
Gosto tanto de alguns elementos do futebol, que relevo os demais, eventualmente insuportáveis para o meu temperamento e jeito de ser. Meu apego ao futebol se deve a duas palavras: paixão e pertencimento. E esses sentimentos são tão fortes que atenuam um ambiente repulsivo, incentivado pela mídia, porque, como outras idiotices, dá lucro, e é o lucro pelo engajamento de idiotas que interessa, pouco importando valores como a civilidade, o respeito e o bom senso. Talvez 90% do que permeia o ambiente futebolístico me provoca repulsa. E nisso está a alardeada “rivalidade”, que alguns acham “divertidíssima”, e eu acho um gatilho pra sentimentos pobres, como a desonestidade intelectual, a inveja, o descritério leviano e, muitas vezes, a miudeza do sadismo.
Terminada a Copa do Mundo, duas situações me provocaram especial asco: uma foi ver alguns se estrebuchando aos gritos de alegria porque a Espanha ganhou da Argentina. Torci pra Argentina, mas foi a atitude em si que me incomodou. Acho pequeno. E qual a principal motivação pra rejeitar tanto o vizinho? Porque poderia chegar a quatro título, e o Brasil tem cinco. Estariam nos nossos calcanhares. Mas… é sério que isso importa tanto? Pra mim, se o outro tem as glórias dele, ok, eu tenho as minhas e cada um curte as suas.
Também me incomodou a atitude do Central, o rival do Newell ‘s em Rosario. O Newell’s foi onde o Messi se formou para o futebol, e é confessamente o seu time do coração. Vocês acreditam que o Central postou nas suas redes uma foto da seleção argentina, parabenizando-na pela campanha e OMITIU O LIONEL MESSI? Usou foto do jogo contra a Jordânia, em que Messi, talvez o maior jogador argentino de todos os tempos, foi poupado (porque a Scaloneta já estava classificada em primeiro lugar na fase de grupos).
Depois, diante da inevitável repercussão negativa, alegaram que era a única foto em que aparecia o Lo Celso, jogador formado na base do Central. Bah, a emenda foi frágil pra consertar a barbaridade que a tal da rivalidade provocou. Que me perdoem os torcedores do Central, mas me deu muito nojo, e acho que o clube justificou o apodo que traz há uns cem anos. Assim como o Newell’s é o “Leproso”, o Central é o “Canalla”. Por quê? Porque na época o Central se recusou a participar de amistoso beneficente para um hospital de leprosos (daí o apelido do rival, também). E agora voltaram a ser mesquinhos.
O cara que apaga o outro, suas glórias e sua História dá atestado da sua própria miudeza.
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Amo o meu Grêmio. Sou fanático no sentido literal da palavra “fã”. E isso já basta em intensidade. Com o outro, no máximo, faço brincadeiras no campo do folclore, uma galhofa que seja evidente tolice, capaz de provocar riso cúmplice no alvo da zoação. Mas acho o torcedor médio um idiota, às vezes com o seu próprio time (o “corneteiro”). E é sádico. Se tenho um amigo colorado, e ele está genuinamente triste, entendo essa tristeza (fico muito triste com o meu em fases ruins como a atual, aliás). Se um amigo que amo está triste do jeito que fico, não gosto de vê-lo assim. Pra mim, isso é uma das coisas mais básicas da vida, e é do fundo do coração. Não é porque sou “bonzinho”. É porque sinto assim.
Aí acham que não tenho senso de humor. E é todo o contrário. Basta uma pequena sofisticação intelectual, não precisa de muita, pra filtrar o que é zoação sadia do futebol (sensacional aquela dos colorados de que somos “Big Brother Brasil”, BBB, porque caímos três vezes pra série B. Aí dizem que têm mais títulos regionais, e eu os parabenizo. Na boa, isso não me atinge) e o que é depreciação do outro, apagamento da História alheia e até calúnia e agressão física. Desde criança eu digo (e quem me conhece da vida toda pode confirmar): não preciso odiar o outro pra amar o meu. Aliás, hoje eu vou mais longe: a necessidade de odiar o outro mostra certa fragilidade do amor pelo próprio.
Outra motivação pra ser “anti-Argentina” é a lista de melhor jogador. Sério, pessoal? Lista de “melhor jogador” no futebol, uma das atividades humanas em que a pluralidade aparece mais fortemente?! Um goleiro e um centroavante são ambos jogadores de futebol, e é como se fossem esportes diferentes. Zagueiro e armador, idem. Como ranquear quando há tantas diferenças? Acho Pelé, Garrincha, Maradona, Messi, Cruyff e Ronaldinho jogadores de estilos diferentes, mas todos na mais alta prateleira. E por que um precisa ser o maior deles? Entram aí até critérios subjetivos, de preferências por algum estilo. Ademais, é uma obsessão constrangedora por algo inútil e sem sentido, que leva do nada ao lugar algum.
Dizem que o Messi, “La Pulga”, é como uma maquininha que vai costurando o time adversário (acho ótima essa imagem usada pelo meu amigo Airton Gontow), e alguns atribuem a isso certo mecanicismo que seria o oposto da arte. Ora, aquela intuição do Messi, de passar a bola pro companheiro no exato instante em que o cara vai entrar livre área adentro não é mecânica. É intuitiva. É mágica. É arte. Diferente do Pelé. Diferente do Maradona. É só o Messi. Talvez seja algo particular: não costumo ser um cara muito competitivo e gosto de ser assim. Acho que a vida é muito melhor quando olhamos o outro com carinho e respeito, mesmo que eventualmente seja adversário ou vizinho.
De texto meu recente, aqui mesmo na SLER:
Vou falar de um ambiente que frequento com encanto desde a infância e sobre o qual, veja só, escrevi, de forma apaixonada e racional, oito livros de que me orgulho demais, mas, paradoxalmente, um ambiente que me captura só porque é viciante e desperta o poderoso misto de paixão com pertencimento, a lúdica “bola de meia, bola de gude”. Na real, é um meio que às vezes desprezo e do qual até busco emocionalmente alguma distância sanitária. Refiro-me ao futebol. Cara, o futebol é um contexto no qual as pessoas sofrem e se entregam com a alma, mas também é onde a leviandade e a frivolidade se instalam com alguma naturalidade. O nosso pior e o nosso melhor estão ali. O cara te ofende e depois diz “é só um jogo”, sabendo que te atingiu numa identidade sagrada de menino sem limites etários e que aquilo “não é só um jogo”, como também se diz e com razão (e emoção). No futebol, o sujeito é sádico, espezinha até os amigos, ri do sofrimento alheio mesmo que adore o desditoso, atribui ao outro, recreativamente, desqualificações que chegam a ser caluniosas e faz isso munido de teorias e imaginários que sabe ou tenta ignorar serem comprovavelmente fajutos, nega quase que a própria existência do adversário, tripudia a dor alheia, ainda que entre os aficionados do outro lado haja alguns dos seus afetos. Isso sem falar nos julgamentos apressados e definitivos sobre seres humanos tratados com leviandade desumana, inclusive entre os seus, nas lacrações e numa incrível tendência a opinar, mesmo que sem a informação necessária (e isso ocorre frequentemente, porque há bastidores do espetáculo que precisam ser preservados e jamais vêm à tona). No futebol, pratica-se a ação pusilânime de negar ou tentar apagar o outro, imputando-lhe defeitos exclusivos e, às vezes, fazendo isso até literalmente, com o arremesso de uma pedra ou algo assim, aquilo que chamamos, na vida civilizada, de agressão ou até tentativa de homicídio. Despertam-se a generosidade coletiva, o companheirismo e a solidariedade, mas também um egoísmo, um cinismo e uma violência que o cara comete por se achar genuinamente autorizado.
Sou um tipo estranho, que vive apaixonadamente o futebol, mas, de certa forma, o rejeita e é rejeitado por ser como é, por refletir o que reflete. Quem me conhece desde sempre sabe que dificilmente toco flauta. Ou melhor, até toco flauta, mas quando ela é o que tem de ser: uma galhofa, uma zoação consentida e apropriada ao momento e à circunstância. Como tem chato no futebol (mas quem se importa?)! Debocho quando sei que o meu interlocutor vai entender que aquilo é brincadeira e, sendo assim, é capaz de rir junto. Sou um tipo que se orgulha do inédito mundial conquistado pelo time do coração em 1983, mas que tem plena consciência da importância histórica do inédito brasileiro que o rival conquistou em 1975, quando era outro torneio, com outro nome e organizado por outra entidade, assim como foi o meu mundial (pelo formato da icônica Copa Intercontinental, nome hoje resgatado pela FIFA para diferenciar dos mundiais interclubes quadrienais). E penso: “Por que não posso me orgulhar do meu e valorizar o do outro? Por que não posso até mesmo acolher no meu íntimo a conquista histórica do outro, que pra mim também foi importante porque abriu caminhos? Por que não posso admirar ícones de outra camiseta?” Onde está escrito que pra sustentar a minha (enorme) paixão, eu preciso desconstruir o rival e odiá-lo? A minha paixão é frágil e não se sustenta? Quem foi que disse que o futebol é a exceção em que me permito ter prazer ao ver uma pessoa que amo sofrer?
Onde aprendemos a ser tão miúdos, cínicos e cruéis?
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A próxima Copa deve ter 64 seleções. Na primeira (1930), exatos cem anos antes, eram apenas 13 (nove sul-americanas e quatro europeias). Serão cinco vezes mais seleções que na primeira. Na primeira que o Brasil venceu (1958), eram 16 seleções (12 europeias e quatro latino-americanas, com o México agregado), e foram sempre 16, até 1978, quando a coisa começou a inflar, porque dava muita grana. Chovem críticas, porque, ao ampliar o torneio dessa forma, a FIFA fatura muito e faz política. Fica a dúvida sobre o quão é benéfico para a qualidade do torneio e para o futebol. E isso que nem falei sobre o lance das casas de aposta (“lance das casas de aposta” não foi ato falho, foi intencional, mesmo). Casas de apostas em esporte de competição é raposa no galinheiro. Mas quem liga? O importante é o business.
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Houve também uma perigosa generalização sobre a Argentina quanto à ausência de negros no time e a casos de racismo, como se a Espanha, onde joga e sofre o Vini Jr, fosse um exemplo de inclusão (leia o meu texto da semana passada sobre esse assunto), aliás, sendo justamente ela o país cujos governos colonizaram a própria Argentina e estabeleceram a inquisição. A Argentina do indígena Toro Martínez, que aboliu a escravidão na Constituição de 1853 (no Brasil, isso ocorreria 35 anos depois) e teria feito isso já em 1813 (bem no meio do período entre a Revolução de Mayo e a Independência), se o império brasileiro não tivesse implorado pra não dar esse exemplo que atrairia quilombolas loucos pra fugir do horror com cheiro de café e açúcar. O que temos mais aqui? Hipocrisia ou contradição? Faça a sua aposta! A seguir, reproduzo duas reportagens que fiz sobre a negritude na Argentina, uma em 1997 e outra em 2000, ambas pela Folha de S. Paulo; a primeira, quando eu era correspondente em Buenos Aires e a segunda já de volta em Porto Alegre:
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1997, em Buenos Aires
Um estudo arqueológico contesta dados oficiais segundo os quais não há presença de negros na Argentina. Segundo o responsável pelo trabalho, o antropólogo Daniel Schavelzon, os descendentes de africanos deixaram Buenos Aires em direção ao interior do país, onde vivem hoje em número reduzido.
“Os negros foram para o interior porque havia discriminação na capital. Eles existem em pequeno número, entre outros motivos porque, durante os conflitos dos quais a Argentina participou, foram colocados na linha de frente”, diz Schavelzon, que é diretor do Centro de Arqueologia Urbana de Buenos Aires.
Os locais onde há descendentes de africanos são as Províncias de Corrientes, Entre Ríos e Misiones, próximas do Brasil (Rio Grande do Sul) e do Uruguai.
A cidade de Buenos Aires, na época da Argentina colonial – mais de 200 anos atrás -, chegou a ter 30% da sua população composta por negros. A confirmação dessa tese ocorreu recentemente, quando Schavelzon e outros arqueólogos encontraram uma vasilha redonda de cerâmica africana, moldada artesanalmente.
Dados oficiais, divulgados no “Guía del Viajero 1997”, da Secretaria Nacional de Turismo, indicam que a população argentina é composta por 95% de brancos, 4,5% de mestiços (resultantes da mistura de brancos e índios) e 0,5% de índios das tribos mapuches, collas, tobas, matacos e chiriguanos. Não há registro de negros.
Dos 35 milhões de argentinos, mais da metade vive na cidade e na Província de Buenos Aires. São 10,1 habitantes por quilômetro quadrado espalhados pelo país.
O trabalho, mostrando a presença de população africana na formação étnica dos argentinos, foi divulgado em setembro passado, no Congresso Nacional de Arqueólogos, realizado em La Plata, capital da Província de Buenos Aires.
Vodu
Bem antes de ser encontrada a vasilha, haviam sido achados, em 1988, objetos de magia africana, como um boneco enforcado por um pedaço de corda -um legítimo exemplo de vodu- e perfurado no peito por meio de um pedaço de osso fino.
“A comprovação de que havia 30% de negros em Buenos Aires existe em função de censos do século 18”, afirma o pesquisador. “Depois, encerraram-se as emigrações africanas em 1807 e começaram as européias entre 1830 e 1840, houve a guerra pela independência, entre unitários e federalistas, e a do Paraguai, das quais os negros participaram ativamente e quase foram exterminados”, diz Schavelzon.
Numa expedição arqueológica realizada em 1928, já haviam sido encontrados objetos tipicamente africanos, que foram destruídos porque os pesquisadores da época desconfiaram de sua autenticidade. A convicção de Schavelzon, porém, é de que o achado era de um cemitério composto por corpos de escravos libertos.
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2000, em Porto Alegre
A influência da religiosidade africana não se restringe aos limites geográficos do Brasil na América do Sul. Não bastasse a existência de 200 terreiros de umbanda em Montevidéu, capital uruguaia, Buenos Aires já conta com mil deles.
Tais dados, apurados após investigação do antropólogo gaúcho Ari Pedro Oro, que escreveu o livro “Axé Mercosul” (1999, editora Vozes), surpreendem pelo fato de Buenos Aires ser formada por uma população majoritariamente branca. O traço étnico minoritário na capital argentina é o dos índios. Negros, não há.
“A implantação da umbanda, batuque e candomblé nessas e em outras cidades da Argentina e do Uruguai se iniciou há cerca de 30 anos”, diz Oro, que é professor de antropologia do programa de pós-graduação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). A influência da religiosidade afro-brasileira, de acordo com o antropólogo, parte do Rio Grande do Sul.
A umbanda é uma religião que nasceu no início deste século no Brasil, do sincretismo de elementos dos cultos afro-brasileiros (como o candomblé), do espiritismo, do catolicismo e do ocultismo.
Chegou ao Uruguai nas áreas fronteiriças com o Brasil, e começou a crescer muito no final dos anos 70 e início dos anos 80.
Guerras e pestes
Mesmo sendo surpreendente a atual influência afro-brasileira, Buenos Aires teve, no século passado, alguns traços étnicos africanos. Até o final do século 19, havia negros entre os portenhos. Guerras e pestes dizimaram os imigrantes africanos da Argentina, que chegaram a formar 30% da população de Buenos Aires.
As atuais práticas religiosas africanas na Argentina se limitam às influências gaúcha e uruguaia. Tanto é assim que só os nomes dos líderes religiosos já encerram um grande sincretismo. Exemplos: Hugo Watemberger de Iemanjá, Alfredo Echegaray de Ogum, Juan Aguirre de Oxum e Peggy de Iemanjá.
Os primeiros templos de religião africana a se instalar na Argentina foram os de Nélida (Baños) de Oxum, em 1966, e Elio (Machado) de Iemanjá, dois anos depois.
Os dois templos foram registrados no Registro Nacional de Cultos em 1970. Começaram pela umbanda e, em 1973, adotaram o “africanismo” (batuque).
Nélida e Elio são considerados precursores. Em 1979, segundo o antropólogo argentino Alejandro Frigerio, Elio de Iemanjá fundou a Confederação Espírita Umbandista.
Outras histórias contam, por exemplo, que a origem das religiões afro na Argentina está em três travestis que trabalhavam na noite de Rivera (cidade uruguaia que faz divisa com a brasileira Santana do Livramento) na década de 50.
Em Santana do Livramento os três teriam conhecido a mãe-de-santo Teta de Oxalá (Hipólita Lima), que os influenciou. O travesti Santiago Paves, a “Mara de Bará”, foi para Buenos Aires e manteve uma clientela fixa.
O antropólogo Alejandro Frigerio diz que realmente “Mara” existiu e foi um dos precursores de religiões afro em Buenos Aires. É possível que a história dela não seja contada oficialmente devido ao preconceito contra a homossexualidade.
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De acordo com o antropólogo argentino, o final do regime militar (de 1976 a 1983) favoreceu a proliferação dos cultos afro na Argentina.
Por temor à repressão, a maioria das casas de umbanda era clandestina. A imprensa costumava se referir negativamente à umbanda, definindo-a como “seita para gente ignorante, dos setores sociais baixos”, relacionada a “atividades criminais”. Os pais e mães-de-santo são “bruxos ou curandeiros”.
A mídia argentina passou a aceitar melhor as religiões afro-brasileiras nos últimos anos.
Frigerio indica dois motivos que levam os argentinos a recorrer à umbanda: a influência brasileira e a necessidade de apego a alguma fé.
A estrutura dos terreiros argentinos e uruguaios (chamados de “templos”) é semelhante à dos terreiros brasileiros, com a utilização da casa particular do pai ou da mãe-de-santo, normalmente na periferia das cidades. Os preços médios das consultas são de US$ 15 em Montevidéu e US$ 30 em Buenos Aires.