
Nos parágrafos que precederam os que seguem, busquei acenar para você com os entendimentos que estou formulando ao longo dessa minha jornada em torno do que pode vir a ser a filosofia. Claro que é um ponto de vista meu. Como tal, limitado e suscetível a críticas e discordâncias. Devo seguir examinando os temas que você me propôs em seu escrito.
Quanto a um método mais acertado para trabalhar com as filosofias no chão da escola, eu prefiro dizer a você que este não existe. Até podemos entender que diversas linhas de pensamento parecem compartilhar uma base racional comum. Porém, os procedimentos e abordagens dos diferentes filósofos e escolas de pensamento, no que tange às análises empreendidas em torno da compreensão e questionamento das suas diferentes realidades, foram diversos. A coexistência, o diálogo honesto e a complementaridade dos modos de produzir conhecimentos é o que efetivamente torna possível o alargamento da compreensão humana. Desconfio que podemos considerar o mesmo nessa disposição de ensinar e aprender a filosofar.
Recorde que Freire lembrou que ensinar é criar possibilidades para produção de conhecimentos. Não vou passar batido no seu lamento: cinquenta escassos minutos de aulas e toneladas de atividades burocráticas”. O profissional docente na escola é um malabarista todo o tempo, dizia. É verdade que existem diários infindos, eventos, ENEM, reuniões, planejamento e correção de atividades de aprendizagem, entre outras responsabilidades. Ufa! Muita coisa para uma disciplina pouco valorizada. Recordei que, enquanto eu idealizava nossa presença na sala de aula, você trazia o chão da escola cheio de percalços e limitações. Sondava-me até que ponto o sistema e as elites que “definem” a educação pública vão admitir a formação filosófica das juventudes das classes populares. Olhe, rigorosamente não vão permitir nenhuma juventude, porque mesmo para as elites desejam que ela seja tão somente um verniz cultural. Concordam com as filosofias nos currículos desde que se apresentem descontextualizadas e sem utilidade. Daí a importância de compreendermos a educação como prática social e política. Por isso, a pertinência de assumirmos um “lugar de fala”, uma perspectiva de formação e de mundo na qual almejamos atuar.
Necessário atentar para as faixas etárias, as realidades contextuais, os diferentes níveis de escolaridade, as demandas existenciais etc. Ainda assim, devemos considerar que o método não é uma receita de bolo que, se aplicada exatamente, supostamente oferecerá o resultado que projetamos. Neste caso específico, o método é tão somente um mapa de navegação que vai nos apoiar no caminho traçado. Com isso, não estou relativizando a necessidade de utilização de métodos no ensino. Somente quero evitar sua absolutização, de um lado; e, de outro, a redução da didática à utilização de métodos e técnicas. A aula precisa ser devidamente planejada em sua totalidade. Mesmo sabendo que também o planejamento não é uma camisa de força. É importante recordar que o coração, o afeto e a singularidade da pessoa são partes constitutivas da belezura do ensinar e aprender.
Em tal diapasão, passo a tentar dizer alguma coisa quanto à pergunta que você me faz sobre qual filósofo me parece mais sensato que você estude para se colocar dentro de uma perspectiva contemporânea. Olha, eu não sei! Não creio que essa escolha deva ser feita previamente por alguém que ainda está nos portais do Curso de Filosofia e na abertura ao filosofar. Essa preocupação parece precipitada. São muitos os pensadores e diversas as escolas de pensamento. São vários os temas e os sistemas. Não há um melhor ou mais adequado. Não há um ultrapassado e/ou desvantajoso. O que existe é você em um tempo e espaço determinados tentando colocar-se proativamente. Que fenômenos mais impactam você? Que tipo de questões você está percebendo nos gritos do seu solo? Que pessoa você deseja tornar-se nas diversas dinâmicas de sua existência? Vai com calma, tateia passo a passo o chão que lhe sustenta e, certamente, entre erros e acertos, você haverá de forjar onde colocar o seu pé. Não receie o erro; ele é componente importante do seu estar sendo. É fundamental conceber esse diálogo seu com os filósofos, bem como seus usos em sala de aula. Isso tem o potencial de transformar a aula em um espaço de mediação entre tradição conceitual, experiência vivida e pluralidade de vozes filosóficas, sem hierarquizar previamente quem tem o “direito” de pensar.
Eu somente me permito lembrar a você que as filosofias não falam exclusivamente grego ou alemão. Conversam também em idiomas das bandas das Américas, da África, da Ásia. Nem é somente Ocidente, senão que também Oriente. Não é coisa exclusiva de homens e de brancos. Mulheres, pessoas de ascendência africana e povos originários existem com potentes filosofias. Enfim, ela não é de ninguém. Filosofias que são infâncias em constante devir, que se dizem no plural, mesmo que singularizando as existências. Filosofias de povos originários, povos tribais, de mulheres etc. foram desconsideradas em nosso universo ocidentalizado e tratadas como se não existissem.
Lembra que você discorreu acerca dos compromissos da filosofia com os povos dominadores? Dizia-se decepcionada e perplexa. Infelizmente não tenho como negar sua percepção. Ela pode, esteve e ainda está ao serviço de óculos dominadores que se servem dela para justificarem seus desmandos. Todavia, não é exclusivamente isso! Você precisa dizer qual é o seu lado nessa intensa e grande batalha social e política na qual estamos inseridos e descobrir que há uma demanda social enorme dos povos empobrecidos, historicamente sentenciados a nada serem. Pois é! Há filosofias que buscam constituir-se desde esses povos. Falar com eles e sobre eles. Ecoar seus clamores, seus questionamentos, seus falares. Desconstruir justificações que se apregoaram como verdadeiras. E que bom que você consegue perceber-se indignada. Não perca isso, jamais. Defina qual é seu lugar de fala, as bandeiras a serem defendidas no chão da escola e vá em frente. Não se iluda, haverá sempre alguém insatisfeito com você. Seja coerente, firme e não tire o pé do chão. Tenho certeza de que você entende que morar na filosofia implica viver perigosamente.
Permita uma palavrinha sobre o tema da inutilidade da filosofia. A filosofia não tem nenhuma utilidade prévia. Não é uma ciência como a geologia e a antropologia. É um conhecimento rigoroso que busca fundamentar-se na raiz dos seus problemas, tentando, ao máximo, olhar sua totalidade — se é que é possível; porém, sem o dever de produzir verdades verificáveis e universalmente válidas. Dessa forma, se utilidade for sinônimo de efeito prático, eu assevero que é nenhum. Acredito que a formulação de perguntas que buscam perscrutar continuamente os fenômenos que compõem a vida e o vivente é uma grande tarefa filosófica. Pois pode promover a reflexão que contribui para a compreensão das realidades, dos seres humanos e dos sentidos da própria existência. Isso corrobora o entendimento de que há uma primazia da ética sobre a pedagogia, a ontologia e a metafísica. Considere, então, que, embora o filosofar não tenha uma utilidade prévia, ele é útil. Por isso, creio que a filosofia poderá ser uma importante mediação para examinar a vida, problematizar e entender as articulações constitutivas entre o ser humano e o mundo — da sua dinâmica nos contextos de tempo/espaço. Além disso, poderá auxiliar no processo de formação pessoal, social e política de cada jovem.
Minha amiga, meu postulado da filosofia, enquanto mediação inquiridora das realidades, apoia-se na ideia de que questões filosóficas são aquelas que todos os seres humanos se fazem e de cujas respostas se servem para orientar sua forma de ser gente, agir, pensar, valorar, organizar a vida social. Dizem respeito: à realidade em geral, ao seu ser, a seu possível sentido (ontologia); ao ser humano e ao sentido de sua existência (antropologia filosófica); ao agir humano, ao justo, ao bom, ao certo (ética); ao pensar e produzir conhecimentos (teoria do conhecimento); ao fato de os seres humanos viverem em sociedade, ao poder e à liberdade (campo da filosofia social e política); ao belo, à beleza, à sua busca e produção-representação pelos homens (campo da estética); ao nosso processo de argumentação-raciocínio (lógica); e tantas outras questões como as referentes à linguagem, à história, à educação.
Deixa-me terminar essa cartinha repetindo o que muitas vezes disse em nossas aulas: ninguém se torna professor(a) no atacado. Faz-se no varejo diuturno do chão da escola, do terreno arenoso, tenso e, muitas vezes, gostoso da sala de aula. Também insisti muito com vocês que nenhuma formação, por mais sofisticada e competente que seja, consegue dar conta do cotidiano escolar. Doutores existem sem a menor sensibilidade para a educação e o educar. Para ensinar filosofia, é preciso enxergar o chão da escola e o construir a aula com e para pessoas – sempre dentro do amplo contexto social, político e econômico. Ele é mais rico, mais exigente, mais provocativo. Nele tornamo-nos, de fato, professores/as. Não tenha medo de viver a escola, com e apesar de seus limites, pois, antes de sermos professores/as de filosofias, somos docentes da escola.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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