
Querida Helena,
Não sei por onde começar porque não há um começo. Há uma pergunta sua sobre como eu me senti quando esperava pelo meu filho. Nós duas temos muito em comum. Eu gerei e pari o meu sem a existência da minha mãe. Você está vivendo o mesmo. Um mesmo que não se resolve em um piscar de olhos. São quarenta semanas ou oito meses e uma eternidade. O nono mês custa a passar. Dependendo da mãe, muito.
Eu engordei vinte quilos comendo saladas verdes já no café da manhã, fazendo de tudo para que o meu bebê tivesse boa saúde. Acabei tendo de dormir no sofá da sala, macio e cheio de almofadas soltas nos últimos dias, o único lugar em que meu corpo mais que redondo e também mais que perfeito se acomodava. Não há corpo mais bonito do que o de uma mulher preparando outro ser humano, esculpindo uma vida além da nossa, sendo mais do que somos, nos tornando um plural de nós mesmas.
E também não há momento mais enigmático e muito além da ciência e da racionalidade. Eu, na época, comprei vários livros, quis encontrar as perguntas que eu gostaria de fazer a minha mãe e a ninguém mais. Não foram muito úteis. Quem nos sabe são elas. Fomos as suas gestações, os seus partos. Portanto, dessa falta não há como escapar. Mas você pode imaginar respostas. Elas podem vir de um outro universo ou das próprias células que estão em seu corpo.
Eu conheço a sua mãe por fotografias. Seu pai me mostrou algumas na época em que o conheci. O seu pai puro afeto, pura lealdade, pura força, muito parecido com o meu – que arrumou as malas, pegou a estrada e foi para a minha casa me ensinar a ser mãe – achava a sua mãe bonita. Não tenho dúvida de que os olhos do seu marido veem a sua beleza. Mais do que veem, sentem a Helena vigorosa em que ele, também, por quarenta semanas ou oito meses e uma eternidade, habita. O seu marido faz parte da sua beleza.
E quando falo em beleza, falo muito mais do que da sua aparência. Falo da coragem e da generosidade de dizer sim à natureza, adentrando em seu ciclo e se submetendo a ele com boa vontade. Meu primeiro aprendizado materno foi o de nunca abrir mão da boa vontade. Você vai precisar muito dela. Infinitamente. E ela virá porque anda de mãos dadas com o amor. E se tem algo que não é difícil de chegar é o amor por um filho. O amor é uma chave Phillips, uma bula completa, uma eterna última invenção tecnológica. Ele está sempre um passo, vários passos à frente de qualquer coisa que se invente neste planeta. Nunca cai em obsolescência.
O amor é um grande mestre. Capacidade amorosa, você a tem. E eu estarei sempre aqui por você.