
Semana passada, almoçando com meu pai em Lisboa, ele olhou nos meus olhos e disse que ainda me vê como uma criança. Fiquei aliviada com a constatação, porque tenho trinta e três anos de vida, uma casa, uma família, uma empresa, rugas de expressão na testa… e não me sinto exatamente adulta.
Mas, afinal, o que nos torna adultos?
É somente o tempo de existência na Terra? A transição física que ocorre na adolescência? A quantidade e qualidade das nossas experiências? As responsabilidades que nos acometem?
Vejo pessoas com seus quarenta, cinquenta anos, e enxergo traços de crianças/adolescentes em suas atitudes, em suas maneiras de lidar com situações que as desafiam. Às vezes olho para o meu pai, com seus sessenta e cinco anos de idade, e consigo ver a criança que ainda nele habita.
Quando era pequena, olhava os adultos ao meu redor com admiração e respeito, supondo-os seres de outro nível, diferentes de mim, e que, quando eu chegasse a essa fase, também eu seria distinta de quem era naquele momento. Bom, cresci e, sinceramente, ainda sou aquela mesma criança, menos inocente, mais responsável, menos flexível, mas ainda somos uma única consciência.
Quando adotei meus cães, Sol, e, depois de três anos, Lupo, dei um passo em direção à maturidade. Faz então sete anos que sou responsável por outra vida, e isso muito me transformou. Os encargos diários, moldar a vida em torno deles, os sacrifícios (não poder passar seis meses seguidos no Brasil, por exemplo)… mas, mesmo assim, não consigo me enxergar mulher-feita — apesar de suspeitar que a adultez seja o momento em que percebemos que os adultos da nossa infância também estavam inventando tudo na hora e torcendo para dar certo.
Penso nas gerações futuras, que vão nascer e crescer imersas em inteligência artificial, telas, realidades virtuais e tecnologias que ainda nem conseguimos imaginar. Como será que a (falta de) experiência e conhecimento vão afetar essa transição? A maturidade será adiantada ou adiada? Não sei a resposta, mas o caminho será muito diferente do meu — que tive uma infância totalmente offline, assim como o meu foi distinto daquele que moldou a minha avó, mãe aos dezessete anos, num mundo hoje irreconhecível.
Quem sabe, no próximo século, alguém com trinta e três anos, criado inteiramente por telas e IAs, vai almoçar com o pai e ouvir a mesma frase que eu: “Ainda te vejo como uma criança”. E vai sentir, como eu, um certo alívio, uma certa permissão para que ele continue sendo exatamente quem é.