
Neste 24 de março se completam 50 anos do golpe militar que afundou a Argentina numa ditadura sangrenta de sete longuíssimos anos, com 30 mil mortos e desaparecidos. Mas há recortes diferentes dos usuais a serem feitos, situações pouco reportadas. Exemplo: a repressão foi especialmente cruel e implacável com os judeus, que, mesmo sendo uma minoria (em todo o mundo), tiveram número de vítimas em percentuais dramáticos.
Ana Nirgad, esposa do então embaixador israelense Ram Nirgad (de forte atuação na defesa dos perseguidos), costumava contar que, durante um coquetel na embaixada, um militar lhe perguntou: “Por que neste país há tantos judeus entre os subversivos?”. E ela, muito irritada, contestou com uma certeira réplica: “Interessante pergunta, general. Mas me permita que faça ao senhor outra pergunta: por que há tantos militares antissemitas na Argentina?”
Os militares argentinos tinham forte tradição antissemita. Diante dos protestos trabalhistas em janeiro de 1919, na chamada “Semana Trágica”, a repressão se transformou em atos violentos no Once (Balvanera), o bairro judaico. Houve mortes e depredações de comércios e sinagogas, num inusitado pogrom ocorrido na América Latina. Desde então, os judeus, dentre os quais havia muitos anarquistas e socialistas, passaram a ser chamados de “russos” (relação evidente com a revolução de 1917, menos de dois anos antes).
Estima-se que a ditadura argentina de 1976/83 resultou nas mortes e desaparecimentos de pelo menos 937 judeus. Há relatos de que judeus eram torturados na ESMA (Escola de Mecânica da Marinha) sob símbolos nazistas e que, na cela em que eram trancafiados, apenas um livro era permitido: o Novo Testamento, ou seja, a Bíblia cristã. Foi criado o Movimento Judaico pelos Direitos Humanos para denunciar as atrocidades. Houve diversos casos de jovens judeus que na época fizeram “aliá”, emigrando da Argentina para Israel.
Características culturais, e não apenas religiosas, claramente incomodavam os militares. Os judeus, com seus resistentes e diferentes hábitos próprios, seu Deus incorpóreo, sua aversão a ídolos e sua filosofia de teor fortemente social, incomodava e ainda incomoda, à direita ou à esquerda, como temos visto.
Da época da ditadura argentina, há o caso muito ilustrativo de Daniel Rus, cuja mãe, Sara, sobrevivente da Shoá (Holocausto), passou por dois infernos e depois militou como Madre de la Plaza de Mayo (Sara e Bernardo eram namorados na Europa e foram ambos para campos de concentração, prometendo sobreviver e se encontrar na Argentina, o que ocorreu sob circunstâncias épicas. Na Argentina, tiveram o filho Daniel, brilhante físico nuclear que em 1977 foi assassinado pelos repressores do regime militar instalado no ano anterior).
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O antissemitismo era uma filosofia e uma política de Estado. O almirante Armando Lambruschini, que chegou a integrar a junta militar responsável pelo Poder Executivo, dizia com todas as letras que os principais inimigos da humanidade eram os judeus Einstein, Freud e Marx. Motivos: Einstein relativizava os conceitos de tempo e espaço, e os militares consideravam isso uma forma de subversão científica muito perigosa ao estabelecer incertezas; Freud criou teorias sobre inconsciente e sexualidade que, diziam Lambruschini e seus comparsas, desestruturavam as famílias e estabeleciam a “balbúrdia” na sociedade; e Marx punha em dúvida o conceito, para eles sagrado, de propriedade privada.
“A crise atual da humanidade se deve a três homens: até o fim do século 19, Marx publicou três tomos de O Capital e pôs em dúvida a intangibilidade da propriedade privada. No início do século 20, é atacada a sagrada esfera íntima do ser humano por Freud em seu livro ‘A interpretação dos sonhos’. E, como se fosse pouco, para problematizar os valores positivos da sociedade, Einstein, em 1905, torna conhecida a Teoria da Relatividade, onde põe em crise a estrutura estática e morta da matéria”, discursou em 26 de novembro de 1977 Emilio Massera, também almirante e também em algum momento integrante da Junta Militar.
Ao recordar o cinquentenário do horror, vale fazer esse recorte pouco falado.
Por quê? Porque o bordão incontornável é o eterno “nunca mais!”
Shabat shalom!
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