
Esta frase emblemática de João Guimarães Rosa diz muito deste tempo inquietante e ameaçador que estamos vivendo no mundo por conta de líderes soberbos e sem escrúpulos. Mas se é de coragem que precisamos, vamos lá!
A afirmação está na obra-prima do escritor, “Grande Sertão: Veredas”* (José Olympio Editora, 1956), livro que traz a história de amor entre dois jagunços, Riobaldo e Diadorin, no sertão. É uma reflexão sobre a necessidade de enfrentarmos os altos e baixos da existência, as ameaças, os medos e as mudanças imprevisíveis. Em destaque, a capacidade humana de reagir, buscar a alegria e a transformação no meio da tristeza e do desânimo. A frase de Riobaldo, o narrador, mostra que a vida é cheia de curvas, subidas e descidas, íngremes ou não, jamais uma linha reta. É um processo de “esquentar e esfriar”, que exige força interna para seguir adiante. “Viver é perigoso”, afirma o autor, mostrando que o medo é natural e não impede a nossa apatia, ação ou reação. Assim a literatura nos ensina e nos estimula a não abandonar a caminhada, apesar dos obstáculos, porque temos capacidade de nos adaptar e seguir encarando os desafios com firmeza.
Fiz esta introdução para dizer que as semanas que passaram foram desafiadoras em vários sentidos. Momentos de muita alegria e encontros estimulantes. Momentos de tristeza, perda, despedida e encontro com pessoas de quem gosto muito, mas convivo pouco e gostaria de conviver mais. É impossível estar bem o tempo todo, mas é possível transformar o desconforto em resistência. Depois de muitas andanças e muita confusão, consegui finalmente encaminhar minha carteira de identidade nova e encarar o ‘risinho espantado’ do atendente quando me olhou, perguntou o meu tamanho e respondi: 1,10 m.
As diferenças ainda assombram!
Ao voltar para casa aliviada, com a certeza de que tenho certidão de nascimento atualizada e até ‘identidade’, li dois pequenos textos do psicanalista mineiro Altair Sousa, e a afinidade foi imediata. Os textos falam o que sinto em relação às diferenças que nos constituem e à inclusão que buscamos, ainda com muitos desafios e enfrentamentos, porque o preconceito não dá trégua. Precisamos nos virar, sim! E nos viramos com coragem e determinação, sem máscara! Vamos aos textos!
– “Acho uma judiação essa crença de que as pessoas devem estar bem o tempo todo. Somos feitos de carne, sentimentos e imprevisibilidades. A carne vai doer, as emoções vão se desequilibrar, vamos nos decepcionar tantas vezes com a vida. E isso não significa fracasso. Fracasso, no meu entender, é a gente colocar a falsa máscara da felicidade e fingir que está tudo bem.”
– “Nós, g@ys, aprendemos desde muito cedo a nos virar, inclusive com as nossas dores. Estar na nossa pele é viver constantemente a sensação de desconforto, não por sermos quem somos, mas porque a sociedade nos faz sentir assim. Estamos sempre alertas… sempre estrangeiros. E, ainda assim, seguimos. Transformamos dor em resistência, silêncio em voz e exclusão em pertencimento. Porque existir, para nós, nunca foi apenas viver, sempre foi também um ato de coragem”.
E assim é! Resistência. Voz. Pertencimento.
Por isso e muito mais, gosto de comemorar aniversários e brindar à vida. Não tenho dúvidas de que encarei a minha condição, o nanismo, com coragem, determinação, sem máscara. Não foi fácil, mas o enfrentamento me fortaleceu e me transformou em porta-voz de uma condição física que já colocou muita gente na invisibilidade. Hoje faço parte de uma comunidade que se reconhece, valoriza a diversidade e se comunica do sul ao norte do país na busca por mais acessibilidade, inclusão e respeito, essenciais para uma vida digna.
Antes do ponto final, uma frase que Tânia Carvalho, amiga muito querida, quase que da vida toda, me enviou recentemente pelo WhatsApp: “Bendita seja essa coragem que faz a gente persistir, até mesmo quando o caminho se mostra estreito!”
———
*O livro foi um presente da Tânia Carvalho, em dezembro de 1986, com uma dedicatória linda: “Lelei querida. Guimarães Rosa, tu bem o mereces. Só tenho medo que tu chegues perto, muito perto desta linguagem. Dele e de ti eu guardo belas recordações. Tua eterna tiete. Tânia”. “PS – Amiga bem secreta!”.
Somos tietes uma da outra. E, nesta época, trabalhávamos juntas na Rádio Pampa/Rede Riograndense de Emissoras Ltda. Eu produzia o programa que ela apresentava à tarde, das 14h às 16h.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.

