
“Afora os defuntos no coreto e os guardas de Pigarço nas calçadas, o largo da praça está completamente deserto de humanidade. Sente-se, porém, que nas casas em derredor, por trás de venezianas e postigos cerrados ou entrecerrados, vultos humanos esquivos espiam para fora.”
Erico Verissimo, em Incidente em Antares.
Este era para ser mais um ensaio sobre minha viagem a Lisboa, esse exercício de análise sócio-histórica de nossa época mediada pelo distanciamento geográfico e contemplação urbana que ofereço a meus leitores. Contudo, a realidade de Porto Alegre impõe-se mais uma vez e recusa o meu silêncio. Diante dos meus olhos, os de um aposentado que habita e pensa esta capital, vejo desdobrar-se a célebre metáfora do “Anjo da História” (Angelus Novus) formulada por Walter Benjamin em suas Teses Sobre o Conceito de História (1940). É conhecida a história: inspirado na aquarela de Paul Klee, Benjamin descreve um anjo impelido por uma tempestade que sopra do paraíso e o empurra irresistivelmente para o futuro, enquanto o desastre acumula diante dele ruína sobre ruína. Sou esse anjo de Klee na Porto Alegre contemporânea: constato que o sossego e o paraíso de minha aposentadoria não me conferem imunidade contra a visão da barbárie; a tempestade da realidade me assalta mais uma vez o meu pensamento.
Sim, meu caro leitor, desculpe mais uma vez ter de fugir aos temas de meus ensaios recentes. Este é mais um texto sobre um fato que me incomodou esta semana. Como o olho do anjo de Klee, eu vejo a ruína real e que se apresenta na ação deliberada da Prefeitura, executada sob o manto da “eficiência de gestão” na semana passada e que correu as redes sociais: a demolição do coreto localizado junto ao Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o Julinho, na Praça Piratini. Sou juliano e, por isso, sinto-me no direito de oferecer ao leitor minha modesta opinião sobre o sentido desta destruição. Enquanto ZH noticiava de forma protocolar, com ênfase na argumentação da Prefeitura, o SUL21 destacava a complexidade dos problemas e significados do coreto. Na minha opinião, e posso estar errado, a destruição daquela estrutura é a síntese da política urbana implementada pela prefeitura. Não se trata de um episódio isolado de intervenção viária ou de zeladoria rotineira: a demolição daquele coreto expõe um modo de ser, é a imagem exata da postura ideológica agressiva e higienista neoliberal do governo municipal diante do espaço público, que opera através do desmonte sistemático dos fragmentos identitários da capital. Sob a égide de uma suposta “decisão de gestão democrática”, o parecer técnico que embasou o ato demolidor atualiza a exata ideologia do progresso criticada por Benjamin – a de um progresso que caminha lado a lado com o silenciamento, a barbárie e a opressão dos vencidos. Aqui, os vencidos são a memória de uma geração de julianos da qual faço parte.
O Coreto como Instituição do Comum
Nada da cobertura jornalística a que tive acesso conseguiu aprofundar os sentidos daquela demolição. É que, para compreender a extensão da perda representada pela derrubada do Coreto do Julinho, faz-se necessário reconstruir a própria história dessas estruturas no desenvolvimento urbano de Porto Alegre. Para começar, a introdução dos coretos na capital gaúcha acompanha a evolução política e estética das cidades brasileiras na virada do século XIX para o século XX, como detalha a pesquisadora Stella Barthel em seu estudo sobre os coretos no Brasil (disponível AQUI).
Identifico dois momentos principais. O primeiro localiza-se nas origens dessas estruturas que integraram os esforços de embelezamento inspirados na Belle Époque europeia, período em que antigos descampados e mercados de carretas foram convertidos em jardins românticos estruturados sob o modelo paisagístico francês. O surgimento do Parque Farroupilha é um exemplo, produto da transformação de um campo onde paravam os carreteiros que chegavam a Porto Alegre. Nesse período, a Praça da Matriz possuía um coreto que funcionava como eixo central da sociabilidade romântica do centro da capital. Eram palcos elevados onde bandas civis e militares executavam concertos gratuitos aos finais de semana, promovendo o encontro visual e a distinção social dentro de um espaço público rigidamente ordenado.
O segundo ocorre com a expansão demográfica e a modernização da cidade a partir da década de 1920, quando essa função de centralidade musical migrou gradativamente para novos equipamentos de maior porte, culminando na posterior criação do Auditório Araújo Vianna. No decorrer do século XX, os coretos remanescentes sofreram um processo de ressignificação contemplativa: tornaram-se nichos de pausa cotidiana, locais para o consumo e descanso. No entanto, o Coreto do Julinho, erguido em 1987, em pleno período de redemocratização do país, operou uma subversão radical nessa lógica de sociabilidade aristocrática ou puramente passiva. Ele não nasceu para abrigar bandas militares, mas sim para servir de suporte material à efervescência política, à rebeldia juvenil e às dinâmicas culturais da comunidade estudantil. Embora a estrutura física datasse do final da década de 1980, a Praça Piratini já funcionava, desde as gerações que antecederam a minha — a da turma de 1982 — como o território simbólico de nós, “julianos”. Era o local dos trotes, das festas de aprovação, dos batizados simbólicos no antigo “laguinho”, de rodas de violão e, fundamentalmente, das assembleias do grêmio do Julinho.
Por isso, o Coreto do Julinho encarna a destinação coletiva definida por Pierre Dardot e Christian Laval no conceito de Comum. Em sua obra Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI (São Paulo: Boitempo, 2017), os autores delimitam de forma precisa que o Comum não deve ser confundido com um “bem” em si, dotado de qualidades intrínsecas, e tampouco com a propriedade estatal ou pública tradicional. O Comum é o princípio político de co-obrigação que emerge estritamente do “agir comum” — isto é, da atividade coletiva que institui regras de uso, de compartilhamento e de autogestão social em um lugar. O coreto pertencia aos julianos não por um título de propriedade da Prefeitura, mas por uma apropriação imaterial e simbólica contínua. Ele era uma instituição do Comum Escolar produzida pela ocupação cotidiana dos estudantes, que transformaram o mobiliário urbano tardo-modernista — com sua base funcional de concreto, pilares de sustentação limpos e linhas geométricas planas — em seu território de resistência cultural e política imune às lógicas imediatas de acumulação do capital.
A racionalidade neoliberal
Por esta razão, a destruição do espaço do Comum na Praça Piratini não se configura como um erro administrativo episódico, mas sim como um desdobramento coerente do histórico de ações da atual gestão municipal. A racionalidade neoliberal que caracteriza a Prefeitura de Porto Alegre opera através daquilo que a teoria política identifica como o cercamento dos comuns (enclosures), um processo de privatização, mercantilização e higienização dos espaços de uso coletivo. O método repete-se com regularidade cirúrgica em diferentes pontos da geografia urbana da capital. Assistimos a essa exata lógica de espoliação quando o município avançou sobre o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Parque Harmonia), transfigurando uma área verde de livre circulação e preservação do patrimônio cultural tradicionalista em um megaempreendimento comercial privado, sob a justificativa de dinamização econômica e turismo. O solo público foi pavimentado e submetido à lógica do consumo pago. Testemunhamos a mesma lógica na subsequente tentativa de concessão do Parque Farroupilha (a Redenção) à exploração da iniciativa privada para a construção de estacionamentos subterrâneos e exploração comercial de seus recantos, iniciativa barrada temporariamente apenas pela intensa mobilização da sociedade civil.
Essa mesma lógica de espoliação avança de forma implacável sobre as estruturas de amparo social da capital, como na tentativa da Prefeitura de alienar o prédio histórico da sede da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), localizado na Avenida Ipiranga. Seu precedente, da mesma administração, é o leilão e a iminente ameaça de demolição do edifício histórico da Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov), ambos marcos da arquitetura modernista funcional da cidade, cuja venda atende ao desejo de expansão imobiliária das incorporadoras da capital. Agora, sob o pretexto ideológico da racionalização imobiliária, produz-se a narrativa falaciosa de que o imóvel da FASC se encontra “ocioso”, forma do município articular a entrega de um patrimônio público estratégico ao apetite das grandes incorporadoras, justamente o órgão que deveria ser o responsável por políticas sociais na Praça Piratini. Essa tentativa de desmantelar a centralidade física da autarquia responsável pela gestão do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) significa o interesse do governo municipal em fragmentar, terceirizar e empurrar o atendimento da população vulnerável para a periferia da visibilidade urbana. Em termos de Dardot e Laval, a mercantilização da sede da FASC representa o cerceamento definitivo de um “comum assistencial”, justamente o responsável pelas políticas de proteção social que deveriam estar em ação junto à população da Praça Piratini, que ali está precisamente porque a capital vivencia o agravamento crônico da miséria, da fome e do aumento da população em situação de rua. Sob a égide neoliberal, tudo o que é de uso comum e que se constitui como espaço de troca social livre — sem a mediação da catraca ou do consumo — é classificado como disfuncional, obsoleto ou oneroso, justificando a sua entrega ao mercado ou a sua eliminação física. Ora, não era de um problema social no local que os demais moradores se queixavam no programa Mais Comunidade?
A fantasmagoria do consenso
Para legitimar a demolição do Coreto do Julinho, a Prefeitura mobilizou o programa Mais Comunidade, lançando mão daquilo que Slavoj Žižek define como a armadilha da neutralidade técnica ideológica. Em O Sublime Objeto da Ideologia (Civilização Brasileira, 2024), Žižek demonstra que a ideologia pura opera com maior eficácia precisamente quando assume a roupagem da apoliticidade, do pragmatismo que encontra seu equivalente na noção de “mera gestão de zeladoria” empregada pela Prefeitura. Quando o discurso oficial do Executivo afirma que a retirada do mobiliário respondeu a laudos de engenharia da SMSUrb e a reclamações de segurança feitas por moradores e comerciantes locais em “caminhadas comunitárias”, produz uma fantasia de neutralidade. Essa é a forma pela qual o Estado neoliberal esquiva-se de enfrentar as contradições estruturais da desigualdade — a ausência de políticas públicas para a população em situação de rua, a miséria urbana e a vulnerabilidade social que se manifestavam na Praça Piratini — e transfere o problema para a materialidade do objeto.
Aplica-se a lógica tragicômica do bode expiatório material: destrói-se o suporte físico (o coreto) para simular que a desordem social foi extirpada. Como apontaria Žižek, vigora o princípio ideológico de que, se o sofá gerou a traição, joga-se fora o sofá. A pobreza, contudo, não se extingue com o coreto demolido; ela simplesmente se deslocará para a próxima esquina sob a forma daquilo que Žižek e Zygmunt Bauman classificam como os “resíduos humanos” produzidos pela exclusão capitalista global. Zygmunt Bauman, em sua obra Vidas Desperdiçadas (Jorge Zahar Editor, 2005), conceitua os “resíduos humanos” ou as “vidas desperdiçadas” como o subproduto inevitável da modernidade líquida e da globalização capitalista; são populações que perderam suas funções econômicas de produtoras e consumidoras, tornando-se “supérfluas” e desprovidas de lugar na engrenagem social. E sim, elas também estavam no coreto.
Ao confrontarmos essa moldura teórica com a realidade da Praça Piratini, a analogia revela-se explicativa. O público de rua que habitava o Coreto do Julinho — indivíduos em extrema vulnerabilidade, desempregados crônicos e corpos marcados pela miséria — corresponde exatamente àquele contingente que Bauman descreve como as vítimas do “problema da eliminação do lixo humano”. Para a racionalidade neoliberal da Prefeitura, essas pessoas não são cidadãos portadores de direitos a serem integrados por políticas de assistência ou habitação, mas sim resíduos visuais e sociais que maculam a estética mercadológica da cidade. É preciso lembrar que estão previstos grandes lançamentos imobiliários nas proximidades, como o Trend Downtown Nano, onde era a Gaúcha Car, e, portanto, sua eliminação funciona como espécie de profilaxia. Procede-se a uma técnica de “limpeza e gestão de resíduos”: destrói-se o abrigo para forçar a dispersão desses corpos indesejados, ocultando o refugo humano produzido pelo próprio sistema para salvaguardar a ilusão de um espaço urbano asséptico e funcional e assim garantir as vendas.
Essa modalidade de intervenção evidencia o colapso do Orçamento Participativo (OP). Porto Alegre, que já foi a capital mundial da democracia deliberativa, hoje experimenta um processo de erosão institucional profunda de seus canais de soberania popular. O OP, estruturado nas décadas de 1990 e 2000, caracterizava-se como um espaço de debate acalorado de ideias e de disputa coletiva por recursos orçamentários entre as diferentes regiões e classes sociais da cidade. Havia ali a presença do conflito democrático e da deliberação soberana. No entanto, as sucessivas gestões alinhadas à cartilha neoliberal promoveram o sufocamento do OP através do contingenciamento de verbas, do esvaziamento de suas prerrogativas deliberativas e do cansaço burocrático de suas lideranças.
O programa Mais Comunidade, lançado com a premissa de superar entraves burocráticos através da “escuta direta”, surge nesse vácuo não como um aperfeiçoamento democrático, mas como o ápice da pós-política e do clientelismo de balcão. Nas caminhadas promovidas pelo Executivo, a soberania popular é substituída pela escuta direta e discricionária do governante, que acolhe demandas pontuais e imediatas de zeladoria sem qualquer debate macroestrutural. O cidadão é esvaziado de sua condição de agente político coletivo e rebaixado ao estatuto de um “consumidor de serviços urbanos” que implora por reparos e zeladoria. A decisão de demolição, tomada sem o conhecimento da direção do Colégio Júlio de Castilhos ou de sua comunidade escolar, atende à demanda de um segmento específico em detrimento do patrimônio simbólico de gerações de estudantes. O Mais Comunidade opera, assim, por uma fragmentação da polis, transformando o planejamento urbano em um balcão de negócios e favores imediatistas, onde o dissenso é suprimido em nome de uma suposta eficiência administrativa veloz.
Uma nova Ordem Policial?
A desarticulação do debate democrático operada sobre os destinos do coreto da Praça Piratini encontra sua fundamentação filosófica na distinção estabelecida por Jacques Rancière entre a Polícia e a Política. Em sua obra referencial O Desentendimento: política e filosofia (Editora 34, 1996), Rancière redefine o conceito de Polícia não como o aparato repressivo estatal, mas sim como a ordem dos corpos que distribui os lugares, as funções, os privilégios e as exclusões. A Polícia é o sistema de legitimação que determina o que é visível e o que não é, o que pode ser dito e o que deve permanecer como mero ruído. Sob a ordem policial do governo atual, o espaço da praça central deve ser um vazio asséptico, pacificado e estritamente funcional, destinado apenas ao trânsito rápido ou ao consumo ordenado.
A Política, em contraposição, emerge apenas quando essa ordem policial é fraturada pelo dissenso, pelo desentendimento (mésentente, p. 45). A Política ocorre quando os sujeitos que não possuem lugar na ordem estabelecida — os estudantes rebeldes, os grêmios, as rodas de violão autogeridas — ocupam o espaço público e afirmam a sua igualdade fundamental, transformando o ruído marginal em discurso político explícito. O Coreto do Julinho vivo era o local por excelência da Política ranciéreana no coração de Porto Alegre; era a quebra da ordem funcional e aristocrática; era lugar de público-alvo de políticas públicas de segurança e assistência social. Ao demolir a estrutura sob o argumento de que ela “não possuía tombamento oficial”, a ordem policial agiu para erradicar o lugar material do dissenso, impondo o silêncio e o vazio como normas de convivência urbana.
Essa engenharia policial e de neutralização do conflito ganha contornos de vigilância totalitária quando observamos a difusão massiva dos novos equipamentos eletrônicos instalados na capital. Sob a justificativa técnica da segurança preventiva e do monitoramento inteligente, a cidade foi inundada por totens de segurança interativos equipados com câmeras de alta resolução integradas ao Centro Integrado de Comando (CEIC). Esses dispositivos funcionam como a atualização tecnológica da ordem policial ranciéreana: operam uma triagem algorítmica e automatizada dos corpos em movimento através de análise comportamental e capacidade para reconhecimento facial. A câmera identifica, monitora e classifica preventivamente quem tem o direito de habitar a orla revitalizada ou os centros financeiros e quem deve ser objeto de abordagem e remoção. Há uma simetria exata entre o ato de triturar o concreto do coreto e o ato de capturar a face do transeunte indesejado na lente digital: ambos compartilham o objetivo pós–político de extirpar a surpresa do encontro humano, domesticar o espaço urbano e anular a possibilidade de qualquer conflito democrático real que escape ao controle estatal.
Em direção a Porto Alegre lisa
O elemento mais perturbador do episódio da Praça Piratini reside na assustadora rapidez com que a demolição foi articulada e executada. Estimo que o lapso temporal entre as primeiras queixas coletadas no balcão do Mais Comunidade e a marretada final tenha durado cerca de um semestre. Essa aceleração do agir estatal adquire inteligibilidade teórica quando confrontada com as teses de Paul Virilio em sua obra Velocidade e Política (Estação Liberdade, 1996). Virilio funda a “dromologia” (a ciência da velocidade) para demonstrar que a aceleração não é um mero subproduto do avanço tecnológico, mas sim a própria essência da dominação política contemporânea. Para o autor, a velocidade funciona como uma estratégia de neutralização espacial: o poder dromocrático avança, reduzindo o tempo de reação dos sujeitos para impor o fato consumado. Estamos diante da Prefeitura Dromológica.
A rapidez na derrubada do Coreto do Julinho opera exatamente como esse dispositivo dromocrático de assalto à polis. Ao suprimir o tempo do debate, da contestação jurídica e da organização estudantil, a velocidade estatal anula a extensão do espaço político. A demolição ágil — que mimetiza o método urgente empregado na derrubada de casarões históricos atingidos por incêndios no Centro Histórico — é um golpe contra o tempo da reflexão. Sob a dromocracia neoliberal de Porto Alegre, o tempo lento da deliberação democrática e da defesa e elaboração de um projeto global de recuperação do coreto é tratado como um estorvo econômico que deve ser rapidamente triturado pela velocidade da máquina.
O esvaziamento físico resultante dessa aceleração sintoniza-se com o diagnóstico de Byung-Chul Han sobre a Estética do Liso. Em A Salvação do Belo (Vozes, 2019), Han postula que o Liso é a marca registrada da nossa contemporaneidade tardia: uma superfície desprovida de negatividade, de resistência, de fissuras ou de asperezas. O objeto liso não oferece oposição; ele convida apenas ao manuseio rápido, ao consumo imediato e ao “curtir” digital. O concreto aplainado e asséptico que a prefeitura instala no piso onde antes se erguia o coreto traduz materialmente essa fobia à negatividade e ao conflito social. A gestão municipal sofre de uma compulsão paliativa. O coreto degradado, marcado pelas pichações, ocupado pelos corpos marginalizados da população em situação de rua e tensionado pelo barulho da juventude estudantil, representava a negatividade viva da cidade — a rugosidade histórica que incomodava o olhar higienista institucional. A demolição funciona como uma cirurgia plástica urbana: elimina-se a rugosidade para criar um espaço liso, despolitizado e instagramável.
Esta Estética do Liso adquire sua real espessura sociológica quando vinculada à teorização de Gilles Lipovetsky em sua obra Da Leveza: rumo a uma civilização sem peso (Amarilys, 2016). Lipovetsky mapeia a transição para uma civilização marcada pela desmaterialização, pela fluidez e pela liberação de todas as cargas e texturas pesadas do passado. Na esfera do urbanismo hipermoderno, as cidades tendem a se desfazer dos monumentos densos, das arquiteturas que exigem permanência e das memórias materiais coletivas que ancoram a identidade nelas, substituindo-os por estruturas efêmeras, transparentes e de fácil remoção — como as academias ao ar livre de ferro galvanizado padronizado. O Coreto do Julinho possuía a gravidade material e histórica do passado tardo-modernista. Na ótica da psicanálise lacaniana transposta para a análise política por Žižek, ele funcionava como um ponto de almofada (point de capiton): o nó material que amarrava o fluxo contínuo e flutuante dos significados urbanos à identidade coletiva oral da comunidade escolar. Ao triturar, inclusive a sua placa histórica de inauguração, o poder público liquida esse peso memorialístico denso em nome da hipermodernidade da leveza descrita por Lipovetsky. O vazio plano resultante é infinitamente mais leve, fluido e fácil de monitorar, controlar e, futuramente, privatizar. É possível imaginar, em breve, um desses contêineres de mais um “empreendedor” local. O capitalismo precisa continuar!
A produção do esquecimento neoliberal
Essa dinâmica de aniquilação patrimonial encontra eco nas formulações de Henri-Pierre Jeudy em duas obras. Em Os Espelhos das Cidades (2005), Jeudy destrincha como as intervenções urbanísticas contemporâneas operam uma espécie de “espelhamento narcísico” e cenográfico onde o poder público busca extirpar qualquer elemento que denuncie a degradação, o conflito ou a falha social. A cidade neoliberal precisa espelhar uma imagem idealizada de si mesma — uma imagem de ordem, asseio e atratividade mercadológica para o turismo e o investimento imobiliário. O coreto ocupado pela vulnerabilidade social estilhaçava esse espelho idealizado da prefeitura; sua remoção é o restabelecimento da transparência cenográfica do simulacro urbano.
Complementarmente, em Memórias do social (1990), Jeudy expõe o paradoxo da conservação estatal: as instituições protegem e patrimoniam apenas aquilo que conseguem “congelar” dentro de critérios estéticos rígidos de beleza oficial ou de valor histórico monumental — como o ecletismo do século XIX presente no Pavilhão Oriental do Parque da Redenção, nascido na década de 1940 sob o plano de Arnaldo Gladosch. Essa preservação seletiva e museificada serve como álibi para que o Estado execute, no cotidiano, o sufocamento da memória viva e oral que pulsa nos afetos coletivos e na fricção das ruas. Ao alegar burocraticamente que o coreto do Julinho “não era tombado”, o poder público aplica uma violência simbólica brutal, desconsiderando o clamor da comunidade estudantil e sancionando a destruição de uma camada densa da espessura histórica da cidade porque ela não se enquadrava nas categorias consagradas de “monumento sagrado”. Na perspectiva de Jeudy, a destruição do Coreto do Julinho é um sintoma nítido da produção do esquecimento para a simulação de uma ordem vazia.
Qual futuro?
A velocidade da destruição do coreto na Praça Piratini deixa minha geração desprovida de referências geográficas e afetivas fundamentais, em um cenário onde sequer dispomos de um inventário definitivo sobre o número dessas estruturas no Brasil, cuja contagem demandaria um mapeamento patrimonial minucioso em cada um dos 5.568 municípios. Embora arquitetos e historiadores estimem a existência de milhares de coretos remanescentes devido ao padrão de planejamento urbano das praças da matriz na virada do século XIX, observa-se uma disparidade gritante na forma como as diferentes capitais enfrentam a pressão do capital imobiliário. Enquanto outras metrópoles brasileiras — mesmo imersas nas contradições brutais do capitalismo contemporâneo, como Porto Alegre — tensionam seus instrumentos de tombamento e preservação para manter de pé seus coretos (como São Paulo no Parque da Luz, com sua estrutura de ferro fundido; o Rio de Janeiro, na Vista Chinesa, com seu estilo chinois; Belo Horizonte, na Praça da Liberdade; e Salvador, no Largo do Campo Grande), a Prefeitura capitula integralmente à lógica da sanha predadora das incorporadoras imobiliárias, preferindo converter a memória social em espaço asséptico. Resta agora, salvo melhor juízo, o isolado coreto do Parque Gabriel Knijnik, na Zona Sul, protegido apenas por sua inserção em uma região de maior poder aquisitivo e blindagem comunitária recente.
Resta-nos encarar a ironia trágica desse simulacro participativo operado pela governança municipal. Utilizando-se da retórica democrática da “escuta direta de base” do Mais Comunidade para legitimar a destruição física do espaço comum, converte demandas legítimas por assistência social e segurança pública em autorizações expressas para o apagamento patrimonial. Se uma caminhada de bairro de fim de semana e um parecer burocrático são suficientes para colocar abaixo o palco de quarenta anos da história política jovem da capital, nenhum bem coletivo ou espaço de sociabilidade popular está seguro em Porto Alegre.
Quais serão as próximas vítimas dessa higienização policial da paisagem urbana? Se o critério supremo para a existência de um bem público passa a ser a sua total imunidade às contradições geradas pela miséria que o próprio sistema produz, a ameaça estende-se sobre todo o tecido vivo da cidade. Levando-se o caso do coreto ao limite paradoxal, o que impedirá o município de promover o cercamento definitivo e a privatização dos recantos internos do Parque da Redenção, sob o argumento técnico de controle de segurança? O que impedirá a derrubada dos viadutos históricos da capital, como o Viaduto Otávio Rocha ou o Obirici, cujos vãos inferiores servem frequentemente de refúgio improvisado para a população invisibilizada que a prefeitura se recusa a acolher com habitação social? Sob a égide da “cidade lisa”, até mesmo o icônico Mercado Público de Porto Alegre e a Orla do Guaíba correm o risco iminente de ver suas últimas texturas de sociabilidade popular e histórica inteiramente soterradas para dar lugar a vitrines gourmetizadas, catracas eletrônicas e concessões excludentes. Como deixou passar ZH, ao triturar o Coreto do Julinho, a palavra deu a senha para os sentidos envolvidos. Porto Alegre não limpou uma praça; pavimentou a rota de seu próprio esquecimento institucional, triturou sua memória. Não é o que o capital faz às pessoas? As… tritura? Bem-vindos a Porto Alegre triturada, nova fase do desenvolvimento da cidade! Ela é uma espécie de Antares de Veríssimo, é uma outra cidade do absurdo, mas das políticas neoliberais! Enquanto a sociedade não eleger representantes de esquerda comprometidos com a memória, somente poderemos imaginar que, na praça vazia e sob o piso liso, irão desfilar agora os fantasmas de nosso patrimônio histórico, enquanto a sociedade olha com medo de suas janelas.
Nota do Autor:
A citação de abertura foi obtida com auxílio de IA Gemini e confirmada com IA Perplexity.
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