
Era um dia lindo de sol, e ele estava indo pro trabalho. Bem que queria ir pra praia. Mas não, tinha que ir trabalhar, como fazia, ao que parece, há milhares de anos.
Chegou na sua mesa e olhou rapidamente os mapas, previsão do tempo e e-mails com milhares de reclamações. Tudo rápido, pra não chegar atrasado na reunião semanal de pauta.
Passou pela sala do café e ouviu de relance o seu nome. Diminuiu os passos e confirmou: sim, a fofoca passivo-agressiva era sobre ele.
Entrou na reunião putaço. Não disfarçou o mau humor e não olhou pra ninguém enquanto os colegas se acomodavam ao redor do chefe. Quando essa merda de bullying vai parar? Por que eu? Nada aqui faz sentido e não posso mais ficar quieto, pensava.
Depois de ouvir os valores das previsões de vendas das franquias, a pauta passou para a inabilidade da equipe de direitos autorais em combater a pirataria e charlatanismo que se espalharam usando alguns nomes da empresa.
Duas horas de uma reunião que poderia ser um e-mail, e, quando o chefe já tinha distribuído as tarefas prioritárias da semana, ele não se aguentou e pediu a palavra.
Levantou, porque precisava ser visto, e solenemente perguntou:
– Quem anda espalhando que eu sou retrógrado??
Saturno, balançando aquele monte de penduricalhos, anéis coloridos e unhas de gel fluorescentes, saiu na defensiva:
– Escuta aqui, bonitão, ninguém aqui fala dos colegas, não. Isso é coisa que os clientes falam…
Marte, sem se importar com a confidencialidade dos protocolos de reclamação, emendou:
– Verdade. A Márcia lá de Piracicaba, o Carlos da Palhoça e mais um monte de gente meteram atestado alegando a sua interferência.
– Tem esse lance da guerra e do estreito fechado também, que começou bem quando parecia que você tava naqueles dias Mercúrio, completou Urano, com sua frieza natural.
– Cara, sério, parem de culpar Mercúrio, isso tudo é teoria da conspiração e falta de terapia dessa gente que não assume as próprias melecas que faz, defendeu Plutão.
Júpiter, sabendo que estavam entrando num terreno nada sólido e tentando tomar controle da situação, decretou:
– Peço gentilmente que você se retire, Plutão. Você é só um estagiário e seu contrato não vai ser renovado.
O chefe Sol, sentindo que não era o centro do Universo daquela conversa, tentou encerrar a reunião. Logo a turma do deixa disso resolveu se manifestar, mas a discussão só aumentou.
Vênus, se sentindo ofuscada, não aguentou e resolveu botar lenha na fogueira também.
– Eu e a Terra somos praticamente irmãs gêmeas, mas vocês só se preocupam em se meter na vida da galera que mora lá, como se não tivesse coisa mais importante pra gente se preocupar!
Netuno, sempre discreto e sem gostar de aparecer muito, resolveu encerrar a discussão com um ataque de sincericídio.
– A verdade, Mercúrio, é que a gente tinha combinado aquele rolê de se alinhar no sábado lá no Pedacinho do Céu da Cidade Baixa, e você nos deu um ghosting nebuloso. Então, sabe como é, a galera mete o pau geral em quem não tá presente.
Mercúrio, visivelmente envergonhado com tudo o que estava ouvindo, lembrou dos bons tempos, de quando a empresa era dirigida por astrônomos e cientistas.
Sentiu saudade da época da inocência, quando as pessoas iam ao planetário só pra ficar olhando pra eles, e os alinhamentos eram um fenômeno científico-visual.
Olha pra gente agora, pensou. Acordo preocupado com o ex-namorado da Jeniffer, que pode voltar, no cuidado pra não deixar o Daniel fazer um negócio ruim com o banco, depois tenho que fazer a Valentina comprar impulsivamente e, por fim, o tanto que tenho que me preocupar com o Enzo e tudo que ele pode aprontar por minha causa.
Suspirou, pediu desculpas pelo inconveniente e explicou que hoje a lua tá em Pedro, enquanto seu ascendente é em Paulo, o que causa esquecimentos e reações intempestivas. Pediu calma, pois amanhã o sol vai entrar em Luana, e daí tudo vai ser resolvido.
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