
“A democracia se baseia na prática discursiva guiada pelo respeito.”
Byung-Chul Han, Sem Respeito (Vozes, 2026), p. 39
Como não sou um grande analista de política, vou apresentar aqui minha própria teoria sobre as razões do ressentimento da extrema direita: a questão é que ela não tolera ser… zoada! Conheço algumas das características da bolha bolsonarista. Ela se nutre da ira e do rancor que alimentam seus integrantes conjuntamente e não oferece nenhum esclarecimento político. Ao contrário, alimenta-se somente de notícias falsas para gerar desejo de guerra, exatamente como afirmavam Gilles Deleuze e Félix Guattari em seu Anti–Édipo (Editora 34, 2010). Você critica Flávio Bolsonaro exatamente como fazia Kant, de maneira “clara e distinta”: os moradores da bolha bolsonarista veem isso como uma crítica à capacidade deles de pensar. Onde você faz um debate político, eles enxergam uma ofensa pessoal. A extrema direita triunfou nesse aspecto ao estabelecer uma identidade própria. Ser bolsonarista é intrínseco à identidade deles, por isso, ao questionar seu candidato derrotado, você os ofende pessoalmente. Bem-vindo ao universo em que os que se identificam como de direita foram engolidos pela extrema direita. O pior é que a maioria deles nem tem consciência disso.
Faço essa afirmação por ser uma pessoa otimista. Ainda penso no meu vizinho; ainda o vejo como vítima de um sistema de signos que ele não consegue compreender. Não que eu me considere superior ou melhor a ninguém, mas valorizo os argumentos e os fatos, ao contrário dele. Como o peixe que, dentro do aquário, pergunta o que é a água, muitos indivíduos de direita, que até então confiavam nas normas do jogo democrático, permanecem em sua bolha bolsonarista sem compreender o significado do mundo em que vivem. Em determinado momento, imagino dizer a eles, de maneira semelhante ao que Zizek dizia àqueles da esquerda que se inclinaram para a direita, ao final de uma de suas obras: “Ok, tudo bem, vocês já tiveram a oportunidade de brincar no playground da política de extrema direita e estão perdoados por isso. É hora de fazer política séria outra vez!”. Os defensores de Flávio fizeram exatamente isso: eu posso estar errado, mas acredito que a grande maioria de seus eleitores são pessoas comuns, como as que conheço, familiares e vizinhos que quase nunca se interessavam por política, mas que, graças à bolha, tiveram acesso a uma faceta cruel da política que se disfarçava sob a aparência da civilização. Sim, eu sei que muitos à esquerda alegam que os bolsonaristas não passam de perversos, que eles queriam sim os valores da extrema direita, etc., etc. Mas nem sempre foi assim, não é? Entretanto, aconteceram coisas que merecem nossa atenção.
A primeira foram as cenas grotescas atualizadas do fascismo. Como no caso do empresário que, numa manifestação, arrastava um negro pela corda, que age como se estivéssemos revivendo a escravidão, ou na atitude de um pai de aluno de escola particular que denunciou um trabalhador apenas por vestir uma camisa vermelha. Só posso imaginar que pessoas completamente ressentidas façam isso. O problema é que, de certa forma, entendo que a própria esquerda contribuiu para reforçar esse sentimento. Apesar de os manuais disponíveis nos grupos de WhatsApp de esquerda enfatizarem que o tom de esclarecimento nesta eleição, usado para apresentar os argumentos que criticavam Flávio Bolsonaro, deveria ser o mais empático possível, para mim não foram apenas nossas réplicas lógicas, mas nossa ironia ao candidato da extrema direita que se revelou insuportável para seus eleitores. A zoação. Por quê? Porque, ao se depararem com nossos memes, os eleitores de Flávio Bolsonaro não ouviam uma crítica, mas outra coisa: você é burro, você não sabe escolher, você é uma pessoa… ruim! Imagino que isso só podia resultar no fortalecimento de suas posições ideológicas como forma de preservar a própria dignidade. Ninguém gosta de ser humilhado, e, de certa forma, era isso que os memes faziam. Abusamos dos memes porque humilhar é um prazer perverso e secreto que também a esquerda esconde. É claro que a direita fazia o mesmo, só que com menos competência. Por isso devemos desculpar aqueles que fizeram más escolhas? Não porque era seu direito na democracia, mas devemos reconhecer que, a partir desta eleição, a emoção política também conta.
Espionei postagens de extrema direita – quem nunca fez isso que atire a primeira pedra – e, para mim, os memes sobre Flávio Bolsonaro feitos pela esquerda eram bem mais engraçados do que os feitos sobre Lula pela extrema direita. O problema é que, ao mesmo tempo em que a esquerda ironizava suas ideias, também as ridicularizava, talvez porque não haja outra forma de fazer humor. É o que constato: também vivemos das regras da bolha, a da esquerda, mesmo que nosso objetivo fosse atravessá-la em direção à da extrema direita. Em outras palavras, o universo das bolhas é democrático: as mesmas regras que valem para a esquerda valem para a direita. Ao compartilharmos tais memes, nos reforçávamos como exército do Lula. Essa é a minha hipótese prosaica: a raiva provocada pela nossa zoação agudizou a bolha bolsonarista.
Humilhação e assédio eleitoral
Não sei se haveria outra forma de tentar mostrar a verdade aos integrantes da bolha bolsonarista além do humor. Imaginávamos que, usando-o, desarmaríamos sua resistência, mas seria a bolha permeável a alguma outra coisa? Talvez para o bolsonarista raiz, digo, o perverso, não. Entendo que a raiva vista nas redes sociais é exatamente isso: um mecanismo de defesa. É nesse sentido que eu sinto culpa, pois eu… zoei. “Minha culpa, minha máxima culpa”. Mas quem não zoou? A derrota eleitoral foi sentida emocionalmente como humilhação pessoal pelos bolsonaristas, daí a primeira reação de certos setores da extrema direita: transformar a disputa política em punição dos adversários por meio das relações de trabalho. É aí que a coisa passa dos limites do jogo democrático: a ameaça de demissão de quem votou em Lula é uma expressão particularmente grave desse ressentimento, porque transfere a desigualdade de poder econômico para dentro do exercício de um direito democrático.
O resultado das urnas não encerrou o conflito precisamente porque ele não era apenas um conflito de projetos, mas um conflito de emoções. A derrota de Flávio Bolsonaro foi além do debate político, invadiu as relações sociais e revelou que existe um coração patrimonialista entre esses empresários, que tratam o voto de seus subordinados como se fosse algo seu. Eles o consideram uma ofensa pessoal e uma demonstração de ingratidão: afinal, são eles que concedem a graça de oferecer um… emprego! Ora, Robert Kurz já nos falou em seus livros o suficiente sobre a exploração capitalista. Nesse universo de predação, o trabalhador deixa de ser reconhecido como cidadão livre e passa a ser tratado como um objeto cuja preferência política pode ser dominada. Isso já aconteceu nas eleições presidenciais de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro no segundo turno e quando foram registrados numerosos episódios de pressão patronal sobre trabalhadores. Na época, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu mais de três mil denúncias relacionadas ao assédio eleitoral naquele ciclo, envolvendo empresas e instituições públicas (disponível aqui). Hoje, o mesmo MPT registra 3.396 denúncias de assédio enquanto escrevo este ensaio. Essa estratégia não é nova e os números devem aumentar.
Como os novos memes nas redes sociais apontam, isso é mais uma prova de que a esquerda estava certa em seu argumento dissuasório à direita: ao contrário do que defendia Flávio Bolsonaro, a negociação entre trabalhador e empregado é uma negociação impossível porque as posições de poder são diferentes, e é exatamente isso que a eleição coloca em jogo: as condições dessa relação de poder. Ao tentarem converter autoridade profissional em coerção eleitoral, revelaram o lado perverso do capitalismo brasileiro. Digo de novo: ele é predador.
Ora, o voto não pertence ao patrão; ao contrário, é protegido pela Constituição. Por isso é livre e secreto. Na democracia, ninguém precisa justificar sua preferência política, e os empregos não dependem dessas decisões pessoais. O problema agora é que a preferência eleitoral do cidadão ficou pública: é visível nas redes para quem quiser ver. O voto, assim, deixou de ser secreto, transformou-se num campo de batalha e num alvo pintado nas costas do trabalhador. O que os empresários propuseram é ilegal: vasculhar as redes sociais dos empregados para identificar petistas. Isso não ocorre sem consequências, uma vez que o Ministério Público do Trabalho tem poder para investigar, condenar e obrigar a indenizar por danos morais individuais e coletivos empresários que fazem práticas discriminatórias. É verdade que, alertados por seus advogados, alguns recuaram na caça às bruxas. O bolso é um ótimo argumento, visto que alguns casos determinam inclusive o pagamento em dobro da remuneração do período de afastamento. Além disso, o artigo 301 do Código Eleitoral prevê reclusão de até quatro anos, além de multa, para quem usa violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar ou deixar de votar em determinado candidato ou partido. As formas de denúncia são públicas e estão sendo divulgadas (veja aqui).
Desprezo, identidade e ressentimento
Por que isso aconteceu? Por que empregadores acharam legítimo punir um trabalhador por seu voto? Por que empregadores que mantinham ações sociais acharam legítimo suspendê-las? Que visão de sociedade permite que um empresário trate a escolha política de um empregado como afronta pessoal? Isso faz parte de uma cultura política de extrema direita que transforma derrota eleitoral em humilhação, adversário em inimigo, divergência política em obrigação de punir o oponente. Quando foi que esquecemos que a democracia pressupõe conflito? Esquerda e direita divergem sobre o papel do Estado, a distribuição da riqueza, os direitos trabalhistas, a segurança pública, a tributação e os limites da intervenção econômica. Nada disso é uma ameaça à democracia; faz parte dela. Mas estamos em outro lugar: aquele em que a divergência é interpretada como sinal de inferioridade e ameaça à minha identidade. É isso que a extrema direita contemporânea explora. E você, que quer esclarecer aqueles que se entendem de direita, das ameaças reais e que terminaram, como acredito, cooptados pela extrema direita, é identificado como inimigo.
De onde saiu a tática de listar e tornar públicos os adeptos de uma ideologia? De outro movimento de extrema direita, o nazismo. Quem publica esse tipo de lista faz perseguição política, elimina liberdades políticas e não defende a democracia – ao contrário, a elimina, porque a lei existe exatamente para proteger o desejo político do cidadão. Por isso foi importante o fato de as lideranças do PL e de outros partidos da base bolsonarista que vieram a público declarar um sonoro “Lula eleito, jogo que segue”. O bolsonarismo não é equivalente ao nazismo, nem a direita à extrema direita, mas ela usa mecanismos autoritários semelhantes: a construção de inimigos internos, a deslegitimação das instituições, a hostilidade ao pluralismo, a propaganda baseada em ressentimentos e a disposição de restringir direitos de quem é considerado adversário. Identificar-se com ele é fácil e funciona bem para quem se sente vítima do mundo. Muitos são. Mas não vivemos numa sociedade em que a liberdade política dependa do lugar onde estamos. Há muitos empresários conscientes que, inclusive, já estão adotando o regime 5×2 da proposta lulista, recentemente aprovada. O que mudou?
A eleição mostrou que o desprezo é o combustível do ressentimento. Gosto de um sociólogo chamado François Dubet. Em O desprezo (Vestígio, 2026), ele mostra como as desigualdades sociais são vividas não apenas como diferenças de renda ou de oportunidades, mas como experiências de humilhação, invisibilidade e falta de reconhecimento e, por isso, produtoras do sentimento de ressentimento. Penso que os eleitores de direita, tragados pelo bolsonarismo, sentem dois fracassos. O primeiro é o fracasso individual, produto de uma desigualdade de oportunidades em que se veem como vítimas. O segundo é o fracasso em uma crença: a de que seu candidato era o melhor. Sentem, de qualquer forma, uma ferida na autoestima. Fizeram campanha para seu candidato, mas foram incapazes de levá-lo à vitória. Por isso sentem, mais uma vez, raiva e continuam afirmando nas redes que foram enganados. Veem memes de esquerda e ficam com mais raiva ainda; não reconhecem a vitória nem por uma diferença de quatro milhões de votos. A perda da eleição, para Dubet, pode explicar a ampliação do ressentimento, que se projeta sobre o outro – o PT, a esquerda, os eleitores de Lula -, a quem se atribui a hostilidade. É o seu suposto inimigo. Isso não significa que todo eleitor da extrema direita seja pobre, fracassado ou ressentido. Ao contrário, um dos méritos de Lula nesta eleição é que, ao contrário das eleições passadas, conseguiu unir a esquerda e a direita, ou pelo menos, uma grande parte dela. Para Dubet, o problema surge quando a humilhação é percebida em conjunto, pois ela também pode se tornar uma força coletiva, sobretudo quando encontra uma linguagem política capaz de dar sentido à experiência. É isso que cabe desconstruir após as eleições.
O bolsonarismo tem força porque construiu em torno de si uma identidade política baseada em um conjunto de crenças simples, fake news e valores tradicionais. Essa identidade envolve religião, costumes, segurança, desconfiança das instituições e a percepção de que certos grupos recebem reconhecimento ou proteção, enquanto outros são desprezados. Não digo nada novo, só consensos. Mas o fato de ela ser percebida não apenas como derrota, mas como humilhação, piora a subjetividade bolsonarista. Por isso os memes ferem mais nesse momento pós-eleitoral. Reconheço que eles são irresistíveis para a esquerda: se você não consegue convencer por argumentos, fatos e provas, então que o mundo se dane: vou zoar! Eu mesmo, como esquerda e eleitor de Lula, ainda que tenha tentado argumentar com familiares e vizinhos bolsonaristas de forma cordial e empática, como fiz nesta plataforma, fracassei e acabei compartilhando memes. Me culpo por isso, mas faria diferença se não o fizesse?
Redes, respeito e desconfiança
O efeito é que isso acirra o ânimo das redes, daí a rapidez com que as ameaças se espalham: ela é uma tentativa de restaurar a hierarquia ferida. Por que o caminho que leva da humilhação ao ressentimento, e deste à punição, é tão retilíneo? Em No enxame (Vozes, 2018), Byung-Chul Han examina a conexão das tecnologias digitais com as relações entre os indivíduos. O problema, diz Han, está na forma como os ambientes digitais organizam a atenção e o conflito. A velocidade das mensagens, a circulação de imagens e frases curtas, a exposição permanente e a busca por reações imediatas favorecem manifestações que provocam indignação. Uma explicação cuidadosa exige tempo; um insulto pode ser compartilhado em segundos. O adversário precisa ser ridicularizado, a mensagem precisa provocar choque, e a opinião mais agressiva pode receber mais visibilidade do que a análise mais cuidadosa. Tudo isso corrói o respeito, que exige reconhecer a existência de uma pessoa para além da imagem que fazemos dela. Em Sem Respeito (Vozes, 2026), Han vai além, afirmando que “nas redes sociais, a luta por respeito é travada como luta por atenção.” O filósofo coreano relembra o exemplo de Richard Sennett, em Respeito (Record, 2004), sobre as relações dos músicos de uma orquestra entre si. Ele chama a atenção para o fato de que, na música, temos comunidades, e é isso que permite uma execução conjunta. “Ninguém luta por respeito. Ninguém se sente ferido ou humilhado por falta de respeito. Os músicos não atuam uns contra os outros, mas tocam uns com os outros. Acima de tudo, seguem ideais em comum. Eles estão ligados entre si por um senso de comunidade” (p. 23).
As eleições mostraram que estamos perdendo a atenção ao outro e, com isso, o respeito. “O respeito exige reconhecer e apreciar o outro em sua alteridade. A falta de respeito, que hoje sentimos de forma latente em toda parte e que, não raro, se torna agressão contra os outros, reflete uma profunda crise social” (p. 24). Falei dessa crise em meu ensaio anterior: a crise do ideal de solidariedade. Quando foi possível que apoiadores de movimentos sociais contra a fome, que faziam suas doações, pudessem desincorporar de si esse ideal? A resposta é: quando foram capazes de transformar o outro em objeto de satisfação ou obstáculo do desejo. Quando perderam o respeito. Se o outro, após a eleição, é visto como um obstáculo à realização do desejo – mesmo que seja o de eleger um crápula -, desobriga-se de suas responsabilidades em relação a ele. Diz Han que, nesse momento, “a irresponsabilidade equivale à falta de respeito” (p. 25). O respeito, como atenção, gera coesão social; as redes sociais promovem corrosão e desconsideração com o outro. “Nas redes sociais, não se pratica a máxima da delicadeza, mas sim o máximo de ofensa e humilhação. As redes sociais recompensam a desinibição, pois ela gera mais atenção. O respeito requer tempo e discrição.” E ainda: “A falta de respeito leva à deterioração do político. O desrespeito hoje generalizado representa, portanto, não apenas uma crise social, mas também uma crise política. A democracia se baseia na prática discursiva guiada pelo respeito” (p. 39).
Perde-se o respeito à opinião alheia, o que leva ao seu contrário: o ódio a ela. Ninguém revisa posições frente a argumentos; ao contrário, vê a argumentação do outro como contrária e como ameaça à identidade. Se minha opinião é minha identidade, perco a capacidade de me comunicar com o outro; se reagimos emocionalmente às crises sociais e políticas, isso é um problema social. Como separar a opinião da identidade, como conduzir debates num campo carregado de emoção? Como diz Han, as redes sociais se transformaram nessa máquina persuasiva. Não ouvimos mais o outro, o que é constitutivo da relação de amizade. É possível ser amigo de um bolsonarista? Eis a questão que enfrenta hoje a psicologia política. Se perdemos a atenção ao outro, ficamos surdos à voz do amigo, sem capacidade de escuta. “Agora, cada um ouve apenas a própria fala” (p. 54), diz Han. Se não somos capazes de manter a distância que o respeito exige, embrutecemos a cultura política. Se não somos capazes de olhar cara a cara o outro, a certa distância, perdemos o respeito. “É precisamente o rosto do Outro que exige respeito. A comunicação digital não conhece o cara a cara. Ela priva o outro do seu rosto. O outro degenera em objeto ou produto sem rosto. O rosto não pode ser reduzido ao perfil, pois ele é um portador de informações que escapa a toda disponibilidade” (p. 102).
Quando penso nos efeitos a médio prazo do que ocorreu após estas eleições, vejo um futuro ameaçador. Se não revertermos esse processo, perderemos de uma vez por todas o ideal de solidariedade. Pierre Rosanvallon, em A contrademocracia: a política na era da desconfiança (Atelier de Humanidades, 2022), diz que a democracia não se limita ao momento eleitoral. Criticar os líderes e desconfiar deles não é necessariamente uma doença da democracia. O problema é quando passamos das formas legítimas de vigilância para ações fascistas. Podemos continuar contestando o governo, desde que apresentemos alternativas dentro das regras democráticas. A rejeição autoritária não está em questão. A desconfiança que leva à certeza de que todo resultado desfavorável é fraudulento não faz parte do contexto democrático. Lula venceu por mais de quatro milhões de votos. O problema, diz o autor em outra obra, A legitimidade democrática (Atelier de Humanidades, 2008), é que a vitória eleitoral, embora indispensável, não esgota a legitimidade de um governo. A democracia também depende da imparcialidade das instituições, da capacidade de refletir sobre as demandas sociais e da proximidade entre governantes e cidadãos. O resultado das urnas concede autoridade para governar, mas não dispensa o governo de ouvir, justificar suas decisões e respeitar os direitos de quem não votou nele, inclusive os que votaram em Flávio Bolsonaro.
As tarefas do governo e da oposição
É verdade, entretanto, que a mobilização social fez com que milhares de cidadãos vissem eleitores de Lula como adversários. Se Lula tem o direito de governar porque venceu segundo as regras eleitorais, seus opositores têm o dever de criticar suas políticas, organizar-se e disputar futuras eleições. Lula fez o que lhe cabia: afirmou, no dia de sua vitória, que reconhece representar a maioria da sociedade e que irá trabalhar para todos. A oposição é democrática quando reconhece que, mesmo que não aceite seu programa, a disputa pelo poder ocorre dentro de regras que valem para todos. Se não for assim, é um problema. É o que ocorre quando a extrema direita se recusa a reconhecer sua derrota, desqualificar o resultado sem provas suficientes e a disposição de punir cidadãos por sua escolha eleitoral. O problema não é a existência de conflitos, mas a tentativa de retirar do adversário o direito de participar da vida política. E isso tem nome: assédio eleitoral. Precisamos, passadas as eleições, lutar de novo pela possibilidade de uma vida pública compartilhada.
A fuga do país de Flávio Bolsonaro, candidato derrotado, após uma determinação judicial e no contexto de investigações, contribui para a erosão do respeito às decisões judiciais e para a urgência de esclarecer os fatos. Como diz o ditado popular, não basta ser honesto, é preciso parecer honesto. A fuga não pode ser ignorada; tem efeitos sobre a confiança pública. Como reagirão seus eleitores? A polarização não será superada por apelos genéricos à união nacional; ela exige que o novo governo assuma diversas tarefas. Eu listo aqui sete; pode ter mais.
A primeira tarefa do governo Lula é governar para além de sua base eleitoral. Isso significa ouvir as demandas de trabalhadores, empresários, profissionais liberais, agricultores, servidores públicos, jovens e pessoas que não votaram nele. Ouvir não significa concordar com todas as reivindicações, mas reconhecer que as preocupações dos cidadãos merecem resposta e que a legitimidade eleitoral precisa ser acompanhada de capacidade de diálogo. É preciso também apresentar resultados concretos em áreas que afetam a vida cotidiana: emprego, renda, saúde, educação, segurança e acesso a serviços públicos. A melhoria das condições materiais não elimina o ressentimento, mas reduz o espaço para que a insegurança econômica seja explorada por discursos que oferecem culpados em vez de soluções.
A segunda tarefa é preservar o respeito às instituições. O governo precisa respeitar a independência dos Poderes, evitar o uso partidário da administração pública e tratar a oposição dentro das regras democráticas. Não se combate a falta de respeito da vida pública reproduzindo seus métodos. A defesa da democracia exige limites que valham inclusive para aqueles que consideramos aliados. A terceira tarefa é combater a desinformação sem transformar toda crítica em mentira. O governo, a imprensa, as universidades e as instituições eleitorais precisam oferecer informações verificáveis, corrigir erros e explicar decisões em linguagem acessível. A confiança não pode ser exigida como obrigação; é uma construção feita por meio de transparência, coerência e prestação de contas. A quarta tarefa é enfrentar o assédio eleitoral com seriedade. O Ministério Público do Trabalho, a Justiça Eleitoral e a do Trabalho precisam continuar atuando para impedir que o poder econômico interfira na liberdade do voto, e a fiscalização deve alcançar tanto as ameaças explícitas quanto as formas de pressão que se escondem em reuniões, mensagens e avaliações profissionais.
Lula deverá cobrar das entidades empresariais a defesa de que a liberdade econômica não confere poder sobre a consciência política dos trabalhadores. Um empresário não pode exigir que seus funcionários compartilhem de suas preferências como condição para manter o emprego. Isso é inaceitável e inegociável. A quinta tarefa é reconhecer que nem governo nem oposição constituem um bloco homogêneo. Há de todos os gostos: conservadores, democráticos, liberais, empresários, religiosos e cidadãos; muitos rejeitam propostas da esquerda sem desejar enfraquecer a democracia. O problema são os que desejam. O diálogo deve procurar essas diferenças, sem tratar todo eleitor de direita como extremista, mas também, é claro, não pode ser condescendente com práticas autoritárias.
A sexta tarefa diz respeito à educação. Primeiro, em relação às redes sociais, é necessário fortalecer a educação midiática, ampliar a transparência sobre publicidade política e enfrentar mecanismos de manipulação e campanhas coordenadas de desinformação. Segundo, na minha experiência, a mais importante envolve a educação política. O governo já sancionou, sem vetos, a Lei 15.468/26, que insere conteúdos de educação política e direitos da cidadania no currículo obrigatório da educação básica em todo o Brasil. Trabalhei quase vinte anos nesse campo e posso assegurar que é fundamental. A experiência democrática não se resume a campanhas eleitorais. É preciso ampliar a formação cidadã nas escolas, nas universidades, nos sindicatos, nas associações comunitárias e nos espaços de participação pública. Combiná-la com educação midiática via campanhas governamentais na TV seria o programa perfeito. As pessoas precisam aprender a reconhecer a diferença entre crítica e ameaça, entre informação e propaganda, entre uma divergência legítima e uma tentativa de desumanizar o adversário. Precisam sair da “lavagem cerebral” de que foram vítimas.
Não é assim que muitas vezes nos referimos aos bolsonaristas nesta campanha, de que teriam sido vítimas de uma “lavagem cerebral”? Em parte, é verdade, se pensarmos na reeducação que parcela da direita sofreu graças às bolhas da internet, que formaram crenças, valores e comportamentos. O termo surgiu na década de 1950, derivado do conceito chinês xǐ nǎo (literalmente “lavar o cérebro”), usado para descrever os métodos de persuasão extrema aplicados em prisioneiros de guerra. É claro que aqui não foi nada disso, mas, de fato, alguma coisa do xǐ nǎo se preservou: pessoas isoladas em bolhas, destruição de uma identidade anterior (de direita) e sua substituição por outra (de extrema direita). Bombardeados por mensagens nas redes sociais, cidadãos que sentem as mazelas da precarização foram expostos a novas doutrinas que se consolidam na rotina de acesso às redes sociais. De uma certa forma, são semelhantes a processos de seitas destrutivas.
Mas e se a “lavagem” nunca tiver sido o termo correto desse processo? Quando falamos em lavagem, falamos em processos associados a uma… máquina de lavar, não é mesmo? Mas, nas máquinas modernas – ou pelo menos a que tenho em casa – lavagem é um processo dividido em ciclos: molho, em que se dá a ação química; lavagem propriamente dita, em que se dá a ação mecânica; e centrifugação, em que se dá a ação física de extração da água. O molho enche a máquina de água como a extrema direita enche a mente dos bolsonaristas de fake news; a lavagem é onde propriamente toda a crítica é retirada do cidadão. Cabe a esquerda, se quiser reverter esse processo, atuar na centrifugação: é preciso remover toda a sujeira que a extrema direita depositou na mente de cidadãos que até então eram de direita somente.
Como se centrifuga uma consciência bolsonarista? Primeiro, como o tambor de sua máquina de lavar, é preciso agir em alta velocidade, iniciar logo no início do mandato. A televisão é um excelente recurso para isso, pois as campanhas educativas devem colocar os bolsonaristas contra a parede, exatamente como faz o tambor de sua máquina de lavar com suas roupas. Você pode variar os ciclos, isto é, os instrumentos de educação para cidadania: declarações presidenciais em televisão, programas educacionais em escolas, ações em grupos de WhatsApp. É claro que esta é uma descrição metafórica: o que ela pretende dar conta é da natureza do processo de educação política.
Corrigir rumos
A crítica é necessária, mas deve vir acompanhada de uma proposta de sociedade capaz de oferecer reconhecimento e segurança. A responsabilidade não cabe somente ao presidente, mas a nós, apoiadores de Lula, que também precisamos refletir sobre sua atuação política. Se queremos superar a polarização, não podemos tratar todos os eleitores de direita como ignorantes, egoístas ou fascistas. E nem pesar a mão nos memes, generalização que reproduz o desprezo que pretendemos combater e fecha a possibilidade de diálogo com aqueles ainda dispostos a ouvir. É preciso escolher entre alimentar a humilhação e construir conversas que permitam a discordância. Eu posso estar errado, mas ainda acredito na empatia. Não é necessário convencer todos. A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro não encerra essa disputa e nem a vitória de Lula inaugura um novo período se não for reconhecida a possibilidade de governar segundo o programa aprovado nas urnas pela maioria. A democracia não exige que o país deixe de ter direita e esquerda, mas que ambas reconheçam os limites que tornam possível a convivência. O maior desafio do Brasil não é eliminar o conflito, mas impedir que ele destrua as regras comuns. Se a vitória de Lula deve significar alguma coisa para além da alternância presidencial, que seja a oportunidade de reconstruir a democracia no cotidiano: reconhecer que o voto do trabalhador não pertence ao patrão, que a derrota não retira a dignidade de ninguém e que o adversário político continua sendo um cidadão. Uma sociedade democrática não se mede apenas pela liberdade que concede aos vencedores. Mede-se também pela proteção que garante aos que perderam, aos que discordam e aos que não possuem poder econômico para impor sua vontade, mesmo que eles não se deem conta disso. É preciso fazer o caminho contrário da humilhação para o reconhecimento, do ressentimento para a participação e da hostilidade para um conflito político que respeite a liberdade.