
Tenho uma relação complicada com o celular: é meu instrumento de trabalho, onde edito vídeos para as redes sociais, crio posts, designs, atendo clientes e pesquiso referências de outros criadores. Portanto, é claro que meu tempo de tela é elevado. Porém, tenho notado que acabo usando o que aqui em Portugal chamamos de “telemóvel” para descansar ou buscar momentos de lazer (como se assistir a trinta e cinco vídeos em quinze minutos fosse, de fato, descanso ou lazer).
É um vício, não tenho como me defender. Checar as mensagens de tempos em tempos, me distrair por quarenta minutos imersa na tela, sem nem perceber. 90% de todo conteúdo que me atravessa, completamente inútil, por vezes até desagradável. Não retenho nenhum conhecimento, não me recordo das histórias contadas (a maior parte seguida de algum CTA – call to action – como “nesse curso te ensino a… / clique no link para saber mais… etc.), e ainda saio mais cansada mentalmente do que se estivesse fazendo algo de útil ou mesmo praticando o ócio, tão menosprezado nos dias de hoje.
Adoro meu trabalho, em que posso exercer no dia a dia a minha criatividade, isso me gera um legítimo prazer. Tento sempre ter clientes cuja atividade me interesse de alguma forma, o que torna ainda mais divertido pensar em novas ideias e gerenciar todo o conteúdo. Atendo há dez meses uma alemã que trabalha com terapias ancestrais e, há quase um ano, uma americana que faz sound healing, por exemplo. Claro que lido com clientes de ramos que não me interessam tanto também, como imobiliário ou esportes.
Meu ponto é: adoro meu trabalho, mas não gosto de lidar com mídias digitais. Me entristece estar contribuindo, de certa forma, para esse grande problema social: o vício nas telas. Me preocupa imensamente o futuro, recheado de tecnologia, inteligências artificiais, cada vez mais isolamento e ansiedade. Eu fui uma criança analógica, não tínhamos televisão em casa, por escolha do meu pai. Inclusive me sentia super excluída quando as amigas começavam a discutir a novela ou o Big Brother. Eu lia muito, devorava os livros, brincava de Barbie, Polly e ouvia muita música. E, mesmo assim, hoje sou uma adulta viciada em telas.
Não posso deixar de, mais uma vez, expressar a minha inquietude com relação a essa nova geração que já nasce com o celular no rosto, exposta desde muito nova às redes sociais, ao brilho intenso das telas, à facilidade de ter um agente de IA sempre perto e à impessoalidade de uma conversa por mensagens de texto. Será que se entediarão e renegarão as tecnologias, tendenciando ao offline? Ou serão adultos não funcionais, sem inteligência social e emocional? Veremos em algumas décadas.