Havia comentários de antissemitas que os caras faziam dizendo não ser o que eram e automaticamente intensificando esse tipo de racismo tão normalizado. Foi curioso quando me dei conta de que pessoas não judias queriam ensinar a mim, um judeu, o que pode ou não ser considerado antissemitismo. Cadê o “lugar de fala” da Djamila Ribeiro, pessoal?
E o antissemita que acha normal ser o que é e justificando absurdas potencializa o seu antissemitismo quanto mais o renega. Só piora.
Mas o assunto aqui não são só os agressivos e desrespeitosos. São também os chatos, que por vezes ainda são agressivos e desrespeitosos. E parto do “X” e do Facebook (o instagram é outra “history”) pra tratar dos grupos de Whatsapp frequentemente inevitáveis (como não estar no grupo do condomínio?).
Perceba que nesses grupos ocorre algo semelhante, porém mais delicado, porque frequentemente são amigos da vida real ou colegas. Mas ressurge o dilema: ignoro o cara e o deixo falando sozinho ou dou nos dedos pra se dar conta de que está sendo inoportuno?
Assuntos mais frequentes em que isso ocorre: futebol e política (no sentido partidário, claro). Tem grupos, em geral plurais e muitas vezes divididos meio a meio, em que figuras sem noção estabelecem o pensamento único, e quem discorda acaba encurralado e massacrado ou reage e acata um debate desgastante e interminável.
Se tu ignora, torna-se um suplício silenciosamente consentido por ti, o incomodado e encurralado. Se tu reage ou simplesmente explica que tem pessoas com visões ou paixões diferentes ali, que o ideal seria abordar temas que unem etc, frequentemente te tiram pra uma pessoa sem humor ou até desagregadora, veja só.
Difícil.
E aí, a terceira alternativa acaba sendo, literalmente, a única saída: sair do grupo que te intoxica. Eu, por exemplo, busco respirar ar puro e me relacionar com pessoas sadias. Aliás, é tão forte essa minha busca, que de uns anos pra cá venho resgatando antigos afetos que sempre me fizeram bem. E como é bom!
No futebol, ocorre frequentemente a confusão entre “flauta” e agressão. Sou adepto da flauta e da zoação quando é sadia (e deveria sempre ser), quando é uma zombaria leve (como deveria ser sempre) capaz de fazer o próprio alvo rir junto (eu rio de mim mesmo sem dramas), no nível do folclore. Não é o caso de quem busca desqualificar, desconstruir e até negar o outro.
Lembremos sempre que a magia do futebol provoca muita paixão e intenso pertencimento. Frequentemente, o torcedor médio passa o fio que divida a brincadeira folclórica do desrespeito que ofende e machuca.
Na política, nestes tempos bicudos de polarização insana, um e outro lado saem a defender o indefensável, e tu tem que deglutir o absurdo? Às vezes isso ocorre, pasme!, até num grupo unido pela visão ideológica. Voto em quem pensa como eu em temas gerais, mas é um baita antissemita que te ignora? Pra mim, nem fodendo.
A coisa se azeda de vez quando há um proselitismo insistente.
Vou poupar o leitor de detalhes sobre, de um lado, placebos, terraplanismos, tolerâncias com monstruosidades e rejeição à imunização pela vacina e de outro a defesa de grupos obscurantistas e aiatolás que são o suprassumo do fascismo que ironicamente dizem combater, ou os Ortegas, Evos e Maduros com suas ditaduras companheiras.
…
Também tem, nos grupos de Whatsapp, os opiniáticos obsessivos, que não podem dormir sem escrever textos e áudios longuíssimos com sua indefectível opinião, como se tê-la fosse uma incontornável necessidade. O cara acha que os assuntos são sempre com ele, da conta dele, se vê como o centro do mundo, é o ególatra. E ainda tem aqueles que te puxam do lugar quentinho e confortável onde tu tenta te proteger de ser enredado.
As redes sociais tornaram algumas expressões consagradas muito mais reais, apesar de serem virtuais. É doido isso! Começou pelo Facebook, que demoliu a chacota sobre o pleonasmo “amigo íntimo”. Deixou de ser pleonasmo! Na medida em que passou a haver “amigo virtual”, também se consolidou o “íntimo”.
E, em especial, sendo exatamente que trata esta coluna, tornou-se ainda mais verdadeira aquela máxima do Caetano, “de perto ninguém é normal”. É assustador! Quantas vezes me peguei pensando naquele antigo conhecido ou amigo que, “puxa, eu não sabia que era assim”.
Por vezes, chega a dar um sufoco.
Veja este tipo de diálogo hipotético, muito em voga (serei genérico, porque realmente não me refiro a alguém em específico, que fique muito claro; é um conjunto de características, de diferentes personagens reais, e, além disso, não necessariamente pessoas de quem eu não gosto, eventualmente sendo algo que dá pra servir de zoação, sem maldade alguma).
Algo assim:
“- Eu acho que tal coisa é assim, porque eu sempre disse que era, porque eu falei com tais pessoas que me disseram tal coisa, porque eu pesquisei muito sobre isso, porque eu sei, porque eu te disse, porque eu sempre disse e o fulano disse o contrário e teve até alguém que andou me copiando no insta ou no face num plágio revoltante (em redes sociais), mas a opinião era minha, e eu tinha razão, porque eu escrevi a minha opinião primeiro que qualquer outra pessoa, e outra pessoa depois deu a mesma opinião, igual a mim, o que é claramente uma cópia da minha originalidade, porque a opinião que eu dei naquele dia… (o post, necessariamente cheio de “eus” ególatras segue adiante, é interminável).”
(silêncio geral, um minuto, seis, 12 minutos, meia hora, uma hora, dá pra sentir a tensão no silêncio…)
Volta o cara:
“- Pô, ninguém vai comentar o que escrevi?!!!”
Aí alguém responde:
“- Puxa, é que eu não tive tempo. Era muito texto, e eu estava ocupado com algumas coisas da vida real.”
ou (ai, ai, ai…):
“- Puxa, não respondi, mas discordo de ti.”
Pronto. Fodeu.
A mágoa que já existia se aprofunda. E o troço te suga infinitamente num redemoinho azedo e grudento, a ponto de o teu dia terminar naquele instante.
Pode ser pior? Pasme, mas pode.
Experimente dizer…
“- Eu não tenho opinião sobre esse assunto.”
Ai.
E segue o baile.
“- Mas, caro (o pedante “caro” muitas vezes é uma expressão vazia, uma bengala inútil, de dar verniz civilizado ao começo de uma discussão), por que tu não tens opinião se um dia tu disseste tal coisa que é exatamente sobre esse assunto e era uma opinião que eu discordo porque acho que tal assunto… (texto infinito)”
“- Olha, não é bem assim, talvez eu tenha dito algo algum dia. Não descarto ter mudado de opinião, e, lá sei eu, não tenho vontade de opinar sobre isso.”
“- Poxa, meu caro, como que tu não vais opinar?!!!”
“- Não acho que uma pessoa precise sempre ter opinião formada sobre tudo. Muitas vezes me permito simplesmente não tê-la.”
“- Mas todos têm opinião, é importante ter opinião, eu tenho opinião, tu deves ter opinião, eu me lembro que já tiveste, e não sejas tolo de negar, eu tenho uma memória incrível, não sejas desonesto, eu busco tuas palavras, acho que tenho o print, ou procuro e te provo, é necessário opinar, temos que debater…”
“- Eu não acho importante debater sempre, nem tudo na vida precisa ser polêmica.”
“- Ah, meu caro, eu discordo de ti, respeitosamente. Acho que todos têm opinião, o debate é necessário, a polêmica é legal, e eu busco tua opinião de sete ou oito anos atrás, porque tenho excelente memória, como disse antes, tenho tudo guardado, e sei que tu disseste algo sobre o assunto e agora estás negando…”
“- Puxa, eu não me lembro de um dia ter opinado sobre esse assunto e muito menos ter dado a opinião que tu diz que eu dei. E acho isso de ficar polemizando o tempo todo um porre. Vou parar de falar aqui, tá? Vamos parar? Pode ser?!”
“- Quanta infantilidade a tua! Agora que começaste, queres parar e te vitimizas.
“- Eu comecei esse troço?! Eu me vitimizo?!!!”
“- Sim, e agora queres parar fazendo mimimi.”
“- Mas foi tu que começou, eu nem queria esta conversa.”
“- Aqui ó, achei o que tu falaste lá em cima, tenho guardado. Disseste assim: ‘- Puxa, não respondi, mas discordo de ti.’ Viu? Foi isso que disseste e me lembro que muitos anos atrás essa já era a tua opinião, e agora queres encerrar o assunto. Estás sendo contraditório e infantil.
“- Mas perceba que era uma resposta que eu nem queria ter dado. Só dei pra não te deixar no vazio…”
“- Ah, eu discordo de ti que uma pessoa pode querer não ter opinião, porque a minha opinião sobre ter ou não ter opinião é que todos têm opinião, e eu tenho e tu tens opinião, e, como eu te disse antes…” (por vezes, esse arrazoado, quando não em um texto quilométrico, vem num áudio de ao menos 10 minutos, que precisa ser posto na velocidade 2, recheados de imaginários frágeis e teses infinitas sem fundamento)
…
…e tu é sugado pelo redemoinho azedo e grudento e pesado e desgastante. E a coisa vai semana adentro.
…
Passa uma semana, e o assunto persiste.
Aí tu põe uma figurinha divertida pra enfim encerrar a conversa, e o cara diz que odeia as figurinhas, e tu diz que gosta, e ele diz que a opinião dele sobre as figurinhas é que as figurinhas são umas bobagens e tu diz que acha elas legais porque resumem sentimentos e opiniões de forma divertida e às vezes certeira, e ele argumenta longamente pra te convencer de que a opinião dele é a certa sobre as figurinhas, e tu diz que o assunto é irrelevante e que, enfim, cada um tem a sua opinião (ou não) sobre as figurinhas, não é um dado objetivo, não é uma informação que possa ser contestada, é subjetiva, que aquele clichê de que “opinião não se discute” por vezes é muito verdadeiro, mas ele faz intermináveis considerações filosóficas sobre objetividade e subjetividade, que a tua opinião está errada e a dele certa, e tu… tomado de repentina lucidez, bloqueia o cara. Ufa!
…
Na Argentina, entre tantos costumes que adoro, e isso não é segredo pra ninguém que me conheça ou leia, existe uma expressão que acho ótima: o cara é um “pesado”. Desconfio que a nossa definição “mala” (por vezes sem alça e sem rodinha) deriva daí. E como cansa carregá-la!
…
Aqui termino a coluna. Deixo você à vontade pra opinar, curtir, comentar ou muito antes pelo contrário, porque tá um baita dia de sol lá fora, você já viu? Olhe pela janela o azul do céu, o verde das árvores e aquele guri ou guria linda. O cãozinho fofo. Desfrute, seja feliz e, sobretudo, procure ter leveza.
E não precisa ter opinião formada sobre tudo o tempo inteiro.
Aliás, de certa forma é verdade que opinião é algo que todos têm, assim como o fiofó, mesmo que a opinião seja a (perfeitamente legítima) de se permitir não tê-la.
Porque é muito pesado quando ocorre algo também frequente: a opinião sem a necessária informação. Cada vez mais eu vejo pessoas rompendo essa lógica cristalina de que a informação necessariamente precisa anteceder a eventual opinião sobre algo.
Sendo assim, muitas vezes é até honesto simplesmente não tê-la.
É um porre quem tenta convencer o não opiniático do contrário.
E ainda mais aborrecido (ou “pesado”) é alguém ficar tentando insistentemente convencer o outro a respeito de tudo o tempo inteiro. E nem falei nos propagadores de ideias fixas e nos adoradores de imaginários. Iríamos ao infinito e além.
…
Essa é a minha opinião.
…
Shabat shalom!