
Calda preta, ancas carnudas, lombo, dorso integrando musculoso pescoço, tudo compondo um bólido vigoroso que impulsiona o ímpeto que habita aquela cabeçorra. Ferocidade que se introduz quase que num salto ao centro da arena da Plaza de Toros de Madrid.
Manejando a parruda fronte armada com um par de chifres longos, a braveza golpeia o vento e seus sinistros presságios.
Areneros já tinham retocado os anéis brancos que demarcam o chão da lide. A fanfarra já havia entoado o derradeiro trinado, pomposo: clarins concluindo a peça (inegavelmente hispânica) em vibrato marcial. O grande portão de madeira do lado leste já havia sido aberto e o cortejo encabeçado pelos primeiros toureiros já tinha desfilado, seguido pelos subalternos, os cavaleiros em seus robustos equinos e uma estranha junta de quatro mulas que puxava um lastro que se arrastava com meia dúzia de correntes.
O indomável persegue os ajudantes que o provocaram com seus ponchos de cor vibrante; arremete-se em cabeçadas que oscilam estridentemente o anteparo de madeira, onde se acoitam os agora desesperados abusadores que, distribuídos pelos quatro cantos, seguem nesse buliço.
Parte veloz e forte aos capotes amarelos que lhes provocam, ponta dos chifres quase raspando os toureiros subalternos que lhes encaram. São quatro a não deixarem a intrepidez aquietar, formando um quadrilátero onde ela se cansará, mas não os afugentará.
A valentia puxa forças de si e corre agora a balroar os cavaleiros montados nos grandes anglo-arábes, que se juntaram aos subalternos na tarefa de eximir seu vigor. Vendados e cobertos por uma grossa proteção ocre, os cavalos não veem a fúria irromper contra seus envoltórios, mas se abalam, amedrontados.
Acossando-os, alanhada pela afiada lança que empunhavam os cavaleiros, a impetuosidade sangra pelos costados.
Cravadas em seu rijo couro suado, pendem dois pares de hastes vermelha e amarela, as banderilhas: pendões enfeitados com um chulo papel de seda, celulose tingida que desonra o pelo moço onde se espetaram seus penetrantes arpões; novamente tinha se apressurado sobre os assistentes que os lhes enfiaram em salto acrobático.
Os arábicos e seus condutores se recolhem, em sua lombar se pinta escarlate um quadro de dor.
Arfando a boca aberta, salivando espesso caldo, a valentia é transfixada em seu músculo dorsal; a obstinação havia investido contra o derradeiro oponente: o toureiro matador, cujo tecido branco do Traje de Luces realçava as douradas e prateadas lantejoulas do bordado: justa pantalona, requintada jaquetilha, bem afixada montera de veludo roxo sobre os cabelos.
A espada lhe foi fincada no ponto sinalizado pelas chamativas bandarilhas: estava camuflada por entre as largas golas do capote carmim com o qual se lhes toureia.
A bravura ainda era indômita quando, já deitada sobre o sangue rubro que escorria por suas espaldas, um subalterno (ainda receoso) estoca a punhalada final em sua nuca.
Arrastado pela esquisita junta de mulas, o corpanzil tombado pincela um amplo rastro encarnado na terra, traçando uma funesta diagonal de um lado a outro do grande círculo. Esquartejado das carnes, jazem num canto os graúdos córneos em crânio ensanguentado.
Mesmo que fira mortalmente o taurocida, seu destino – na arena – é o fenecimento. Ímpeto, braveza, vigor perecem na tourada que se lhes apronta. Ingressando-se no que seja Plaza de Toros, ao fim, será abatido o taurino.
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