
“Os netos são a forma como a natureza nos concede uma fração de imortalidade, permitindo que a nossa memória continue a caminhar no mundo quando as nossas próprias pernas já não o puderem fazer.”
Gabriel García Márquez
Eu, avô. Tornei-me avô às 12h01 da última quarta-feira e, em um único instante, ao olhar o rosto de meu neto no colo, o tempo cronológico perdeu o sentido. É desgastante a vida produtiva sob o capitalismo; tememos a finitude que espreita a maturidade, mas a chegada de uma nova vida desorganiza o mundo para reorganizar tudo o que sabemos sobre afeto, memória e futuro. Faço isso aqui depois que, na semana passada, Junot Matos presenteou-nos com um texto sobre paternidade (disponível AQUI). Ele estava feliz pela passagem do Dia dos Pais e compartilhou conosco sua experiência. Eu, de minha parte, já sou feliz por compartilhar este dia graças a E., meu filho, e D., minha esposa. Mas agora tenho mais uma data para comemorar ao seu lado: o Dia dos Avós! É o que faço aqui: compartilho com meus três ou quatro leitores que me tornei avô. Avô. Avô. Avô. A-V-Ô.
Pense no meu contexto: eu, de origem pobre, com um pai “não declarado” na minha Carteira de Identidade, criado apenas por minha mãe, vendedora de porta em porta, vivi uma infância em que ter uma família só podia ser considerado uma dádiva. O destino, porém, tem seus modos de consertar as coisas. Eu, se não tive um pai que compartilhasse minha formação, pude exercer a paternidade com E., meu filho, ao encontrar minha companheira de vida, D., dividindo com ela a alegria de educá-lo – só um pai sabe o número de vezes em que cuidou da saúde do filho e preparou Nescau com Trakinas no café da manhã. Agora, orgulho-me do homem adulto em que ele se transformou, formado, advogado, iniciando com sua esposa um novo ciclo em sua vida com a chegada do seu primeiro filho. A forma como essas coisas aconteceram só encontra paralelo na arquitetura que o destino traça em nossas vidas.
Pegos de surpresa
Eu e minha esposa estávamos na estrada, voltando de Cidreira para Porto Alegre, quando recebemos a notícia. Ora, não é que o moleque resolveu adiantar-se? A., minha nora, previa o nascimento para o final de agosto, mas tudo aconteceu muito rápido. Não sei como E. acompanhou o parto na sala de cirurgia e a tensão inicial do nascimento sem desmaiar, mas ele estava ali, ao seu lado, fazendo exatamente o que sua esposa e seu filho esperavam dele. Minha mãe não teve essa experiência no meu nascimento, pois sou filho de mãe solo e raras vezes vi meu pai, o que narrei em minha autobiografia em “Sem indicação de importância” (Clube dos Autores, 2026). Gostaria muito que ele estivesse presente naquele momento de minha mãe, assim como E. esteve no nascimento de seu filho, junto de minha nora.
É que há muita energia positiva nesse instante: é a vida se confirmando mais uma vez. Você olha o mundo e ele parece teimar em caminhar para o fim, mas a vida continua a se renovar. Como nos lembra a filósofa Hannah Arendt, “o nascimento de uma nova geração é o milagre que salva o mundo da ruína do tempo. É a garantia de que a história humana se renova continuamente, inscrevendo o passado no devir do futuro.” Esse milagre acontece com um mundo inteiro concentrado na sala de cirurgia de um grande hospital. Estou na estrada. Se eu e minha esposa queríamos estar ali compartilhando? Com certeza. Se estávamos torcendo para tudo dar certo? Evidentemente. Só de ver a cena, a emoção já é intensa para um pai; imagine para um recém-avô. É a forma como o universo vai ajustando as coisas, não? Tira a experiência de uns em determinado momento da vida para entregar um pouco ali logo adiante, no meio da confusão de uma cidade marcada por disputas políticas entre esquerda e direita, de um país que expõe sua desigualdade e de um mundo em que a insensatez humana leva o planeta à beira do caos.
Aguardo agora, ansiosamente, o próximo dia 26 de julho para comemorar meu primeiro Dia dos Avós. Alinho-me, simbolicamente, a Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus na tradição católica, data pleiteada por Maria Elisa (1926-2007), uma portuguesa avó de seis netos. Eu tenho apenas um, mas faria o mesmo que ela, iria até o Papa reivindicar esse direito. E, para não deixar por menos, alinho-me também a Karl Marx, que teve 13 netos – entre eles, o mais famoso, Jean Longuet, jornalista e ativista político francês. Darwin também teve netos, dez ao todo, destacando-se Sir Charles Galton Darwin (físico) e Gwen Raverat (artista e escritora). Nesse universo de pensadores com netos às dúzias, tenho um e estou profundamente satisfeito. Se meu filho e minha nora, com o passar do tempo, se dispuserem a ter mais, terão meu eterno agradecimento.
A origem das palavras
Ser pai já é muito bom; ser avô é igualmente extraordinário. Conhecemos a origem do termo “pai”, do latim pater, mas poucos sabem que seu plural, parentes, designava originalmente tanto o pai quanto a mãe. Hoje designa uma família. Já a origem da palavra avô é desconhecida por muitos: deriva do latim avolus, que evoluiu para o nosso vocábulo atual. Sua raiz, awo, significa guardião, parente masculino diferente de pai na raiz indo-europeia, e foi o povo do Império Romano que originou o diminutivo afeitado de avolus, forma diminutiva para expressar o afeto e proximidade dentro de casa. Sou o pequeno vovozinho; como D., minha esposa, é a pequena vovozinha. O Império Romano caiu e o português arcaico criou o avô e a avó como temos hoje. Mas há algo mais: na origem, avolus se diferencia de pater porque a avosidade nasce no afeto, não no poder. Enquanto o termo pater (pai) no Direito Romano estava associado à patria potestas (o poder legal, disciplinar e proprietário sobre a casa), o avolus representa a autoridade desarmada. É a figura do cuidado purificado do dever biopolítico de punir, enquadrar e socializar.
Ser avô não é apenas um evento familiar; é um fato existencial no contexto social, que pode ser compreendido pela interseção entre a sociologia da velhice, a psicologia das relações intergeracionais e a teoria social pós-estruturalista. Tenho um neto: ele desorganiza e reorganiza o mundo de meu filho e o meu; mas também indica os novos significados que os indivíduos assumem no ciclo da vida dentro do capitalismo contemporâneo. Velhos e crianças são improdutivos do ponto de vista do capital, exceto quando os primeiros se voltam para o mercado de trabalho, geralmente precário e de aplicativo, ou quando os segundos servem de motivo de aumento de consumo para seus pais.
Esse consumo não para de produzir coisas inúteis para as mães. O aquecedor de lenço umedecido produz um lenço que esfria em segundos após sair do aparelho; o talco em pó é contraindicado por pediatras devido ao risco de o bebê aspirar o pó fino e desenvolver problemas respiratórios. Nem pense na lixeira anti-odor de fraldas, que exige refis caros e específicos e que não substitui a lixeira comum com tampa esvaziada diariamente, que resolve o problema sem custo extra. Termômetro de banheira? É desnecessário porque a pele da mãe avalia a temperatura da água de forma mais rápida e precisa. Essas roupinhas de bebê com botões nas costas podem ser bonitas, mas não são práticas para trocar e causam desconforto. Piores são as joelheiras antiderrapantes para engatinhar, que prendem a circulação ou escorregam, ou os travesseiros para recém-nascido, contraindicados para evitar sufocamento. O cortador de unha com lupa ou luz de LED produz um reflexo que mais atrapalha do que ajuda, e o aquecedor de mamadeira portátil demora muito para esquentar – um recipiente simples com água morna (banho-maria) funciona de forma muito mais rápida. Será que as mães precisam de tudo isso?
A fantasia de continuidade
Tenho um neto. Sei que essa criança viverá o mundo à sua maneira, com suas alegrias e tristezas, mas sei também que serei parte de sua memória porque sou seu avô como D. também será por ser sua avó. Como escreveu Miguel de Unamuno: “Ver-se nos filhos é ver o próprio sangue; ver-se nos netos é contemplar a própria transcendência, a vitória da vida sobre o esquecimento.”
Se, para Slavoj Žižek, o sujeito contemporâneo é atravessado pelo Real lacaniano – aquilo que resiste à simbolização, a iminência do trauma ou da própria morte –, na minha velhice, ao ajudar a criar meu neto, minha finitude deixa de ser uma presença assustadora para alimentar a memória de uma criança. Sei que vou morrer, mas consola-me saber que permanecerei na memória dele. Este neto é minha fantasia de continuidade. Não só minha, mas de minha esposa, filho e nora.
Ele dá-me a esperança de que, após a minha finitude, além de E., mais alguém se lembrará de mim. Sobrevivo através da minha linhagem, e essa forma de lidar com o nada e com a morte é discutida por Žižek em obras como O Marionete e o Anão (Relógio d’Água, 2006) e Eles Não Sabem o Que Fazem (Zahar, 1992). Trata-se de recalibrar o fantasma da imortalidade: sobreviver por meio do outro. Meu filho passará pela mesma experiência quando vierem seus netos. Não fui criado por meu pai; a forma como o universo compensou essa perda foi tornando-me pai de E., que me aceitou como padrasto quando seu próprio pai biológico se separou de minha esposa. Inicio uma linhagem que não tive, exceto pelo lado materno. Ingresso no gradiente das gerações: vejo E. tornar-se pai e eu mesmo me torno avô, o que significa que eu e E. somos empurrados cada um uma casa adiante nesse jogo de amarelinha da finitude. Quando ele puder ouvir minhas histórias, falarei das coisas que eu e D. vivemos juntos com E., nossas viagens por Gramado, Cidreira, Rio de Janeiro e Buenos Aires, e dos livros que escrevi. Quantas histórias para contar, quanta memória para o pequeno assimilar! Hoje, apenas meus sobrinhos conhecem parte dessas memórias – e pouca coisa, já que vivem imersos em seus celulares e telas. Tenho mais de 60 anos e, assim como D., começamos a passar adiante o bastão das gerações.
O primeiro colo a gente nunca esquece
Estou na casa do meu filho. Pela primeira vez, carrego meu neto no colo. D. já fez isso um dia antes no hospital, mas, devido às regras da instituição, minha vez ficou para o dia seguinte em sua casa, o que só aumentou minha expectativa. Na foto registrada de D. no hospital, ela aparece de máscara, dada a fragilidade de um recém-nascido. Na minha vez, já em casa e com um notável ganho de peso – 200 gramas –, posso finalmente segurá-lo. O que faço, assim como D., é me entregar de forma desacelerada à sua observação. É a vida contemplativa de que fala Byung-Chul Han: só nestes momentos conseguimos nos reconciliar como gerações. Só no instante em que paramos e saímos da rotina da vida veloz para observação é que saímos desse mundo caótico capitalista. Com o bebê nos braços, vivencio a pequena revolução que o ato encarna: o sentido do envelhecimento é este; não estou mais em crise existencial. Envelhecer é olhar os netos com atenção. Na verdade, nunca estive, mas, como afirma Han em Sociedade do Cansaço (Vozes, 2015), estamos esgotados pelo imperativo da produtividade contínua. Tive sorte, trabalhei com o que gosto. Nem todos conseguem isso. Nossa sociedade informatizada nos torna narcisistas e reduz a experiência com o outro – alerta que tento fazer aos meus sobrinhos quando os vejo imersos nas telas.
Estar com meu neto nos braços, cuidando para que não haja a menor inclinação em sua cabeça e acolhendo seu corpo delicado, é a vita activa de que fala Han ressignificada: não há aqui qualquer preocupação com a lógica da eficiência de mercado, não há produtivismo algum em segurar um neto no colo. Esse gesto resgata o tempo ritualístico e a presença pura, alívio necessário para o esgotamento existencial da velhice sob o neoliberalismo. Não, você, aposentado, não tem a obrigação de continuar trabalhando para cumprir a cartilha do “olhe como ele ainda é produtivo”. Você pode – e deve – ter um espaço dedicado apenas a desfrutar da convivência com seu neto.
Fundação da microtribo
Estou no sofá da sala do meu filho; minha nora, ao meu lado, entrega-me o bebê. Ela ajusta minha posição e ensina-me a segurá-lo com segurança. Observo sua delicadeza enquanto ele mal abre os olhos, enquanto é acolhido por mim. Tenho certeza de que ela será uma grande mãe porque já tem o primeiro requisito: a atenção centralizada. Num mundo de atenção flutuante, onde passamos o olhar rapidamente por telas, isso é um pequeno milagre. Seu pai o observa, ajuda-o, troca ideias com minha nora: ele também irá se destacar em sua criação. Ele é um parceiro, outra raridade em tempos individualistas. Pudera: o bebê é agora o novo catalisador da família. Nos termos de Michel Maffesoli em O Tempo das Tribos (Forense Universitária, 2014), é como se agora fundássemos nossa nova unidade familiar de pais e filhos como uma microtribo. Ao contrário do que sustentam muitos críticos, segundo ele vivemos uma era marcada pelo pertencimento comunitário e pela afetividade, e esse processo recomeça aqui, com este neto. Gosto deste otimismo mafessoliano. Nesse sentido, o bebê revigora eu e D. como casal. Sou o avô: como nas tribos de Maffesoli, quero ser visto por ele como o ancião, o guardião da memória familiar – de onde viemos e o que fizemos para sobreviver como família. Eu lhe contarei as aventuras de E. quando criança, como ele é, e ele rirá; D. falará de como era seu estudo, e ele o fará com mais afinco. Estaremos eu e D. por perto, mas sem assumir a figura patriarcal de autoridade que E. aprenderá a desempenhar ao lado de sua esposa.
Sou avô. Espero exercer minha avosidade, conceito que descubro agora que existe e que designa minha nova condição: tenho direitos e deveres em relação ao meu neto, estando na linha reta em segundo grau. Comentei com minha nora que há muitos parentes e amigos querendo vê-lo, e ela respondeu: “Nem todos, senão vira fila; só os VIPs”, reconhecendo o direito meu e de minha esposa de convivermos com ele na medida certa para o casal. É que, depois dos pais, auxiliamos no desenvolvimento socioafetivo da criança e na preservação da memória familiar. Eles precisam passar pela experiência de serem pais, esse é o seu momento. Dos sacrifícios dos primeiros dias, passando pela descoberta dos sinais ocultos nos gestos – arrotou? Está com azia? As alegrias do crescimento e conquista da independência, eles se formarão numa das mais antigas profissões do mundo, a de pais.
Avosidade socioafetiva
Descubro também outro conceito relevante, o de alimentos avoengos: eu e D. ajudamos a família do meu filho na estrutura de criação. Na minha infância de família não convencional, era minha tia que tinha esse papel. Agora somos nós, eu e D., que ocupamos esse lugar. Já estamos viabilizando algo fundamental, como um plano de saúde. Mas nada disso supera aquele instante no meu colo, essa avosidade socioafetiva que me leva às lágrimas por dentro. É o primeiro dia, o primeiro momento de carregá-lo. Lembrarei disso a ele no futuro, como D. faz com E.: “Eu te carreguei no colo”. Essa cumplicidade virá com o tempo, nesse “estar junto” que integra a avosidade. Não se diz que os avós são “pais com açúcar”? Na verdade, a ideia de que os avós estragam os netos precisa ser atualizada: as facilidades que oferecemos nada mais são do que nossa forma de afrouxar o controle biopolítico por meio de uma ética do afeto.
Aqui é preciso lembrar a lição de biopoder e subjetivação de Michel Foucault: queira ou não, a família do meu filho constrói sua parentalidade com base em obrigações de educar, socializar e impor limites. O mundo insere meu neto no universo social através deles, que são os pais; eu, no exercício da avosidade, realizo um desinvestimento dessa função disciplinar. É claro que sua parentalidade envolve dar muito amor, e eles terão a alegria que criar um filho provoca, a que nasce quando carregam pelos braços seu filho e meu neto enquanto o balançam em um parque qualquer. Mas aqui trata-se, nos termos de Foucault, de imaginar em seus termos uma nova tecnologia de si: meu cuidado e o de minha esposa se exercem sem a carga da vigilância biopolítica que recai sobre os pais. Afrouxo a disciplina pelo afeto – é claro que os pais o têm, mas eles têm o dever de equilíbrio. Não é apenas o “cuidado de si” (epimeleia heautou), de que Foucault trata em seus últimos cursos, mas um cuidado afetivo com o Outro. Eles são o lugar dos afetos e das regras; eu e D., de certa… frouxidão!
Que mundo meu neto verá?
Exercito esse cuidado também por urgência. O tempo se esvai e o período que me resta para conviver com meu neto é limitado. Para um idoso como eu, o futuro é incerto. Vejo a ascensão da extrema-direita no meu país; meu neto terá de conviver com o mundo que sobrar dessas crises. Tenho clareza dessa realidade, assim como Jean-Pierre Dupuy em seu Do Catastrofismo Esclarecido (Pour un catastrophisme éclairé, Éditions du Seuil, 2002). Ambos buscamos uma metafísica do tempo para agir no presente: ele, para diagnosticar os tempos de crise; eu, pela necessidade de construir uma ponte intergeracional que preserve a memória de nossa família. Espero que o sentido da civilização e a nossa história familiar sobrevivam. Meu neto é a promessa de que o futuro é possível.
É também a oportunidade de meu filho ressignificar os limites vividos no exercício da paternidade: nenhum pai é perfeito e filhos não vêm com manual de instruções. Ele vai errar como eu errei, eles também têm dúvidas e necessitam conversar com alguém. Sempre estaremos por perto para isso quando quiserem. A avosidade permite a reconfiguração das relações entre pais e filhos ou, ainda, expressa a geratividade de que fala o psicanalista Erik Erikson em sua teoria do ciclo vital: com mais de 60 anos, cuidar da próxima geração é um movimento natural de maturidade. Não sou apenas eu quem faz bem ao meu neto; ele faz um bem enorme a mim e à minha esposa, afastando-nos do isolamento existencial e do desespero.
Uma diferença de geração
Somos de diferentes gerações, exatamente como é a série de ficção científica Star Trek. Cresci assistindo à Série Original (1966–1969), liderada pelo Capitão James T. Kirk no comando da USS Enterprise (NCC-1701) e sou, portanto, da primeira geração. Meu filho pertence à segunda geração, espelhada pelo Capitão Jean-Luc Picard em A Nova Geração (1987–1994), a bordo da Enterprise-D. Meu neto aproxima-se da terceira geração, a retratada em Prodigy (2021–2024), animação sobre jovens alienígenas que encontram uma nave abandonada da Frota Estelar no Quadrante Delta. A comparação torna-se interessante: meu neto é como Dal R’El, o jovem que assume o comando da experimental USS Protostar e trilha uma jornada de amadurecimento. Na animação, o Holograma Janeway atua como mentora estratégica, o de bússola de Dal R’EI, exatamente como minha nora exerce em sua família. Já meu filho lembra Jankom Pog, o Engenheiro-Chefe: teimoso e questionador, mas com um talento técnico notável – mas, no caso do meu filho, é voltado ao Direito, não à engenharia. Eu rio da comparação, tanto faz. Assim como Pog mantém os motores da nave funcionando, meu filho mantém a estrutura da casa firme em situações críticas. A reestruturação das fronteiras entre gerações imita a ficção ou o contrário? A chegada do meu neto transforma meu filho em pai e a mim em avô. Se para um pai como eu o envelhecimento pode parecer declínio, virar avô é “audaciosamente ir aonde nenhum pai jamais esteve”.
Todas essas imagens me vêm à mente quando penso no meu neto. A família nuclear moderna, analisada por Foucault e Marx, organizava-se em torno de estruturas rígidas e disciplinares, onde a geração antecedente acumulava patrimônio para a seguinte. Pude fazer isso com minha esposa, construindo ao longo do tempo o patrimônio que um dia será deles, como a casa de Cidreira – ou será que ele preferirá Xangri-lá? Ai… Eram tempos em que os avós encarnavam a moral tradicional, como o personagem Otoniel (interpretado por Tony Ramos), patriarca conservador na novela “Quem ama cuida”. Essa figura, contudo, pertence mais à teledramaturgia do que à vida contemporânea.
Avosidade nos fins dos tempos
Como nos ensinam Gilles Lipovetsky, Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han, hoje, na sociedade do desempenho e do individualismo, as narrativas tradicionais tornaram-se fluidas. A função de controle deu lugar ao direito de desfrutar da convivência com os netos sem o peso da disciplina – o “direito de afagar e brincar”. Recuso, contudo, a cobrança de um envelhecimento “hiperativo” ou “produtivo”. Tenho meus projetos de aposentadoria, sim, mas eles não respondem à lógica do capital. Se o mundo contemporâneo exige trabalho excessivo dos meus filhos, eu e D. assumiremos com gosto o papel de rede de apoio.
Espero que, nesta avosidade contemporânea, possamos superar uma das contradições do nosso tempo. Enquanto o discurso midiático celebra a paternidade e a terceira idade sob a ótica do consumo e do bem-estar, a prática mostra que o cuidado intergeracional ainda recai intensamente sobre mães e avós. D. já se colocou à disposição para ajudar, e eu também o farei, mesmo tendo quase sido reprovado no teste de segurar o recém-nascido. Sei que as exigências do mercado de trabalho sobre as jovens mães, como minha nora, são pesadas. A ausência de uma rede pública universal de creches ainda é um gargalo social, embora me orgulhe de ver meu filho exercer uma divisão equitativa das tarefas domésticas. Nestes primeiros dias, ambos estão com os olhos cansados de não dormir. Nos próximos, estaremos na retaguarda se eles precisarem. É a discussão de Boris Groys em Filosofia do Cuidado (Âyne, 2023): quem deve ser o sujeito do cuidado? Devo cuidar de mim mesmo e de meus filhos ou confiar nos outros, no sistema, nas instituições?
Não é só familiar
Frente a uma sociedade que estimula o individualismo, o ato de cuidar dos netos afirma a importância das redes de afeto. Temos a responsabilidade de cuidar de nossos filhos e netos, mas, se adoecermos, quem cuidará de nós? É por isso que precisamos de mais políticas públicas. A ampliação das licenças e o acesso à educação infantil são pautas centrais, até porque a presença e o vínculo afetivo dos pais nos primeiros meses de vida do bebê exigem presença. Educar não pode ser servidão compulsória, mas um exercício de afeto libertador. Pai e mãe precisam de momentos de descanso para evitar o esgotamento, e os avós cumprem papel decisivo nessa sustentação. Como nos lembra a cientista política Joan Tronto em seu Caring Democracy (NYU Press, 2013), a criação das futuras gerações e o cuidado na velhice não são custos ou fardos privados, mas imperativos de justiça social e acolhimento da vulnerabilidade humana.
Concluo voltando ao início. Eu, avô. Meu título parafraseia a obra Eu, Robô, de Isaac Asimov. Se o autor trouxe uma dimensão humanista e filosófica à ficção científica por meio da Dra. Susan Calvin, a principal robopsicóloga da U.S. Robots and Mechanical Men, Inc., a empresa que fabrica os robôs com cérebros positrônicos, é especialista nas Leis da Robótica. Eu desejo trazer essa mesma sensibilidade para a avosidade: assim como a junção do “Eu” com o “Robô” enfatizou a autoconsciência de seres antes vistos como meros mecanismos, a afirmação “Eu, avô” resgata a subjetividade dos avós no mundo contemporâneo. Ser avós nunca se tratou de ser suporte funcional de uma nova rotina, o que eles ainda são, mas a revolução afetiva, desacelerada e essencial na vida de uma criança. Como diziam os antigos, verdadeiros “pais com açúcar”.