
Eu caminhava pelas ruas de Porto Alegre, o bairro era o Moinhos de Vento, e de repente tudo se paralisava, mas por algum motivo sabíamos que aquele congelamento tenso era perigoso e então corríamos, desesperados. Acontecia diariamente, o horror estava normalizado. E foi então que apareceu um chacal que não estava paralisado e, aos rosnados, iria nos atacar, alguém me alertou. Eu corria desesperado com a minha família, pensando em protegê-la, mas tive que parar e enfrentei a fera aos gritos, proferindo um berro gutural, angustiado, querendo que alguém, por favor, me ouvisse e interrompesse o pesadelo. Aí a Dione, a minha esposa, assustada diante daquele urro, me acordou e o interrompeu. “O que houve?!!!”
Isso é real. Aconteceu! Fiquei ainda uns minutos com taquicardia, assustado.
Parece uma mistura de planos, onírico e real, ficção científica. Foi como senti.
Acordei assim nesta terça-feira nublada – e mesmo assim quente -, o 24 de março que marca o cinquentenário do golpe militar argentino que pôs a ditadura militar em outro pesadelo, bem real e triste, diga-se, naquele país que tanto adoro. Eu já tinha escrito sobre a Argentina para a edição desta sexta, mas pedi ao querido editor Luiz Fernando Moraes que publicasse meu texto sobre a ditadura na mesma terça, porque o assunto bombava diante da efeméride de meio século e achei adequado não esperar três dias, mesmo que meu viés fosse inusual (a especial dedicação com que os militares argentinos maltratavam judeus).
Enfim, o meu pesadelo daquela manhã de terça não está distante disso.
E quero fazer uma reflexão com vocês.
Sou neto de pessoas que sobreviveram ao Holocausto e aos pogroms e deixaram toda a família na Europa pra nunca mais reencontrá-la. Trago um brutal trauma transgeracional que se alimenta a cada absurdo racista (antissemita) que um economista renomado ou um sociólogo festejado profere sem corar e muito menos ir preso. O meu pesadelo (narrado ali em cima) foi uma tradução fiel desse sentimento doloroso. Trata-se de abandono, desamparo, medo, apagamento, desconfiança, invisibilidade e, sobretudo, muita tristeza. Estamos, no século 21, reproduzindo a Europa dos anos 1930.
E há algumas considerações que precisam ser feitas quando alguém critica a guerra contra a teocracia iraniana. Vou começar com uma paralelo que considero extremamente efetivo. Qual exatamente a diferença entre os nazistas que matavam homossexuais e judeus, a quem manifestamente planejavam exterminar, e que queriam impor a raça ariana com suas leis de Nuremberg num projeto expansionista em relação aos aiatolás que matam homossexuais e judeus, a quem planejam manifestamente exterminar, e que querem impor o califado com a sua sharia num projeto expansionista?
Tem uma diferença, sim. As palavras, os nomes, a semântica. No mais, é idêntico.
Então, eu, um cara que quem conhece sabe o quanto sempre desprezou figuras como o Donald Trump e o Benyamin Netanyahu, pergunto-lhes: quem critica o ataque aos aiatolás medievais e obscurantistas também acha errado que Roosevelt tenha entrado na guerra ao lado de Churchill e Stalin contra o nazismo? Você acha que o titubeante Chamberland tinha razão ao não atacar Hitler? Acha bonito o Irã jogar míssil com o rostinho do hipócrita Pedro Sánchez, o demagogo presidente do governo espanhol? Talvez, se tivesse a mesma arma, Hitler usasse uma foto do Chamberland numa homenagem tétrica.
Sobre ser chato
Feito o desabafo, vou trocar levemente de assunto: além do motivo óbvio desse pesadelo descrito aí em cima, aviso a amigos, ex-amigos, antigos supostos amigos e público em geral: se vocês me acham chato com esse assunto, saibam que já começo a me sentir confortável nessa posição, porque é meu direito e dever. Foda-se!
Vou criando casca grossa, algo que é facilitado quando, mesmo contra a corrente de supostos progressistas, claramente é o lado correto. E mais: é o meu lado. É a minha identidade. Sempre admirei os ativistas identitários que perseveram diante dos narizes torcidos e olhares de reprovação. Repito a grosseria: fodam-se! Sou judeu e tenho a arma da palavra como profissão e vocação. Seria literalmente um pecado abrir mão disso.
Ah, e sou jornalista. É quase um sacerdócio isso de informar e buscar o estabelecimento da verdade verificável, a verdade objetiva e sem contorcionismos.
Vocês, que tanto criticaram e criticam (comigo) o terraplanismo da extrema direita, a rejeição à ciência em geral e à vacina em particular e a defesa de figuras sinistras da ditadura militar, são idênticos a eles. Gado destro e gado canhoto. É sufocante a ignorância. Eu preferiria não lembrar sempre, mas diferencio com um abismo quem só critica o governo de turno em Israel de quem defende a sua aniquilação, alinhando-se ao que há de mais obscurantista e fascista na face da Terra. Vocês são tão monstruosos quanto o mais rasteiro e abjeto bolsonarista. Vocês são uns imbecis, pessoas más, desprovidas de empatia. Vocês chamavam os bolsonaristas de “fascistas” e até de “psicopatas”? Muitas vezes também chamei alguns deles assim. Mas repito: vocês são iguais a eles, como um espelho.
A desinformação contaminada pelo dogmatismo é tão devastadora que frequentemente vejo inversões de conceitos. Tipo: haveria “censura” em Israel. Ora, há restrições quanto à circulação de algumas informações por compreensível segurança nacional. Lembremos que Israel é um país cercado de vizinhos que manifestam verbalmente a intenção de eliminá-lo do mapa (e é impressionante como isso é normalizado). Perguntei a amigos jornalistas que vivem e trabalham em Israel e, veja bem, são de esquerda: não existe censura, e os correspondentes internacionais se movimentam livremente no país, com a ressalva de alguns episódios isolados e justificados. Se você tentar fazer a mesma pergunta a um jornalista em Teerã, só aí já se verá a diferença. Cadê a internet?
Outra inversão é a dos “justiceiros” (sic), “humanistas” (sic) e “intelectuais” (sic) que falam do “expansionismo” sionista (sic). Em primeiro lugar, sionismo é só o legítimo movimento de autodeterminação no seu lar ancestral do povo mais perseguido, segregado e resiliente da História da Humanidade. Um povo vítima de violências cuja crueldade só encontra comparação na escravização africana. Se pudessem, os israelenses viveriam desarmados, plantando seus tomates cereja, estudando e investindo em tecnologia no seu cantinho. Conviveriam perfeitamente com os vizinhos árabes, aceitando a partilha estabelecida pela ONU há quase 80 anos. O armamentismo israelense foi uma necessidade. No início, em maio de 1948, os ataques dos vizinhos árabes foram repelidos, pasmem, com armas fornecidas pelo bloco socialista (aliás, a União Soviética foi o primeiro país a reconhecer Israel na sua urgente e necessária refundação). O alinhamento posterior aos EUA foi consequência direta dos interesses geopolíticos e econômicos da URSS, o petróleo árabe e as conveniências na maldita Guerra Fria.
Segurança e paz
Mas vou mais longe: o povo judeu é um grupo étnico-religioso. Sendo assim, mesmo que muitos sejam laicos e inclusive ateus, há um código de ética mosaico e um conjunto de valores que são o centro da cultura judaica. E um dos princípios é a aversão ao proselitismo. Sim, o proselitismo, ao contrário do que ocorre com as religiões cristãs e islâmicas (xiita, sunita etc.), é vetado no judaísmo. Faz parte da cultura. É um princípio. Um pilar. Logo, judeus em geral e israelenses em particular só imploram pra serem deixados em paz e poderem existir no seu cantinho.
E que não precisemos mais acordar gritando e sendo tirados de um pesadelo sufocante pela esposa assustada e solidária. Enfim, escrever é uma vocação, uma arte e um alívio. Só consegui suportar o mau sonho ao escrever o que está aí em cima. Mas é pouco. O cara escreve para ser lido. E eu imploro que sejamos lidos, compreendidos e vistos. Porque o sofrimento é real, o sentimento é de sufoco, e a necessidade de mãos estendidas que nos ajudem a sair do pesadelo é uma imposição. Por favor, nos ajudem! Só queremos existir, conviver e ter paz.
PS: o texto vai ilustrado pela icônica pintura “O Grito”, de Edvard Munch, porque foi nela que pensei quando acordei aos gritos numa manhã nublada e abafada.
Outro PS: negar o direito do povo judeu à sua autodeterminação no lar ancestral (antissionismo) depois de séculos perseguido e segregado é a forma mais moderna de antissemitismo, e essa definição parte do lugar de fala de algo como 90% dos judeus. Os que não veem assim são como os negros capitães do mato ou os gays homofóbicos, que por alguma razão de fundo emocional se voltam contra a própria identidade. O regime homofóbico e misógino iraniano é especialmente antissemita, até porque partiu deles atentados como os da Embaixada de Israel (1992) e da Amia (1994), bem aqui do ao lado.
Shabat shalom!
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