
Tudo ia muito bem. A direita — aí incluído o Centrão — tinha eleito maiorias folgadas na Câmara dos Deputados e no Senado e conquistado, entre outros, os governos de São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul… Flávio Bolsonaro chegara na frente. Com o comando do Legislativo garantido e um porta-voz do pai (do Flávio e do bolsonarismo) no Palácio do Planalto, estaria tudo dominado.
Mas eis que Sua Excelência, o Povo, decide dar uma trava. E elege, pela quarta vez, Luiz Inácio Lula da Silva. O mundo da direita desabou.
Não vou tomar o seu tempo repetindo aqui as bobagens do Flávio Bolsonaro.
Só quero apontar o que considero um efeito positivo da derrota do Flávio nas consciências das brasileiras e brasileiros que votaram nele, principalmente daqueles que o escolheram não porque o considerem apto a exercer a Presidência da República, mas só porque não queriam a reeleição do Lula.
Desde a noite do domingo, 25 de outubro, depois da desastrada declaração do derrotado se negando a aceitar a vontade do povo, cada uma, cada um dos quase 60 milhões que votaram no filho do Jair deve estar pensando, com alívio:
— Caramba! Quase botamos esse cara na Presidência da República!!
Alívio que deve ter crescido com as notícias da carta que o antiLula que tinham escolhido escrevera já em território dos Estados Unidos. Acredito que os eleitores do Bolsonaro 2026 fizeram esse exame de consciência porque duvido que alguém ainda veja nele qualquer resquício de competência para passar perto do Palácio do Planalto…
Mas o filho do Jair — falo do que não foi eleito, porque outros dois estarão no Congresso no ano que vem — conseguiu outra façanha. Ele revogou a regra de que em política não há vácuo…
No lugar que seria dele — muito mais por obra dos antiLula do que por convicção ideológica — a cadeira está vazia e tem uma correria em volta dela para ver quem terá assento na liderança da direita nacional. A deserção do Bolsonaro fez arrefecer até a euforia pelas bancada eleitas pelo PL na Câmara (121 deputados) e no Senado (28 cadeiras).
A conquista das presidências do Senado e da Câmara dos Deputados, dada como praticamente certa a partir do resultado do primeiro turno, já está perigando. O senador Rogério Marinho, de favorito na corrida da sucessão de Davi Alcolumbre, virou Dark Horse, azarão. Na Câmara dos Deputados, Hugo Motta também deve largar na frente.
Tudo culpa do derrotado, que mostrou toda sua incapacidade de fazer política. Flávio é tão inapto que ninguém disse nada a favor dele. Até o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na saída de uma visita ao papai Jair, disse que ninguém aprova o que Flávio está fazendo. O senador Rogério Marinho já disse que não aprova o que o ex-candidato faz. Dona Michelle, então, não disse nada…
O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com o número 10 do time do Republicanos, mata no peito o balcão dado por Flávio e se coloca como candidato a presidente em 2030. Tarcísio se desloca no vácuo deixado pelo fujão, mas pode ser derrubado por trás por algum bolsonarista que pretenda lançar dona Michelle…
A briga na direita vai ser feia. Enquanto isso, Lula vai organizando o time dele e buscando reforços entre os que não se classificaram para o segundo turno.
PSD, MDB, Podemos, etc., etc. Onde será que vão preferir colocar seus craques? No dividido bolsonarismo, lutando para não cair, ou no renovado lulismo, tetracampeão?
E o PL, como vai acomodar deputados e senadores? O partido elegeu seis governadores (RS, SC, PR, RJ, RO, RR). Vai brigar com o governo federal? Ou vai conversar para ajudar os governadores?
Meu palpite: o PL vai fornecer reforços para o Centrão. Lula agradecerá.