
Não lembro a primeira vez que viajei de avião, mas a primeira vez que viajei de avião sozinha foi aos quatro anos. Meus pais, ambos jornalistas na época, ao me verem de férias da escola, provavelmente não tinham com quem me deixar em São Paulo e me mandavam para Juiz de Fora, para ficar com meus avós. Eles me levavam ao aeroporto de Congonhas e, de lá, eu partia, menor desacompanhada. Os funcionários da Varig (acho que era Varig, ou Pantanal) botavam um crachá pendurado no meu peito com todos os documentos, e eu era conduzida até o portão de embarque, onde uma aeromoça se encarregava de mim. Recordo que, na primeira vez, na decolagem do turboélice, a comissária sentou ao meu lado e apertou minha mão: “Não precisa ter medo.” Eu não tinha.
Fiz esse trajeto sozinha diversas vezes e sempre pedia para que pudesse sentar ao lado da janelinha, para olhar as nuvens, brancas como algodão, os mares de morros, e imaginar a vida daqueles que estavam lá embaixo. “Será que alguém está observando o céu, vendo este avião e pensando sobre quem somos nós, aqui em cima?”. Meus avós me buscavam no minúsculo aeroporto da Serrinha, e, então, as férias começavam.
Escrevo esse texto rumo à Sardegna, ilha italiana. O sol está prestes a se pôr, e o holandês ao nosso lado come um hambúrguer fedorento que ele trouxe na mochila. Precisei pagar para tomar uma água: 3,25€. Malditas low-cost. De Amsterdã, passamos pelos Alpes, ainda nevados em pleno fim de maio. Me imagino no solo, sozinha, rodeada pelas montanhas, e uma mistura de melancolia, entusiasmo e nostalgia toma conta de mim.
Ver o mundo do alto nos traz uma nova perspectiva. Nunca vou entender quem não gosta de sentar à janela para observar por onde estamos sobrevoando. Sou curiosa e, sempre que posso, opto pelo assento “A”.
Em 2016, voltando para o Brasil de uma viagem pela Alemanha (para prestigiar meu pai, que lá recebeu um prêmio) e ilhas da Grécia (férias com uma grande amiga), escolhia uma animação qualquer para passar o tempo de voo, persiana fechada, quando subitamente desisti de me distrair com as telas, e abri o blackout. Sobrevoávamos a França, quando, vendo o brilho distante das cidades, começo a enxergar diversos focos de luz e cor se espalhando por toda a área que minha vista alcançava. Por alguns instantes, fiquei confusa, sem entender o que se passava, então, me lembrei: era catorze de julho, dia da Bastilha, e soltavam fogos de artifício, incontáveis, maravilhosos, um espetáculo que jamais vou esquecer. Até chorei de emoção. Ninguém ao meu redor pareceu notar a cena sublime que ocorria ao alcance dos nossos olhos.
Já vi tempestades de relâmpagos, pores do sol lindíssimos, luas em todas as suas fases, vulcões, ilhas, montanhas nevadas, recortes do litoral e os tons de azul do mar. Gosto de reparar, de me conectar com o todo quando estou aqui em cima, me sinto mais perto do céu, do universo. Acho que quem me vê de fora pensa que eu nunca viajei de avião na vida. Não me importo, quero conservar esse deslumbramento: é o que, em um mundo cada vez mais acelerado, artificial e anestesiado, me faz sentir viva. Humana. Divina.
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