
A minha coluna desta semana é a de número 200 aqui na SLER, e acho isso muito legal. Mas tem um outro episódio envolvendo números que me enchem de gratificação, realização e plenitude. Na semana passada, lancei “A Parteira do Bom Fim” e fechei uma trilogia de temas judaicos, com “A Cronologia do Alef Bet” e “Uma Estrela no Pampa”. O fato de serem três, fecharem uma trilogia e se somarem aos oito livros que escrevi sobre o meu time do coração (em especial sobre diversidade) me dão o que defino como algo pleno. Tive 30 anos em redações, especialmente Folha de S. Paulo e Zero Hora. Fiz grandes coberturas, entrevistas que me marcaram e até fui correspondente da Folha em Buenos Aires em 1997/98 (uma experiência que dividiu as águas da minha trajetória em diversos aspectos), mas, pra mim, resgatar fatos, restabelecer verdades objetivas, informar e esclarecer são a missão mais importante do Jornalismo, a verdadeira razão para eu ser jornalista, com formação também em Direito (ambas faculdades completas). O livro sobre a Dona Francisca (“A parteira do Bom Fim”), de certa forma, pôs no mundo extemporaneamente alguém que se considera completo, realizado, já na maturidade. Deu à luz novamente, quem diria.
Percebam que, nos casos dos livros (foram 12 no total), são conteúdos perenes, que não sucumbem ao triste destino de no dia seguinte servir pra acondicionar o cocô do bichinho de estimação e ir junto pro lixo e pro esquecimento. Claro, refiro-me ao jornal impresso, mas paradoxalmente a internet é ainda mais fugaz.
Tem duas pessoas sobre as quais quero comentar neste texto. Uma é o Luiz Fernando Moraes, o publisher da SLER, que comanda esta nave há exatos quatro anos (sim, isso mesmo, 4 anos justamente agora) com o não menos querido, boa gente e generoso Rafael Pegoraro. Mas o Luiz Fernando vem de antes.
O Luiz Fernando foi presidente da nossa TVE (TV Educativa), e eu fui diretor de jornalismo sob sua administração. Trata-se de raríssima experiência na minha vida profissional em que trabalhei com gestão, TV e orientação editorial. E as nossas reuniões pra definir pautas e até cenários eram incríveis exercícios criativos.
Desde então eu digo: trabalhar com o meu amigo Luiz Fernando é um prazer, é algo que flui, é leve. É trabalho com prazer. E agora, na SLER, ele volta a me dar uma liberdade impressionante e uma enorme compreensão pra escrever colunas de tom identitário muitas vezes incompreendidos por pessoas das nossas relações.
O Luiz Fernando é um espírito livre e criativo. Texto excelente (deveria escrever mais), desprovido de preconceitos, um verdadeiro progressista no sentido mais literal que essa palavra pode ter. E veja: meus três livros foram lançados pelo selo SLER Books, uma experiência que ele fez nesse ramo e que deixou marcas.
Tu é um baita cara, querido Luiz Fernando!
Um grande amigo! Um ser humano impressionante.
Na dedicatória do livro “A Parteira do Bom Fim”, escrevi pra ele, diante de outras pessoas que faziam fila e queriam pegar o meu rabisco com um recado do autor: “Obrigado por tudo!” E repito. Obrigado por tudo. Obrigado por me permitir essa plenitude e incrementar o sentimento de orgulho dos meus filhos por mim.
Isso, definitivamente, não tem preço.
Não estou falando só de plenitude profissional, mas também pessoal.
…
Agora vou falar de outro amigo: o absurdamente incrível Ilton Gitz, craque como professor de Cultura Judaica, coração imenso, pessoa empática, aquilo que no iídiche pode ser definido pela palavra “mensch”. Eu já disse várias vezes pro Gitz e pra queridíssima Simone, sua esposa, que ele merece um busto no Bom Fim.
Uma vez, numa aula, ele perguntou aos aluninhos quem tinha lido o excelente “O último judeu”, do Noah Gordon. Como parte da gurizada foi sincera dizendo que não tinha lido, ele respondeu. “Então vou dar mais tempo. Não quero punir ninguém. Quero que vocês leiam.” Esse é o Gitz, o mais alto que pode chegar um educador.
Tive maravilhosos “morim” (professores em hebraico) no Colégio Israelita Brasileiro, mas, no meu tempo, a identidade judaica era uma imposição inquestionável. Tu era e pronto. Com o Gitz, a gurizada aprende quem é o que significa aquilo. É um banho de cultura e de tomada de consciência ao qual meus filhos tiveram acesso.
Mas por que o Gitz entra aqui e agora? Porque, do alto da sua enorme sabedoria, ele me disse certa vez: “Leozinho, se tu estivesse trancado numa redação, cumprindo as pautas que nem sempre te agradam, não teria escrito esses livros.” E o mais impressionante é que eu jamais tinha pensado nisso. E claro, me fez bem.
Num ambiente rarefeito de lucidez, acolhimento e simplicidade, ando tentando me aproximar de pessoas que fazem bem e me distanciar de quem faz mal (e como tem…). Algumas amizades de infância eu resgatei. Eu e o Veco decidimos tomar nossos chás beatles em fins de tarde no Bom Fim e nunca mais nos distanciarmos.
Tem a querida turma do Israelita. Resolvi ser menos intolerante quando a questão não é de índole, porque é de respeito às diferenças que falamos também nas ideias e convicções. O xará Berger, o Rogerinho (como membro honorário), o Bê, o Cláudio, o Leandro, a Adri, o Berale, o Hélio, o Gabri, a Kátia, o Benja, a Flu, o Flávio e outros, gente como a gente. Gente!
Aliás, sobre a minha turma do CIB, já andei escrevendo.
(e aqui aproveito pra ressalvar que a citação de apenas alguns nomes se deve ao convívio mais intenso, de uma ou outra forma. Sinceramente, meus coleguinhas de colégio e alguns outros colegas de profissão moram no meu coração como uma família ampla. Basta ler o texto cujo link está marcado aí em cima)
O Xixa é dos piás, o Deivi também. Diferentes, mas parecidos em temas essenciais. Sobre a minha turma, escrevi texto longo tempos atrás. Podemos até estar distantes, mas sempre é a mesma intimidade. E a turma da praia? O Rodolfo e o Maurinho estão sempre junto. O Marcello, o André. O Carlinhos chegou depois.
E Veco, já citado, vem daí. Entendemo-nos por música, literalmente, desde piás.
A turma da profissão? Sempre o LAK. A Francis, que me alegrou ao se fazer presente na minha mais recente sessão de autógrafos. O Ariel, o Elder, o Bressan, o Carlos, o Zé Alberto, o Guilherme, os irmãos Pereira, a Rosane e o Bissigo, com quem eu trabalhava me divertindo. O Renatinho “Doisnelles”*, o Trezzi. Como não citar a Cintia? Marcos. Davis. O saudoso David, por um tempo que se eternizou. Gustavo, Beto, Nestor, Josias, Juliano, Juliana. A Dione não vale, porque rendeu casamento já de 33 anos e dois filhos. As citações podem ter omissões. Referem-se a quem marcou ou com quem um encontro flui naturalmente mesmo anos depois.
Pode-se dizer que o Luiz Fernando também vem daí.
Da facul, além do eterno Zé, tem gente maravilhosa como a Suzana, o Monte, o Luizão, as irmãs Chala. Onde anda a Katia, que vinha antes de mim na ordem alfabética e, ao me chamar pra pegar o canudo, disse um improvisado e inesquecível “Léo Amigão Gerchmann”? O Felipe, claro, mas é da outra.
Uma turma muito especial
E tem aqueles que me tiravam aos petelecos da cancha do colégio, porque eu era um fedelho, e eles eram grandões. É uma turma que não era a minha, mas sempre o foi pela afinidade. O Sidão, o xará Henquin, o Nelson com seus livros explicando o antissemitismo como uma síndrome e traduzindo o horror do extremismo.
Todas as pessoas citadas no parágrafo acima são amigos de infância com delay. Adoro estar com elas!
Mais que uma turma, é um privilégio coletivo, muito afetivo.
Outro dia nos reunimos e comentei com o Nelson, que é psiquiatra e psicanalista de mão cheia (professor universitário, inclusive): como todos ali são bem resolvidos humana e profissionalmente, os “guris” e as “gurias”, seja na área da educação, do jornalismo, da música, da psicanálise, do lindo trabalho com acessibilidade!
Como isso é importante!
O Gitz é dessa turma.
Detenho-me nela. É minha turma por afinidade. Ali, posso ficar à vontade e ser verdadeiro. Não só eles, mas os amigos deles com quem convivo pouco. Chamam-se “vikings”, e sempre que estive com eles num churras lá em Viamão, me senti um a mais. Viking é um sujeito que acerta e erra. É o humano, também com falhas.
E tem o Salo, de coração. Tem também o Renato e o Axel rindo alto no Embarcadero.
O Celso, poeticamente antes, depois e durante, também ele filho de um maravilhoso Hershl.
A Lelei e o Pedro. Parceiros aqui, na luta e na poesia.
O Airton, colega de profissão e paixão, assim como o Joel, o sábio das águas; o Dael é a personalização daquela frase do Maiakovski (a anatomia enlouqueceu, e o cara é todo ele um coração). Etc.
Todos com suas ou seus cônjuges, em sua maioria queridos (as) amigos (as) – “querides”, pode ser, porque curto esse lance de pronome neutro, que vem das ruas e, convenhamos, faz muito mais sentido que a reforma ortográfica de anos atrás, que levou do nada ao lugar algum.
São citações meio aleatórias, pra mostrar como tem gente linda nesta vida.
É engraçado. Quando me sento à frente do computador, a coisa flui. Não sei se os outros colegas que vivem das letras são assim. Mas o troço sai do meu controle, e as ideias vêm. Vou contar algo estranho: não gosto de reler livro que escrevi, porque sempre acho que posso estragar a ideia original, o sopro, e texto é música, é arte.
Sacaram a que me refiro? Deixo rolar. Confio na minha alma.
Mas acho que acabei homenageando todas essas pessoas porque a plenitude à qual me referi lá no início também existe quando estamos cercados de gente que vale a pena. Foi difícil pra mim entender que alguma rejeição na vida é inevitável, por diferentes e às vezes indecifráveis motivos. Melhor pensar em quem acolhe.
Enfim, este texto tá indo muito longe, porque tá bom de escrevê-lo.
Escrever é a minha arte. Me faz bem.
Estou entre os privilegiados que se realizam profissionalmente fazendo o que gostam. Spinoza, minha maior referência, já dizia: a vocação de uma pessoa é como um presente de Deus. As pessoas devem respeitá-la.
E também um privilegiado de ter amigos, variados, espalhados por ai.
Quando penso que comecei a escrever livros com “Coligay, Tricolor e de todas as cores” e que esse livro tão simbólico em breve vai ser base de série no Canal Brasil (Globo) e de filme nos cinemas (nas telonas!), esse sentimento de plenitude fica ainda maior.
A Coligay é tri!
Termino com duas notas.
Uma é sobre o asterisco que você viu ali em cima no nome “Renatinho Doisnelles”. Evidentemente, é Dornelles. Uma vez, todos bebuns, alguém fez a charada do personagem: “Carnavalesco cujo nome é um diminutivo seguido de um número”. Era pra ser Joãosinho Trinta. Mas o Renatinho também é carnavalesco dos bons e estava junto. Me veio na hora essa bobagem. “Renatinho Doisnelles”. Risos.
E ficou. Ao menos como piada interna minha e dele.
A outra nota é sobre a Venezuela. Preciso escrever sobre esse lindo país.
Na minha vida, fora o Brasil, os países onde mais estive foram a Argentina (onde morei), a França (cobri uma Copa do Mundo por quase dois meses e também fui a turismo) e a Venezuela (fui quatro vezes fazer reportagens detalhadas sobre a vida sob o chavismo). E fiz amigos. O drama que estão vivendo me sensibiliza.
No dia seguinte ao do terremoto, entrei em contato com a minha querida amiga caraquenha Milagros Socorro, grande jornalista, escritora de livros infantis. Uma alma linda. Está tudo bem com a Mi e com o Henry, o marido dela, até porque ambos estão faz uns anos no exílio em Madri. E suas famílias também estão bem.
Pela TV argentina, vi o caso de um homem que emitiu o assobio da família, um código interno, da intimidade do lar, e ouviu o que já dava como caso perdido. “Estou aqui, papai”, veio a voz fraca, quase um suspiro, do fundo dos escombros. O homem contou chorando sobre a salvação do próprio filho, seu “renascimento”.
Me tocou essa história, porque não posso deixar de citar, ao falar de plenitude e realização, os meus dois filhos, o Pedro e a Paula. Absolutamente nada no mundo chega nem perto do que eles significam nesse sentido. São a razão da minha vida e a maior força que me inspira, me faz levantar diariamente e enfrentar tudo.
Shabat shalom!
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