
Vou começar este texto contando uma história real: quando o PT se afundou em casos de corrupção e se envolveu em alianças que boa parte dos seus filiados condenava, um quadro importantíssimo do partido, de quem sou (ou era, não sei ao certo) amigo, afastou-se da vida partidária. Era e é um baita cara! Confesso que ele já havia contado com o meu voto várias vezes. Eu até brincava com ele que a minha ida às urnas era como o burrinho do verdureiro fazendo sempre o mesmo trajeto. Pois então, quando esse cara incrível se fartou dos malfeitos em seu partido e tomou distância de tudo, eu, que trabalhava num jornal de altíssima circulação, telefonei pra ele e perguntei se não queria me falar, numa entrevista, sobre o seu desconforto. Depois de alguns instantes de denso silêncio reflexivo, ele declinou do convite, argumentando, com a sinceridade que nos permitíamos, que as suas declarações seriam utilizadas oportunisticamente pelo campo ideológico contrário, a direita que combatera durante décadas de vida pública, inclusive tendo sido preso e torturado durante a ditadura por esse motivo, por ser um radical, com suas firmes convicções, que eu, particularmente, tanto admirava. Eu entendi, respeitei e não insisti.
O resumo dos resumos é: quero evitar a cizânia onde precisa haver união. E, convenhamos, o meu motivo é muito mais profundo e justificável do que a preservação da unidade de um partido político. A comparação é até injusta, porque eu falo de identidade.
Dito isso, uso este espaço para responder a alguns leitores que me veem bradando contra o antissemitismo revestido de antissionismo sem criticar o Benjamin Netanyahu. Primeiro, devo lembrar que em várias oportunidades falei sobre minha rejeição ao atual premier israelense, em quem eu não votaria e contra quem estaria nas ruas protestando se vivesse em Israel, porque o rejeito não só pelo belicismo, mas como mau governante e em razão também dos seus aliados. Mas por que a minha crítica talvez seja tímida neste momento? Pelo mesmo motivo que levou o meu antigo amigo a rejeitar uma entrevista que seria mal usada por oportunistas. Assim como eu o entendi na ocasião, quero que meus críticos me entendam agora.
Sou avesso frontal à hipocrisia e tenho a sinceridade como todo um lema de vida, e a verdade objetiva e verificável como permanente meta profissional. Então, quando penso na carnificina em Gaza, sempre pondero que, por mais que eu veja ali graves crimes de guerra, aquilo foi uma reação ao inadmissível e tão invisibilizado atentado terrorista (pogrom, na verdade) de 7/10. O que houve em Gaza foi uma triste matança, como várias outras que ocorrem por aí e nem sempre são lembradas ou chamadas de “genocídio”. Também pondero que o grupo terrorista e obscurantista Hamas usa civis como escudos da mesma forma que recorre a homens-bomba. Não há dúvida quanto a isso. Logo, existem reflexões a serem feitas e cuidados a serem tomados quando abordamos esse assunto.
Houve uma situação, num grupo do WhatsApp, em que alguns dos demais integrantes, todos eles progressistas, começaram a me classificar como “belicista” (algo que nunca fui e sempre repudiei) porque punha em dúvida várias críticas à guerra contra o Irã. Sim, sou pacifista de formação e convicção e, sendo assim, eu jamais defenderia os aiatolás e seus proxies como fazem alguns “progres” (vejam bem a complexidade contida nesse assunto). Mas… até por isso, não consigo admitir que os aiatolás, o que há de mais reacionário, obscurantista e violento no mundo, responsáveis por atentados terroristas inclusive aqui em Buenos Aires (Embaixada de Israel e AMIA, em 1992 e 1994), tenham armamento nuclear. Quem faz atentados assim é capaz de explodir em maior escala, com a mesma “lógica”.
Logo, tenho dúvidas, muitas dúvidas. Mais: permito-me tê-las!
O Irã governado pelos aiatolás só se difere da Alemanha nazista pela semântica. Quando houve um choque geral (e muito justificado, inclusive contou com o meu escandalizado endosso) porque o Trump falou em “eliminar uma civilização”, me assustou que essas mesmas pessoas em choque normalizam que os aiatolás tenham como POLÍTICA OFICIAL VERBALIZADA DE ESTADO, e não apenas como um garganteio vazio e inconsequente, fazer exatamente isso, mas contra Israel. Os caras querem aniquilar Israel e matar os judeus. Isso é “eliminar uma civilização”, algo tão feio quanto eliminar persas. Mas ninguém aí dá bola, porque seguem a onda. E, enfim, a imposição da raça ariana pelos nazistas é idêntica ao “califado” que querem impor no mundo.
Igualzinho, só mudam o endereço e o idioma. São nazistas repaginados, assim como os “antissionistas” são antissemitas repaginados. E 3+3=6.
Por tudo isso, não me sinto à vontade para usar o Netanyahu, por mais que o rejeite, como tema prioritário das minhas reflexões neste momento de avassalador e crescente antissemitismo. Não gosto dele e estou torcendo MUITO para que, nas próximas eleições parlamentares, um novo grupo político, aberto, arejado e disposto ao diálogo pela paz, assuma o comando do meu lar ancestral, do lar do meu povo. Isso inclusive está entre as minhas orações. Mas não quero detonar o cara quando algumas das suas ações são derivadas de informações às quais não tenho suficiente acesso.
Tem um livro (e filme) sobre o Mossad em que antigos chefes, já velhinhos, falam sobre suas ações mais espetaculares. Chega a arrepiar quando alguns deles dizem que as suas ações mais espetaculares foram as que não apareceram, foram as que evitaram que algo muito grave ocorresse. E são perguntados sobre quais são esses episódios, mas, com um sorriso maroto, dizem que ninguém nunca soube e nem saberá. Ou seja, top secret. E daí? E se o Irã está quase chegando ao ponto de ter condições de varrer Israel do mapa e matar a minha gente? Prefiro a prudência. E, de mais a mais, creio que este é um momento que exige união do povo judeu.
Ressalvo que essa explicação toda é para aquelas pessoas de boa vontade, que reconhecem a legitimidade cristalina e a importância inquestionável de Israel existir e se defender. Essas pessoas, quando me perguntam sobre a minha suposta tibieza em relação ao Netanyahu, merecem uma justificativa. Não me importo de pôr os pontos nos is sobre esse assunto. Já quem nega o direito de Israel existir e se defender, algo historicamente essencial e moralmente inquestionável diante dos séculos de perseguições, segregações e violências contra os judeus em todos os cantos, só merece o meu desprezo e (digo com convicção) a minha inimizade.
Ao escrever sobre esse assunto, sempre penso na Segunda Guerra Mundial e fico impressionado com a falta de aprendizado desta gente. O premier britânico Neville Chamberlain chegou a ser imensamente popular por sua postura de evitar a guerra, conhecida como “apaziguamento”, em especial após o acordo de Munique, em setembro de 1938. Após selar esse acordo com Adolf Hitler, Chamberlain foi recebido em Londres por multidões que o aplaudiam. “Peace for our time” era o seu lindo slogan. Resultado: Hitler foi muito além dos Sudetos (na Checoslováquia), que Chamberlain tolamente aceitou ver ocupados em nome da tal pacificação. Mas Adolf era Hitler. Papou toda a Checoslováquia e depois abocanhou a Polônia.
De “astuto”, Chamberlain se tornou “débil” para o senso comum.
Quem foi o herói? Um sujeito conservador e elitista (muitos o acusam de racista), detestado pelos progressistas, chamado Winston Churchill, que foi pra cima de Hitler e, com Roosevelt e Stalin, salvou o mundo. John Lennon, que nasceu em 9 de outubro de 1940, chamava-se John Winston Lennon, em homenagem a ele.
Percebam como a vida é dinâmica e complexa.
E está acima de tudo.
Obs.: o mesmo raciocínio sobre Netanyahu, evidentemente, serve para os extremistas judeus que ajudam a inviabilizar na Cisjordânia, de forma brutal, o ambiente para um acordo que estabeleça a incontornável solução de dois Estados, a única forma de haver justiça, com paz, segurança e reconhecimento mútuo.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.

