
Como nas temporadas das séries de TV, em que aparecem personagens diferentes para bagunçar geral e dar mais emoção às histórias, nos deparamos com uma nova ameaça relacionada às mudanças climáticas a cada ano. As ondas de calor, a falta de chuva ou as tempestades com volumes de água nunca vistos não foram absorvidas e chegaram, parece que para ficar, as ventanias.
Estava em um restaurante em São Paulo comemorando meu aniversário, no final de julho, quando os celulares meu e de minhas amigas começaram a apitar com mensagens da Defesa Civil avisando sobre a chegada de ventos fortes. Só então percebemos que o início de tarde ensolarada tinha se transformado, em menos de uma hora, em algo sinistro, com céu fechado e um misto de poeira, folhas de árvores e sujeiras em geral voando do lado de fora.
Apenas mais tarde, porém, saberíamos dos estragos feitos pelos ventos no Sudeste do país. Ali onde estávamos, a ventania somente causou espanto e muitas risadas sobre os avisos que chegam em nossos celulares sem precisão ou orientações claras, nos fazendo não dar muita bola para eles. Vivemos em uma megalópole, onde é comum recebermos mensagens da Defesa Civil dizendo para nos abrigarmos porque há risco de chuvas fortes na Região Metropolitana de São Paulo, enquanto olhamos para cima e o sol brilha sem ter sido avisado de nada.
Na semana passada, porém, ao assistir a um painel da São Paulo Climate Week sobre futuros possíveis para cidades resilientes, ouvi a jornalista e ambientalista Claudia Visoni ressaltar o perigo dos ventos, “o mais rápido e o mais imprevisível dos eventos climáticos”. Lembrei das imagens de cadeiras e guarda-sóis voando nas praias, telhados destelhados, uma caixa d’água caindo de cima de um edifício, pessoas sem conseguir se segurar. Mas Claudia foi ainda mais incisiva ao lembrar que qualquer coisa nessa situação pode virar um projétil e nos alcançar, e citou o caso de uma árvore atingida por pedaços de madeira que atravessaram seu tronco como lanças. Imaginei a própria árvore caindo sobre pessoas e automóveis, como recentemente aconteceu com um amigo na avenida Doutor Arnaldo, aqui pertinho de casa. O alerta da ambientalista foi claro: em caso de ventos fortes, é preciso se abrigar imediatamente, para não ser atingido por algo ou ser carregado pelos ares.
Segundo Visoni, entre os desafios urbanos que precisamos enfrentar, está a adaptação cognitiva aos acontecimentos. Se antes eram eventos raros, hoje, calor, chuva e ventos extremos podem nos matar de diferentes maneiras. Avisos como os da Defesa Civil, em que pese a necessidade de se aprimorarem em relação à intensidade e à localização do perigo, precisam começar a ser levados a sério e não ser motivo de chacotas, como fizemos minhas amigas e eu durante nosso almoço.
Enquanto escrevo este texto, na sexta-feira (7/8), vejo notícias sobre os estragos da passagem de um ciclone extratropical na costa brasileira e de uma frente fria no continente. Até onde acompanhei, uma pessoa havia morrido e ao menos cinco ficaram feridas no Rio Grande do Sul, enquanto as ameaças de ventanias de um ciclone-bomba suspenderam aulas em cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Cresci em um tempo no qual brasileiros achavam que problemas como furacões, ciclones e tufões eram de outros locais do mundo. Vivíamos em uma terra abençoada, sem vulcões, terremotos e ventos mortais. Isto mudou e termos como ciclone-bomba passarão a fazer parte de nossos temas de conversas e de avisos, como enchentes, enxurradas e inundações. Que sejam termos conhecidos, sem nunca, porém, serem normalizados.
Nossas cidades precisam de adaptação real e urgente para os atuais e novos riscos que ainda vão vir. Precisamos de infraestrutura – saneamento básico, transporte, saúde, moradia – preparada para suportar eventos extremos e uma Defesa Civil ágil para os momentos de crise. Tudo isso só virá com uma população que saiba cobrar, mas também fazer sua parte ao não se colocar em perigo.