
Trauma: uma vivência profunda (medo, susto, perda etc.) que pode ocasionar sentimentos ou comportamentos desordenados e perturbações neuróticas posteriores. (Michaelis)
Conheci o trauma antes de conhecer a mim mesma. Antes de entender exatamente seu significado. Senti, pela primeira vez, aos oito anos, a ausência crua, simples, cruel que a morte traz. Depois, de novo, aos doze. “Mas eu nunca mais vou vê-la?” Soa estranho, quase irreal. Não pode ser. A perda vem como um choque de realidade, a lembrança de que a vida é finita. Tudo pode acabar a qualquer momento. Em um instante, o vazio. O nada.
Esses eventos moldaram minha visão de mundo – e não só para pior. Aprendi a viver o agora – um pouco desesperadamente antes de atingir a maturidade, confesso -, a demonstrar de maneira incondicional que amo quem amo e, o principal: aprendi o que é sofrer. Acontecimentos banais não me abalam com facilidade. De tristeza, não choro com frequência – de emoção, muito. Entendo que uma rejeição, uma briga, um término de amizade, entre muitas outras decepções a que estamos sujeitos, nada mais são do que vírgulas, e que a verdadeira dor vem, pelo menos para mim, do único evento irremediável: a morte.
Não acredito, contraditoriamente, que tudo acabe no fim. Creio que exista algo além, e que nossa consciência, objeto de estudo que ninguém conseguiu decifrar, siga por aí, mesmo com o desaparecimento físico do nosso corpo – que nada mais é do que instrumento. Mesmo assim, a ideia – e a já conhecida experiência – de viver sem aqueles que mais amo é dura demais para me deixar confortável. Penso que, no fundo, depois de tantas perdas, tenho medo de sobrar sozinha nesse mundo, sem ninguém para testemunhar a minha própria existência.
A desaparição da minha mãe, além de ter trazido luz a certas questões que moldaram minha personalidade, também trouxe muita sombra. Tenho medo de as pessoas que amo morrerem: não um medo normal, mas um pensamento obsessivo com o qual convivo todos os dias. Só de escrever sobre o tema, já começo a suar frio e a sentir o estômago revirar. Fiz todo tipo de terapia e fui aprendendo a lidar com o aperto no coração a cada despedida, temendo sempre que seja a derradeira – assim como foi com a minha mãe e, depois, com a minha irmã.
O tempo, que tudo cura, me ensinou a carregar este peso sem ser esmagada por ele. Não me permito ser dominada pelo medo, apesar de reconhecer que ele existe, e talvez sempre existirá nas minhas entranhas. Mesmo assim, me considero uma pessoa feliz, livre, encantada. Não apesar de tudo isso, mas, de alguma forma, também por tudo isso. Experienciar o fim me trouxe um deslumbramento com a vida, e caminho tendo certeza do milagre que é existir.

