
Os tempos turbulentos e confusos estão por todos os lados. A violência não dá trégua, está na linha de frente, e o que se vê e se ouve no noticiário cotidiano é desesperador. Como escreveu o cineasta Luiz Alberto Cassol, “as imagens do velório coletivo das crianças no Irã já pertencem à história como um dos retratos mais devastadores daquilo que seres humanos foram capazes de fazer contra os mais indefesos. Trump e Netanyahu carregarão esse massacre como marca permanente de suas brutais trajetórias. Há atos que ultrapassam qualquer discurso, qualquer narrativa. Há decisões que atravessam gerações como símbolo do horror. E este é um deles.”
E é! Os poderosos narcisos genocidas que comandam as guerras a partir de seus castelos protegidos, impulsionados por uma ambição desmedida e sem escrúpulos, matam crianças, dilaceram famílias e seguem suas trajetórias com uma frieza assustadora. O prazer está em ameaçar o mundo. Cada lado tem sua razão, sob a ótica de quem comanda este espetáculo dilacerante que destrói vidas inocentes. Mas não há razão que explique tanta insanidade! Está muito difícil encarar os rumos violentos que o mundo está tomando, acompanhado pelo excesso de análises e interpretações que invadem o nosso cotidiano. A Sociedade do Excesso* esbarra e alimenta a Sociedade do Cansaço*, contaminando nossa esperança, que já está por um fio, porque a violência de todo tipo só aumenta, assim como a miséria nas ruas. Basta olharmos para o número de feminicídios, que cresce dia a dia E para as calçadas onde encontramos mães pedindo comida e homens atirados no chão.
Em momentos como os que vivemos hoje, de disputas pelo poder e pelo machismo que matam indiscriminadamente, sinto que a delicadeza humana está se perdendo. Então, mais uma vez, recorro à arte para me acalmar, respirar fundo e recuperar um pouco da esperança. E lá encontro dois poetas que me inspiram há muito tempo e repito seus versos para aliviar o coração apertado. De Carlos Drummond de Andrade: “Mundo, mundo, vasto mundo / Se eu me chamasse Raimundo / Seria uma rima, não seria uma solução / Mundo, mundo, vasto mundo / Mais vasto é meu coração.” E do poeta das nossas esquinas esquisitas, Mario Quintana: “Todos esses que aí estão / Atravancando meu caminho, / Eles passarão… / Eu passarinho!”.
Salve a poesia. Salve a arte.
Salve o cinema brasileiro, que nos coloca no mundo e diz tanto de nós!
Salve os corações vastos que resistem e enfrentam quem atravanca a passagem do bem! Este é um jeito que encontrei para ativar pequenas suspensões no cotidiano e sair em busca de fontes que não deixem meus sonhos morrerem. Fontes que ativem minha memória e minha crença na humanidade para que não se percam. Fontes que estão sempre ancoradas na solidariedade, na criação e na arte. Criar é sair da burocratização que controla o nosso tempo, impondo uma infinidade de tarefas com as quais não queremos mais lidar, não nos servem, mas ainda nos escravizam. O ato criativo coloca em cena uma utopia necessária. Alimenta a busca de um novo tempo. Provoca um andar lúcido e lúdico contra a corrente, por caminhos diversos que reativam o olhar para o outro, a boa luta, o encontro com os amigos e as emoções que precisam ser divididas.
Criar é não ter medo de abrir as asas e voar, mesmo nas tempestades, para seguir na busca por mais humanidade, fraternidade, respeito pela vida e liberdade.
“Sociedade do Excesso”, ou do desempenho que leva ao cansaço, é uma teoria de Byung-Chul Han que descreve a era atual como marcada pela superprodução, pela hiperatividade e excesso de positividade. O indivíduo acaba tornando-se “empresário de si mesmo” em busca de uma produção sem limites. A pressão interna é tanta que a sua busca pelo desempenho máximo, sem descanso, torna-se absurda, o que pode acabar em esgotamento e doença mental.
Filósofo e ensaísta sul-coreano, Byung-Chul Han é professor da Universidade de Artes de Berlim. Estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Para ele, a “Sociedade do Cansaço” é uma condição gerada pela “Sociedade do Excesso”, que é contemporânea e marcada pela autoexploração e por uma positividade excessiva. O indivíduo torna-se seu próprio algoz.
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