
Não tenho tanto interesse pela vida de pessoas quanto pela vida dos livros. Assim como pessoas, mas em escala menor, também os livros nascem aos milhões há milhares de anos em diferentes partes do planeta, e apenas uns poucos sobreviverão na história aos rigores do tempo; a maioria perecerá como uma linha em texto, uma nota de rodapé ou mesmo uma ausência esquecida. Mas o que me fascina mais nos livros é que, diferentemente das pessoas (desculpem, não sou religioso), os livros podem ressuscitar das formas mais surpreendentes. Para ir adiante, devo explicar que vejo, basicamente, dois tipos de “ressurreição” bibliográfica possível: a dos livros recuperados e a dos livros redescobertos.
Os livros redescobertos são aqueles que não estavam necessariamente perdidos, apenas jaziam relegados a um prematuro esquecimento, e que, por alguma circunstância inesperada, voltam a ser lidos, comentados e discutidos – voltam, portanto, à vida, no que se entende por “vida” quando falamos de obras artísticas. Acho que um dos exemplos mais representativos em tempos recentes é o do romance Stoner, do escritor americano John Edward Williams, publicado originalmente em 1965, lido, resenhado com algum respeito na época e depois solenemente ignorado pelo grande público por décadas.
Um homem comum
Lançado no meio de uma revolução cultural e comportamental em curso na paisagem literária da época, Stoner não era um livro que se sobressaía junto ao “espírito do tempo”. Aquele era um período de uma não ficção vibrante e de uma prosa que se tornava cada vez mais experimental e satírica – são mais ou menos da mesma época The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby, de Tom Wolfe (um dos marcos do Novo Jornalismo); Um Sonho Americano (uma tentativa de Norman Mailer se tornar o “Dickens Americano” tecendo um panorama monumental dos EUA); God Bless You, Mr. Rosewater, de Kurt Vonnegut (uma feroz sátira pós-moderna). Também surgiam por aqueles anos ficções científicas hoje fundamentais – Duna, de Frank Herbert, e Os três estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick, são do mesmo ano. Comparado a essa lista de livros que piravam nos conceitos ou na forma, Stoner parecia ter desembarcado de um passado mais clássico.
O romance narra, como um perfil biográfico e em uma prosa precisa, mas sóbria e sem pirotecnia, momentos-chave da vida de seu protagonista William Stoner, professor de literatura que, tendo começado a carreira durante a I Guerra na Universidade do Missouri, chega ao fim de sua vida sentindo-se náufrago e deslocado diante dos novos valores do tempo em que vive. É a história de um homem tristemente banal, que passa seus dias preso a um casamento infeliz, dá aulas de retórica e literatura do Medievo para estudantes desinteressados, não é admirado por seus colegas, não ascende na política interna da universidade, não se torna o escritor que almejava ser e passa por vários momentos de resignação e sujeição a forças externas – representadas principalmente por escolhas e imposições de sua esposa Edith e do chefe do departamento em que leciona, Lomax.
O que é interessante é o modo como Williams consegue transformar essa vida incolor em um livro cativante, muito por transmitir a ideia de que Stoner, que poderia ser o loser definitivo nas mãos de um autor com pendor satírico, é, na verdade, alguém que consegue manter um núcleo incorruptível de dignidade mesmo diante de tantos fracassos. Em uma nota curiosa, é como se o romance parecesse anunciar também seu próprio destino nas primeiras páginas, em que o narrador se refere ao já falecido Stoner como alguém que não deixou uma marca indelével no mundo em que viveu: “Os colegas de Stoner, que não o tinham em grande estima quando vivo, quase nunca falam dele agora; para os mais velhos, o seu nome é um lembrete do fim que os aguarda a todos, e para os mais jovens é só um som que não evoca nenhuma sensação do passado”.
Por um tempo, esse foi o destino do romance. Não que tenha sido obliterado, ele simplesmente vendeu sua modesta edição de dois mil exemplares e saiu de catálogo. Tornou-se um objeto de culto entre poucos e fiéis leitores, mas não fez marolas na paisagem cultural por cinquenta anos. Foi apenas neste século que o livro ganhou uma reedição em 2006, e, a partir daí, o livro ganhou projeção com a propaganda informal de outros grandes autores como Ian McEwan, Julian Barnes e Bret Easton Ellis, que assinaram resenhas entusiasmadas e chamaram a atenção para o seu caráter de “obra-prima esquecida”. O livro foi então traduzido e se tornou também um fenômeno internacional. Saiu no Brasil em 2015 por uma editora chamada Rádio Londres, que tem ela própria sua história maluca particular (foi criada por um editor italiano, lançou livros muito bons ao longo de uns poucos anos e depois simplesmente desapareceu sem deixar notícias nem um pedido explícito de falência em 2020).
Os reencontrados
Bom, Stoner é um livro “redescoberto” porque nunca esteve oficialmente perdido, apenas ignorado nas sombras imensas do arquivo do que se publicou ao longo do século XX. Mas, neste texto, eu queria mesmo era falar da outra categoria, a dos que, por um momento ou mesmo por séculos, pareceram extintos, destruídos, perdidos de modo recuperável – até que um golpe de sorte coletivo os recuperou. Ou até mesmo aqueles que sobreviveram a uma provável destruição antes mesmo de terem tempo de angariar leitores, e que só vieram a ser conhecidos e lidos por um golpe de sorte do destino muito tempo depois de serem escritos.
Os exemplos desta categoria são muitos porque, bem, infelizmente, boa parte da narrativa da literatura universal é uma história de desaparecimentos. Obras obrigatórias em bibliotecas do mundo antigo hoje não existem mais. O único testemunho que sobrou desses trabalhos está em outros livros que chegaram até nós e que os mencionam ou mesmo os criticam. Estamos aí, por exemplo, com A Odisseia de Christopher Nolan no cinema, filme baseado no poema atribuído a Homero – sendo que não há verdadeiro consenso sobre quem foi Homero ou mesmo se foi um único indivíduo. Ao menos, seus livros sobreviveram, o que não é o caso de outro poeta lendário de existência incomprovada que teria vivido no século VIII a.C.: Eumelo de Corinto, autor de épicos como Corínticas, Europia e Titanomaquia. Seu trabalho já era considerado perdido no século II pelo geógrafo Pausânias – aliás, a única coisa que parece ter sobrevivido de seu trabalho é um trecho de um hino a Apolo que Pausânias cita em seu Descrição da Grécia. Também a obra poética de Safo se perdeu, restando apenas fragmentos.
Não à toa, um livro de Aristóteles, um tratado sobre a comédia e o riso, está no centro da grande “aventura intelectual” de Umberto Eco, O Nome da Rosa. Aristóteles, considerado na Idade Média o grande filósofo do mundo grego, em seu tratado da Poética, anuncia a intenção de falar também sobre a Comédia, algo que não se sabe se fez ou não, dado o grande número de obras produzidas por ele próprio ou por seus alunos que não existem mais. No romance de Eco, uma biblioteca de uma abadia italiana contém a última cópia conhecida desse livro, e é sua leitura que vai provocar, uma a uma, as mortes de monges ávidos pelo seu conhecimento.
Antiguidade
O livro narrado por Eco em O nome da rosa é ficção, mas outro texto do mundo grego ancestral associado a Aristóteles também foi dado como perdido por séculos antes de ser reencontrado há poucos séculos: A constituição de Atenas. Misto de livro histórico e tratado político, teria sido escrito na academia de Aristóteles (embora haja versões díspares sobre se ele meteu a mão na massa em sua escrita ou apenas orientou seus alunos a fazê-lo) como parte de um projeto maior de analisar e descrever as constituições de todas as cidades autônomas do mundo grego, projeto que não se sabe se foi concluído. O livro era mencionado aqui e ali, mas, como muitas obras de Aristóteles, era desconhecido até que parte de seu texto foi encontrada em manuscritos no Egito em 1879 – mais tarde, um manuscrito muito mais completo foi também.
Também Arquimedes teve duas obras muito comentadas, mas consideradas perdidas: O método dos teoremas mecânicos e Ostomachion, descobertas num palimpsesto encontrado em 1899 numa biblioteca da Igreja Ortodoxa Grega em Istambul. Um palimpsesto é um texto escrito em uma folha de pergaminho raspada ou lavada para novo uso, já que essa moleza que temos hoje de papel abundante e barato não existia na Antiguidade, e fabricar material de escrita (inclusive a tinta) era um processo longo, artesanal e laborioso. Muitos dos primeiros escritos, aliás, nem eram feitos em papel, e sim em tabuletas de argila, madeira ou – na melhor das hipóteses para nós os modernos, já que duraram mais – em pedra.
É fácil entender por que tantas das obras desaparecidas pertencem ao mundo antigo: as cópias eram feitas à mão, o que demandava tempo. O papel era escasso, não havia impressora em escala industrial. Mesmo a ideia de uma “biblioteca particular” não era comum – as bibliotecas costumavam ser públicas, compilações de atas legislativas ou bibliotecas mais parecidas com o sentido que damos hoje, de um edifício com muitas obras para acesso da comunidade, normalmente doadas por governantes. Os poucos exemplos conhecidos de cidadãos particulares com coleções de rolos de pergaminho ou dos ainda não muito usados códices eram poucos – Lionel Casson, em um livro muito interessante sobre o tema, Bibliotecas no Mundo Antigo, chega a citar alguns, como Aristófanes de Bizâncio ou Calímaco de Cirene, este último responsável por um dos primeiros sistemas de catalogação bibliográfica de que se tem notícia.
Assim, quando uma biblioteca se perdia, não era raro que com ela desaparecessem os poucos exemplares de uma obra existentes não só num raio de quilômetros, mas do mundo inteiro. Que hoje haja tecnologias para “desdobrar” digitalmente amplas bibliotecas de manuscritos encontradas depois da erupção do Vesúvio em Herculano, cidade vizinha a Pompeia, projeta uma esperança de que mais desses textos venham a ser redescobertos no futuro.
Casos recentes
Mas também há casos modernos de livros escritos em períodos de crise e autoritarismo que são redescobertos depois de anos. A II Guerra, absurdamente recente se comparada com a Antiguidade clássica, é pródiga de exemplos, e não apenas o do caso mais famoso, o do Diários de Anne Frank, só publicado ao fim da guerra, em 1947, por Otto Frank.
Irène Némirovsky, por exemplo, uma escritora judia francesa de origem ucraniana, escreveu ainda no calor da hora da ocupação da França pelos nazistas um romance sobre a ocupação que foi salvo da destruição porque foi preservado por suas filhas, que escaparam do Holocausto – ao contrário da escritora. O conteúdo de seus cadernos só seria de fato analisado e o livro só seria publicado no início deste século, como Suíte francesa.
Caso semelhante é o do recentemente lançado no Brasil O passageiro, escrito por Ulrich Alexander Boschwitz em 1938, narrando um período levemente anterior ao de Suíte francesa. No romance, um negociante judeu vê, angustiado, a ascensão do nazismo à sua volta enquanto tenta fugir do país andando de trem de um lado para o outro. Outro texto cuja existência era desconhecida – já que Boschwitz, como Irène Némirovsky, não sobreviveu à Guerra. E que hoje nos dá ressonâncias assombrosas e algo arrepiantes da escalada do fascismo que se testemunha outra vez em escala global.
Escrever, no fim, é um testemunho. Por vezes, olho para histórias como essas como um farol de esperança de que nossos próprios testemunhos sobrevivam às longas noites que inevitavelmente virão. Em outras ocasiões, me dou conta de que escrevemos hoje no ar, nas ondas etéreas do mundo digital, e manuscritos ou originais impressos são cada vez mais raros, o que prenuncia um grande silêncio futuro.
Na dúvida, eu diria, imprima…